Le coeur n´a qu´une seule bouche

Não revi Alphaville. Bem, não hoje –  e quem raio quer viver em Alphaville? Morrer. Já morreu em Alpahville, um bocadinho? Bem, não hoje. E a culpa é de Truffaut. Não, não me enganei. Há muitos anos, nem sei quantos, sei no entanto que tudo cheirava a novo na sala, até o escuro era novo e o ar condicionado limpo, fui ver Alphaville. Não sei se era nova, a sala, cheirava, pelo menos, a de novo. Sempre troquei datas e acontecimentos, tinha-me enganado, portanto, não muito, porém, era Jules et Jim, no Fórum Picoas, num ciclo de cinema ao abrigo da Nouvelle Vague. Ó diabo. Tão velha estava a Nouvelle e  não sabia de nada dela — ainda não sei. Na altura tinha alegrias à hora certa, solitárias como os vícios. Outra: Gulbenkian. Os vidros rasgavam a sala de alto a baixo e fora era dentro: sempre fui feliz disso, e ainda. Respiro fundo. Descanso. Jardins. Ruas. Instituições no centro do mundo que nos aliviam do peso ignorância: museus, cinemas, teatros, galerias e livrarias. Bibliotecas. Já disse jardins, mais ou menos botânicos, ruas? Antiquários, passeios, esplanadas. Mais que tudo livros, textos e conversas. Conversas com os livros e os textos também. Música. Habituei-me cedo e bem a ir sozinha, sem interrupções que não fossem as minhas, sem enervantes toques rápidos e repetidos no braço, sem vozes a comerem-me a paciência. É horrível, não é, dizer isto assim? Da primeira vez que vi a menina Bailarina de Degas, depois de a circundar dentro do caixão de vidro, eu ponteiros de relógio, tive de me sentar a vê-la. Foi na Tate. Sentei-me no banco, daqueles bancos o mais ao lado, de onde via quase tudo, menos o outro lado. Quem quereria ficar lá comigo, sabe Deus quanto tempo foi o tempo que fiquei, só a pasmar, sem um único pensamento? De vez em quando dou por mim, não a rememorar, a ver, de facto, o peso perfeitamente distribuído para aquela posição. Sem interrupções, nem enervantes toques rápidos e repetidos no braço, sem vozes a comerem-me a paciência. Se voltar a ter um amor, logo logo vou-lhe perguntar: você adormece? Eu  queria. A ver filmes no sofá, no ballet, em conferências. Em tudo o que lhe desse seca e a mim gosto, ou mesmo que lhe desse gosto, queria um amor que adormecesse. Ao meu lado, claro, muito diferente de cada um para seu lado. Também não precisa de ter um ouvidinho de tuberculoso. Há qualquer coisa sexy num homem que ouve ligeiramente mal. E que adormece. Tudo está bem quando um homem adormece. Até o malinho que apetece fazer-lhe. Não vale a pena voltarmos ao mesmo, já tinha ficado assente que eu era horrível. Isto para dizer que acabei de rever Jules e Jim. Tinha, no entanto, planeado ontem um texto sobre Paul Éluard dito pela Natacha. Duas vezes na mesma vida o mesmo desencontro-encontro. Gosto-os tanto – ao Éluard de Natacha e ao Jules e Jim. Só poderia gostar mais se um amor que fosse meu, eu dele, ressonasse agora, ao de leve, o genérico.

Comentários a “Le coeur n´a qu´une seule bouche” (5)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    O “Jules e Jim” é uma visão poética e doce do ménage à trois — quase sem a invasão das chatices do dia a dia, do crédito, das prestações, da posse e do ciúme. Em filme fica bem, na vida real é que é o diabo.
    Este excerto do Alphaville deu-me vontade de o rever. Não sei se tenho dvd. A ver se descubro esta distopia que, além de Éluard, foi feita sob o signo de Borges e da sua refutação do tempo. Muito bem escolhido, tudo.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      A despeito dessa doçura de que fala e que de facto atravessa Jules et Jim, nunca tinha pensado nele como a visão poética do ménage à trois, apenas, se de poética se tratasse, a que só a juventude justifica — faz justa: o sentir é uma coisa muito antiga, alojada na amígdala e que não se submete à novidade do pensar do cortex frontal, a não ser por perfeita conjunção .

      Sabe, o meu Godard é o da Anna Karina, o de Vivre sa vie, o de Pierrot le fou e o de Alphaville. Ainda não cheguei ao seu, o de Seaberg. Não tenho autores de culto, nem filmes de culto — falta-me, para tal, uma cultura cinéfila — tenho recorrências. Tenho filmes, dois de Fosse, três de Coppola, estes e lailailailai, não vou listar todos porque não são assim tão poucos, que levo na mala quando vou por algum tempo para outro lugar. Tal como os livros. Não quer dizer que os vá ver ou ler. Apenas não quero sentir-lhes a falta.

  2. Turmalina diz:

    Alphaville seria um lugar insuportável para eu viver…

  3. […] Le coeur n´a qu´ne seule bouche – […]

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