
Na Broadway, já ganhava 500 dólares por semana, e bastara-lhe a experiência de um filme para se desiludir de Hollywood. Tinha 35 anos e preparava-se para se resignar a uma existência sombria.
Humphrey DeForest Bogart nascera a 23 de Janeiro de 1899, embora o departamento de publicidade da Warner o dê, congeminando subtil variação, como nascido no dia de Natal. Um menino Jesus noir.
Numa tarde de Outono, estava 1934 a chegar ao fim, preparando-se para protagonizar a peça “The Petrified Forrest”, de Robert E. Sherwood, o actor Leslie Howard convidou-o para ser seu parceiro e fazer o papel de Duke Mantee, “a foul mouthed vicious killer”. Bogie aceitou e, grande salto, trampolim para outras famas. A peça foi um êxito e a Warner quis fazer o filme. Howard aceitou com a condição de que Bogart fosse com ele e voltasse a ser, como na peça, um Duke Mantee que, como diz Jorge Luis Borges que viu o filme, era um “gangster fatigado, resignado a matar (e a fazer-se matar) como os outros a morrer”. É muito provável que Bogart nunca tenha lido esta tão exacta definição, mas mesmo assim caprichou em não fazer outra coisa que não fosse dar-lhe razão.
Ainda assim, Hollywood não se convenceu logo. Os thirties eram o tempo de heróis à Gary Cooper, um “gentle giant” que sumarizava a inocência da América, galante e obstinado a lutar pela Boa Causa. E depois, como era belo. Até o insuspeito Hemingway lhe caiu nos braços: “the most beautiful man I ever met!”. A beleza de Cooper submergiu a década, o seu “play natural” também. Era uma água cristalina e Bogart era homem para beber tudo menos água.
A década seguinte, quando a Guerra, modelo WWII, lhes caiu na cabeça como um tijolo, mudou os americanos. Os novos heróis de Hollywood queriam-se “rough, tough and ready for anything” à maneira de Clark Gable. Bogart pensou duas vezes antes de ir a jogo. “Rough and tough” era como ele, mas porque raio é que haveria Bogart de estar “ready for anything”?
Quem melhor compreendeu Bogart, foi uma mulher que nunca foi mulher dele (falo menos em termos bíblicos que nisso não me meto, mas nos termos notariais que dão direito a pensão alimentar). Lulu, a lendária Louise Brooks, percebeu-o da cabeça aos pés e nada faz um homem mais feliz do que ver a nossa idiossincrasia apanhada por um possessivo raio xis (eu bem o topo, PN!).
Lulu viu logo que ser actor cansava Bogart – o homem não tinha energia para actividade tão extenuante. Pensou ela: ou desistes ou fazes da debilidade o teu trunfo. Valeram-lhe os ingleses que tinham vindo representar Chekov e Shaw na Broadway. Trouxeram um estilo que rompeu com o “more a fight than a play” dos yankees. E Bogart, nesse “new and quiet and subtle style of acting – a prose style” sentiu-se como peixe no mar, o cherne de Louise Brooks.
Hollywood demorou 34 filmes até aceitar a verdade de Miss Brooks. Matara Bogart a tiro em 12 filmes, em 8 ou o electrocutou ou enforcou, condenara-o a prisão perpétua em 9. O ponto mais disgusting da sua carreira foi uma coisa chamada “The Amazing Dr. Clitterhouse” a que, mais por raivosa vingança do que por ironia, chama “The Amazing Dr. Clitoris”.
Mas, de repente, fez-se luz. Uma série de mudanças tecnológicas que não vêm ao caso, permitiram criar a atmosfera visual do que hoje chamamos film noir – sombras muito longas, rostos obscurecidos, formas enigmáticas num espaço recortado por fitas de luz. E isso, que antes não imprimia, passou a imprimir. Em filmes de Raoul Walsh (High Sierra e They Drive by Night), John Huston (Maltese Falcon) e Michael Custiz (Casablanca), Bogart aparece como uma Nossa Senhora dos Aflitos, filmado, pelo menos em três deles, pela mestria de Arthur Edeson, um dos directores de fotografia que foi expoente do estilo. Em Maltese Falcon a mão prodigiosa de Edeson está por todo o lado, nos ângulos baixos de câmara, nos planos nocturnos sinistros e ameaçadores, como em Casablanca está na densa bruma que inventou no plateau para fazer o exquisite recuo de câmara quando Bogart e Claude Rains caminham para o começo de “beautiful friendship” deles. Nesses planos, assim iluminada, via-se finalmente o que a adorável Miss Brooks chamava “the face of St. Bogart”.
Um rosto e um olhar vazio. O “blank look” era, é outro dito de Lulu, a chave do magnetismo sexual de Bogart: “devassa-nos dá nome mesmo à mágoa”, escreveu o poeta Ruy Belo.
Trabalho e whisky, sem sono e comida parecem ter sido os ingredientes da receita de Bogart contra a inércia. O efeito, naqueles anos de cepticismo e desilusão, foi portentoso: um rosto velho, místico e petrificado que inaugurou o niilismo como forma de representação.
O resto são filmes e histórias, Faulkner, Hawks e Bacall que Bogart, St. Bogart, agora nos contará pessoalmente no recato deste cemitério.
Manuel S. Fonseca
Adaptação de texto que escrevi em 1985, para ciclo da Cinemateca Portuguesa sobre Bogart.

















Manuel, não tenho, hoje, suspiros suficientes, nem pra dedicá-los a Bogart nem para homenagear o seu sofisticado texto. Que merecem, ambos. Bogart, ah, gosto dos cínicos, dos breves, dos amargos. No fundo, uma sentimental. Ou, apenas, precise das tais três doses de uísque. Vou tratar de visitar a Condessa Descalça.
Agradeço com vénia. E é muito bem pensado que veja a Condessa: dê saudades minhas a essa velha, tão linda Ava.
Peço não esquecer A Rainha Africana. Como ele gostava de todo este filme. Afinal sempre lhe proporcionou o Óscar.
Que outra actriz o “enfrentou” tão soberbamente na tela? E dos tantos grandes nomes que com ela contracenaram — Tracy, Fonda, desmerece ele de algum? Quem, como ele, lhe deu réplica?
E, Luciana, Manuel… “If you want anything, just whistle.”…
Assovio sempre, Orcama. E não, não esqueço (ou tento não esquecer) nada que se refira a ele (e, em dias generosos, também a KH).
Fiquei a saber imenso sobre o sr. DeForest Bogart, agora que jaz entre nós.
Também gosto muito da Rainha Africana, Orcama — dele é dos meus preferidos, tal como Casablanca.
Bela trasladação, Manuel, até o Ruy Belo veio visitar a campa, sim senhor.