Inception



0.30. Sonho. É a primeira que vez que tenho a percepção de que sonho enquanto escrevo no cemitério. Como se pudesse pertencer ao mundo real isso de escrever num cemitério. Agora que sei que sonho enquanto escrevo no cemitério, quero sonhar um outro sonho dentro do sonho. Quero sonhar dentro do sonho que acredito que não estou num sonho. Um outro sonho dentro do sonho que me dê de novo a ilusão de que estou no mundo real quando escrevo no cemitério.

0.35. Sonho um sonho dentro do sonho. Adormeci enquanto me sonhava a escrever no cemitério. E agora sonho que estou de volta ao mundo real. E que em cinco minutos sonhei um filme inteiro de quase duas horas e meia. Um filme sobre sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos.

0.40. Depois de ter sonhado um filme inteiro sobre sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, sonhei que o Francis Fukuyama estava ao meu lado no cinema. E que soprou ao ouvido do meu eu sonhado, envergonhadamente, que se tinha enganado quanto ao Fim da História e do Último Homem. Mas que agora estava certo de que não se iria enganar de novo. Que o filme que ambos sonháramos, o tal sobre os sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, era o Último Filme. O do Fim do Cinema. O do Fim da Cultura. Depois dele, a guerra entre a cultura de massas ou entretenimento e a cultura inteligente, sofisticada ou cultivada, entre o blockbuster e o Filme de Autor, entre Cameron e Lynch, tinha finalmente – depois de uma eternidade do mais absoluto divórcio — chegado ao fim. Que os dois corpos em que o mundo cultural desde sempre se dividiu se tinham fundido num só. Numa única sala, num único espaço fechado, o tal onde sonháramos o filme sobre sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, estavam lá os dois corpos no início da projecção. E acabaram um só no final da projecção.

0.45. Voltei a sonhar que sabia que estava a sonhar. O culpado foi Fukuyama e o seu empurrão que me despertou do sonho dentro do sonho. E que me fez entrar num outro sonho, em que sonhava que o mesmo me estava a implantar uma ideia dentro do sonho que me levava a acreditar na sua profecia.

0.50. Sonho agora que consulto o Grande Arquitecto PMS sobre o mundo em que o meu eu vive, o real ou o sonhado. A esta hora, aguardo ainda, ansiosamente, o seu diagnóstico sobre o meu eu e o seu delírio, sonhado ou real, sobre o Último Filme.

Comentários a “Inception” (5)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo, mesmo sem procuração do visado, sempre lhe digo que o PMS está out of the office. Aproveito para lhe dizer que também vi o Inception e partilho os entusiasmos. Bom filme a que muito bem responde o seu texto.

    • Diogo Leote diz:

      Muito obrigado pela sua atenção, Manuel. Em todo o caso, é bem possível que encontre o PMS daqui por uns minutos, quando voltar à minha vida sonhada.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Ó Diogo esta minha prosaica cabeça não tinha pensado nessa hipótese nolania!!! Bem visto. Seja como for, se eu acordar de algum sonho não quero encontrar aquele louco do PMS. Valha-me Deus!

  2. O sonho é uma das faces da vida real.
    Sonhamos com o que somos e sonhamos com o que podemos ser.
    O sonho é uma actividade não selectiva da mente.
    O sonho não resulta inteiramente das nossas relações com o mundo exterior. Muito há para desvendar.
    O sonho poderá ser a explicação simbólica dos nossos recalcamentos.
    O sonho é uma actividade autónoma da mente, porque não controlamos.
    Será a alucinação um conteúdo onírico objetivado?
    E a loucura? Poderá ser um sonho de que não se acorda? Um sonho com aparência de vigília?
    Quanto ao filme… vi a considero-o genial.

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