Karl Marx
Queridos Mortos

Fotografia de Karl Marx na qual não tem cara de mau…

Karl Marx morreu em Londres, no dia 14 de Março de 1883, às 14 horas e 45 minutos. No Sábado seguinte, dia 17, foi enterrado naquela cidade, no cemitério de Highgate, na mesma campa onde a sua mulher tinha sido deposta quinze meses antes. Na cerimónia estiveram presentes apenas dez pessoas, nomeadamente a sua filha Eleanor e os seus genros Charles Longuet e Paul Lafargue; os socialistas e amigos de longa data Friedrich Engels, Wilhelm Liebknecht, Gottlieb Lemke, Friedrich Lessner e Georg Lochner; e os cientistas Ray Lankester e Carl Schorlemmer.
Não obstante a convicção de que «seria despropositado perderem-se ali em discursos muito pomposos, até porque ninguém detestava mais veementemente esse palratório do que Karl Marx», como então bem lembrou Wilhelm Liebknecht, o facto é que foi proferido um pequeno discurso por Friedrich Engels, em inglês, após o qual Charles Longuet leu três breves mensagens, em francês, enviadas pelos socialistas russos e pelos ramos francês e espanhol da Associação Internacional dos Trabalhadores, às quais se seguiu uma também curta declaração, em alemão, feita por Wilhelm Liebknecht, em representação do Partido Social-Democrata alemão.
Ora, estes breves discursos, como num outro lugar escrevi (ou estou ainda a escrever, já não sei!), apesar da sua simplicidade, ou talvez por isso mesmo, permitem indicar os dois principais aspectos a partir dos quais julgo que deve hoje propor-se uma releitura crítica do marxismo: o primeiro tem a ver com o carácter apaixonado com que o pensamento de Marx foi desde o início acolhido e rejeitado, o que impediu – e impede ainda – uma compreensão do marxismo que permita aproveitá-lo naquilo que tem de integrador; o segundo diz respeito à percepção imediata que o marxismo teve do pensamento de Marx, a partir da qual se construíram três desvios que historicamente resultaram: a) na progressiva desvalorização da acção política; b) na convicção da preeminência do económico sobre o social; c) na pretensão de uma aplicação absoluta e universal das ideologias.
Não tenho espaço para desenvolvê-lo aqui. Posso brevemente explicar, no entanto, porque é que o pensamento e a obra de Karl Marx precisam hoje de ser desenterradas.
Como disse Engels, no fim do referido discurso, «Marx era, antes de tudo, um revolucionário. A sua verdadeira missão na vida era contribuir, de uma maneira ou de outra, para a queda da sociedade capitalista e das instituições do Estado que ela trouxe à existência; contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente da sua própria posição e necessidades, consciente das condições da sua libertação. Lutar era o seu elemento. E ele lutou com uma paixão, uma tenacidade e um sucesso como poucos tiveram. (…) Por isso Marx era o mais odiado e o mais caluniado homem do seu tempo. Os governos, absolutistas e republicanos, deportaram-no dos seus territórios. Os burgueses, conservadores ou ultra-democratas, competiam entre si para caluniá-lo. Mas de tudo ele se desenvencilhou, como se varresse uma teia de aranha, ignorando-os e respondendo apenas quando impelido por uma extrema necessidade. E morreu amado, reverenciado e chorado por milhões dos seus companheiros trabalhadores revolucionários – das minas da Sibéria à Califórnia, em todas as partes da Europa e da América – e eu atrevo-me a dizer que, embora ele possa ter tido muitos opositores, dificilmente teve um inimigo pessoal. O seu nome perdurará pelos séculos, tal como a sua obra!»
No entanto, segundo Louis Althusser (Sobre a Relação de Marx com Hegel), é este «o grande escândalo de toda a história intelectual contemporânea: todos falam de Marx, todos se dizem mais ou menos marxistas em ciências humanas ou sociais. Mas quem se deu ao trabalho de ler realmente Marx, de compreender a sua novidade e de extrair daí as respectivas consequências teóricas?»
Voltando ao enterro de Marx, Wilhelm Liebknecht, no seu discurso, pouco depois «do maior amigo e colega de Marx lhe ter chamado o homem mais odiado do seu tempo, [disse que] isso era verdade. Ele era o mais odiado, mas também o mais amado. O mais odiado pelos opressores e exploradores do povo, o mais amado pelos oprimidos e explorados, desde que eles estivessem conscientes da sua posição. O povo oprimido e explorado ama-o porque ele os amou. Porque o morto cuja perda aqui choramos foi grande no seu amor e no seu ódio. E o seu ódio tinha o amor na sua base.»
Ora, este amor e este ódio pelo homem e pela doutrina multiplicaram-se de tal maneira que, abandonando o âmbito propriamente civil, onde nasceram, foram então politicamente assumidos e protagonizados pelos Estados. A guerra, que deflagrou na Europa, aliou à disputa pelo alargamento dos mercados a vontade de expansão ideológica, a qual, estendendo-se violentamente a todo o mundo, se polarizou em dois blocos política e economicamente rivais e opostos. A alma da revolução, contudo – isto é, o carácter familiar e civil de onde brotara –, tanto da liberal quanto da socialista, perdera-se neste processo, porquanto já não se lutava por uma transposição democrática dos novos valores sociais para a esfera da acção política, mas, ao contrário, pela determinação política e económica da totalidade da vida social dos seres humanos.
O esfriamento da guerra, contudo, que, em consequência directa dos seus horrores, se verificou na segunda metade do século XX, acarretou um progressivo arrefecimento ideológico, o qual, se teve a virtude de, num primeiro momento, conter as terríveis tensões que então se viviam, culminou, depois, na imposição, em todo o mundo ocidental, de uma ideologia da indiferença, por meio da qual intencionalmente se esqueceram as diferenças ideológicas que conferiam inteligência à acção política e inconscientemente se estabeleceram as formas desviadas e desviantes que estão na base da nossa organização social.
Ora, a rejeição generalizada do pensamento de Marx, produzida ao longo deste processo – negando-o, primeiro, e esquecendo-o, depois –, acarretou a rejeição dos evidentes progressos sociais historicamente alcançados pelos movimentos de inspiração marxista e, deste modo, a rejeição dos inegáveis avanços civilizacionais no interior dos quais eles se realizaram. Eis porque é preciso hoje desenterrar Marx, compreendendo aquilo que tem de morto e aquilo que tem de vivo.
Com efeito, se o capitalismo foi capaz de desenvolver as forças produtivas de um modo e a um ponto até então insuspeitados, como Marx não hesita em admitir (vide, por exemplo, o Manifesto do Partido Comunista), a verdade é que este aumento da riqueza, por si mesmo, de modo nenhum se traduziu numa melhoria generalizada das condições de vida das populações. Ao contrário, o modo pelo qual os operários e os trabalhadores agrícolas, nas sociedades capitalistas do terceiro quartel do século XIX, estavam obrigados a lutar pela sobrevivência implicava necessariamente a sua degradação física e moral, facto que foi inclusivamente atestado em vários relatórios oficiais, referidos pelo próprio Marx no Manifesto do Lançamento da II Internacional e n´ O Capital.
Já no Manifesto do lançamento da II Internacional, com efeito, escrito entre 21 e 27 de Outubro de 1864, Marx fizera referência ao relatório de um inquérito ordenado em 1863, pela Câmara dos Lordes, no qual se concluía que as condições de vida (alimentação, abrigo, vestuário, higiene, horas de trabalho, etc.) dos criminosos condenados a trabalhos forçados na Escócia e em Inglaterra eram objectivamente melhores do que as dos trabalhadores agrícolas destes países e mais ainda do que as da maior parte dos trabalhadores especializados dos estabelecimentos industriais do Leste de Londres.
O Capital, mais tarde, voltará a este tema, afirmando que «o carácter antagónico da acumulação capitalista e, consequentemente, das relações de propriedade que dela derivam, abrange-se com uma tal facilidade que até os relatórios oficiais sobre este assunto abundam em vivos ataques pouco ortodoxos contra “a propriedade e os seus direitos”, [como é o caso, por exemplo, do oitavo relatório sobre saúde pública, publicado em 1866, no qual o Dr. Julien Hunter escreve:] “Embora o meu ponto de vista oficial seja exclusivamente médico, a mais elementar humanidade não me permite esconder outro lado do mal. Este, chegado a um certo grau, implica quase necessariamente uma negação de todo o pudor, uma promiscuidade revoltante, uma exposição de nudez que são mais próprias das bestas que dos homens. Estar submetido a semelhantes influências é uma degradação que, pela sua duração, em cada dia se torna mais profunda. Para as crianças criadas nesta maldita atmosfera, é um baptismo de infâmia. E é embalarmo-nos na mais vã esperança pensar que pessoas colocadas em tais condições como em outras circunstâncias piores venham a esforçar-se por atingir uma civilização cuja essência é constituída pela pureza física e moral.”»
Julgo que é para todos evidente não só o extraordinário caminho que percorremos desde então, como também a enorme importância que nesse caminho tiveram os movimentos de inspiração marxista. É um erro, porém, reduzir o alcance histórico das transformações políticas realizadas nos últimos 150 anos, no mundo ocidental, à melhoria generalizada das condições de vida das populações, porquanto estas possam ser alcançadas, pelo menos durante um certo período de tempo, sem ter em conta a dignidade essencial de cada ser humano, isto é, sem que cada indivíduo esteja, ou possa estar, implicado no seu próprio processo de desenvolvimento histórico e social.
Ora, é justamente este reconhecimento, elevado à esfera da acção política, da dignidade própria de cada indivíduo existente numa determinada sociedade, aquilo que confere valor aos progressos materiais que nela se vão alcançando, sendo que nos parece inegável que a actual possibilidade generalizada de uma afirmação política individual deve muito ao advento do marxismo.
A união dos trabalhadores, com efeito, que Marx insistentemente reivindica como elemento chave para o sucesso da sua luta – «Proletários de todo o mundo, uni-vos!» –, adquire todo o seu sentido ao operar a transformação da luta de classes em luta política. E se «toda a luta de classes é uma luta política, (…) a organização do proletariado em classe [transforma-o], deste modo, em partido político» (Manifesto do Partido Comunista).
Para Marx, com efeito (ainda que aqui as palavras sejam de Engels), «toda a luta de classes cujo sentido é alcançar a liberdade, apesar de, em última análise, se converter num problema de emancipação económica, tem um inevitável carácter político, já que toda a luta de classes é uma luta política» (Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã), facto que confere uma dignidade nova aos seus intervenientes, que, deste modo, lutando, se reconhecem senhores da sua própria história e, neste sentido, participam na realização do seu destino.
É este, do meu ponto de vista, o sentido mais profundo da tese de Althusser (Sobre a Relação de Marx com Hegel), que afirma que «a união, ou fusão, do movimento operário e da teoria marxista é o maior acontecimento da história das sociedades com classes, quer dizer, praticamente de toda a história humana.»
No entanto, se não repararmos na importância capital de Marx e do marxismo na realização histórica desta possibilidade do reconhecimento do valor próprio de cada ser humano, concretamente traduzida na atribuição universal de uma dignidade política objectiva, será muito difícil, senão impossível, reencontrarmo-nos com os princípios que estão na base da actual diferença civilizacional do Ocidente – nomeadamente os princípios da separação dos poderes temporal e espiritual; da individualidade essencial e auto-determinação do ser; e da dignidade da pessoa humana –, sem os quais não só não seremos nós próprios, como nada então teremos para oferecer.

Comentários a “Karl Marx” (4)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Grande texto, Gonçalo! Li-o e reli-o com muito interesse. E também os comentários lá em cima, no post do MSF. Concordo inteiramente. Com a necessidade de recuperar e de repensar muitos dos problemas que entao preocupavam e moviam Marx e que estão muitos deles aí, porventura sob outra veste. E também com as suas dúvidas quanto ao acerto das suas (dele, Marx) respostas ou à ausência de alternativas. Creio que a Doutrina Social da Igreja teve e tem tido um contributo muito relevante nestes domínios do trabalho, da justiça social e da repartição da riqueza: só queria era ter mais tempo para ler e reflectir mais sobre estas questões, que muito me interpelam. Gostei muito. Parabéns.

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Obrigado Joana. Marx para mim é uma surpresa. De difícil leitura, como todos os alemães e hegelianos; fundamentalmente errado, como todos os materialistas e positivistas radicais; diz muita coisa acertada e, sobretudo, é fundamental para a compreensão da nossa história.
    Repare nisto. Nasceu-me há pouco mais de um mês, como sabe, mais uma filha. Linda. Sossegada. Amorosa. Mas o banco não quer saber. Como estou a pedir um empréstimo para reconstruir uma casa, com a subida do agregado sobe automaticamente o spread. Qualquer dúzia de economistas lhe explicará a evidência disto: com um agregado maior passo a fazer parte de um grupo (não disse classe!) economicamente mais arriscado, porque normalmente mais incumpridor. Como tal, o banco empresta, mas leva-me mais caro.
    Eu julgo que o banco deveria emprestar se eu tivesse condições para pagar, levando-me, para tal, o justo preço. Mas não. A lógica é esta: 1. Agrupam-me de acordo com características predefinidas; 2. Quanto mais pobre for, de acordo com a minha categoria, mais terei de pagar para ter o mesmo dinheiro.
    Esta é a lógica do capitalismo. E nem estará mal que assim seja. É preciso é que a política seja o exercício de uma justiça que igualmente considere a todos — sendo que todos vivem desigualmente. Daí a denúncia de Marx ter sido tão importante. Mais: ela precedeu o olhar da igreja sobre a vergonha a que eram votadas as vidas daqueles que nasciam pobres.
    O pior é que, desde então — e aí Marx e, sobretudo, os marxistas e também os liberais, estão profundamente errados — têm tentado e conseguido confundir economia e política e governar-nos de acordo com a dita lógica capitalista, como se a liberdade humana fosse tão pouco ou fosse nada. Para desentranhar a política da economia será preciso, no entanto, realizar a democracia, promessa do mundo ocidental que continua por cumprir. E para tal temos que refazer o caminho até ao início da modernidade, à sua raiz, quando essa promessa em vários lugares e de diversas maneiras foi feita, e perceber, no que diz respeito a Marx, aquilo em que ele realizou esse caminho e aquilo em que o impediu. Mas não podemos deixar de passar por lá. Esquecer Marx é esquecermo-nos a nós.

  3. João Moita diz:

    Texto maravilhoso. Para mim aqui no Brasil, no momento que estamos vivenciando de eleição de uma presidente que lutou contra a força opressiva da direita militar, é um texto para uma reflexão. Tirar lições da obra de Marx para a vida. Parabéns.

  4. Fabiano diz:

    Gonçalo,
    Bom dia, muito bom o texto.
    Mas na sua visão as classes sociais apontadas por Marx sobre (capitalistas e proletariado) como podemos aplicar nas relações atuais do nosso dia-dia na sociedade?

    Um abraço e parabéns pelo conteúdo.

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