Há um par de meses visitei Dachau. A localidade é uma pequena cidade a uns escassos quilómetros de Munique. O seu nome ficou gravado na nossa memória colectiva devido ao Konzentrationslager Dachau, o primeiro campo de concentração nazi, modelo para os milhares que se haviam de construir até ao fim da guerra e escola dos oficiais SS responsáveis pelo sistema. Dachau não foi um campo de extermínio, apesar de ter crematório e uma câmara de gás que, à excepção de umas experiências não devidamente confirmadas, não foi usada. Não deixou de ser, por isso, obviamente, um local de morte e desgraça.
Ao visitar o campo senti uma certa e justificada apreensão. Era a primeira vez que entrava num daqueles lugares. Ignorando as dezenas de americanos (turba à qual eu, talvez, já pertença um bocadinho), a primeira coisa que me causou impressão foi a localização do campo: está na cidade. Não no centro, e por ventura na altura a cidade não alcançaria directamente os seus muros, mas está longe de ser um local de terror isolado e distante do mundo civilizado. A segunda coisa que me marcou foi o bonito que é. E isso é algo de muito estranho. É certo, já lá não estão os espectros, nem os odores, e as árvores cresceram, mas a verdade é que o local é agradável. É na fronteira com os campos que circundam a cidade, portanto não lhe faltam os sons da natureza. Uma enorme e larga alameda, ladeada por frondosas árvores é, ironicamente, pacificadora. E aí me consciencializei da necessidade de manter a memória viva. A passagem do tempo tudo faz desvanecer e bastavam crescer umas heras e uma erva alta, que logo a floresta engoliria o KZ Dachau para o esquecimento, assim que morressem os últimos sobreviventes.
No entanto, aquilo que me deixou mais perturbado foi, ao sair, quando confrontado com aquele lugar belo, nada isolado, me pus a mim mesmo a questão: tivera eu vivido naquela Alemanha nazi, será que teria tomado parte naquela barbárie? Sei o que gostaria que fosse a resposta. Mas a perspectiva da nossa infalibilidade e, mais grave, de podermos ceder ao Mal as nossas forças para o propagar, foi essa, sem dúvida, a marca aterradora que me imprimiram os mortos de Dachau.


















É o que nos conta Jonathan Littel em “Les Bienveillantes”.
Refleti com você, Francisco, e me correu um arrepio na espinha…é verdade que não sabemos o que leva o homem a optar por agir dessa ou daquela forma.
Orte des Schrenkens die wir niemals vergessen durfen (places of terror we should never forget) lê-se neste placard (http://www.chgs.umn.edu/museum/memorials/berlin/berlinmem3.jpg) situado em plena Wittenberger Platz, bem no centro de Berlim — junto ao famoso KaDeWe (a segunda maior department store da Europa, depois do londrino Harrods), fundado em 1905 e à estação de metro, uma das mais antigas de Berlim, aberta em 1902, da qual partiram e pela qual passaram incontáveis comboios com destino aos dez campos de concentração enumerados no Wittenberger Platz Memorial - entre os quais Auschwitz, Treblinka e Dachau.
Foi desta proximidade entre o terror e a life as usual que então tanto me perturbou e deu que pensar que me lembrei quando li este seu belo texto, Francisco. Gostei muito.
Paradoxo. Nunca seria, Francisco, embora perceba a sua invisível incerteza.
Acho, da forma que o vejo, que no máximo seria um dos muitos rapazes — quase miúdos, mesmo — que foram obrigados a defender Berlin nos últimos momentos. Isso compreende-se, até eu teria sido — porque então o querer e o arbítrio contariam muito pouco.
Nunca um nazi arrematado pela convicção acrítica.