Humpf!…
Humpf, sim!…
E tanto humpf porquê?!, perguntar-me-ão.
Simplesmente porque toda a minha primeira vida foi um conjunto sórdido de não-actos e, como tal, não teve direito a registos documentais de gabarito – bem ao contrário do que se passou com o esfusiante e radiofónico MSF ou com a convincente e empenhadíssima Eugénia da Sardenha e Duas Sicílias.
Eu era um abrolho. Olhe-se para aquele sorrisinho de amiba sonolenta, os ombros descaídos (mas aqueles ombros, Mon Dieu!)… Um horror.
Tenho, isso sim, uma foto interessante da minha Comunhão Solene – que pensava fazer interagir para este requisito tão específico do ETGM.
Cedo piei!
Que não, porque agora vai haver também performativos comungantes escarrapachados neste nosso cemitério, mais dia, menos dia. Bem, é costume dizer-se que a vingança se serve fria. Lá terei de esperar, aguentando para já estoicamente os dichotes e zombarias da turba multa que o documento acima fazem prever. E com toda a razão, repito.
Foi um momento estranho, este. Sei que estava na Piscina da Granja, pois nos anos 50 só lá vendiam sorvetes de copinho e eu tenho a respectiva colherinha na mão. Recortaram-me do fundo sem qualquer explicação plausível.
Mas o que sei desses tempos é que – dizia-me a minha Mãe aos 16 anos – «eras amoroso» (I&%$¥§≠ώЏжΣ&YT, e mais GXXXXX!!!!)…
Sei bem porque era amoroso: não mexia uma palha, sempre com aquele sorrisinho parvo. Os meus pais, que jogavam bridge em casa dos amigos granjolas, nunca tinham problemas comigo: bastava darem-me uma caixa de fósforos para as mãos e eu, pacientemente, tirava-os todos da caixa, um a um, para depois tornar a metê-los lá dentro segundo o mesmo método. Estava nisto horas e nem sequer um incêndio ateei!
Um protozoário…
Um dia, enfim, tudo mudou. Aos oito anos.
Havia um jantar lá em casa, várias pessoas convidadas, os meus irmãos tinham vindo de Lisboa, onde estudavam, e eu iria ter lugar à mesa junto dos mais velhos. Contavam-se anedotas aos berros, como de costume, e estava tudo muito divertido, como de costume.
Então eu disse que também tinha uma anedota para contar…
Acharam imensa graça que eu, o trambolho silencioso e emimesmado, tivesse (ou sequer soubesse!) uma piada. O que aquela gente se riu desse simples facto…
Incitaram-me imenso, «ora conte lá a sua anedota, que querido!…». Assim acicatado eu fui-me em frente com a prosa – que era um dos vários cúmulos que povoavam o anedotário do século. Comecei por perguntar à amável e condescendente plateia, com a vozinha prenhe da inocência que se aceita num catraio daquela idade:
– Sabem qual é o cúmulo do azar?… Depois do «não» genérico (ignorantes!) lá continuei na minha pedagógica missão:
– É ser filho da Brigitte Bardot e mamar por biberon!…
Foi um sucesso enorme! Bem à medida dos urros do espanto e da repreensão logo ali instalados, e dos risinhos parvos das minhas duas irmãs e da minha Alice. E à época eu nem fazia a mais pequena ideia da existência do tremendo Sigmund! Veja-se lá bem…
Com isto passei a contar com a censura prévia do meu irmão Zé Maria, que me ouvia em confissão sempre que eu declarava publicamente a existência de nova piada em stock. Algumas passavam, outras não.
Vivíamos a Ditadura, era o que era…
Pouco tempo depois (concretamente a seguir à Primeira Comunhão) ingressei no restrito grupo dos terroristas da Granja, assim crismado pelo interessante conjunto de patifarias que conseguia produzir num único dia. E três anos mais tarde, ainda que sob identidade alternativa devido à pouca idade acumulada, ascendi ao já mediático grupo dos teddy boys da Granja, com direito a pelo menos duas primeiras páginas no velho Jornal de Notícias (que ao tempo era ainda mais pateta do que é hoje) e um rol de desacatos em carteira verdadeiramente impressionante.
Vinguei-me, pois, dessa foto, e da imagem deformada que ela de mim fazia.
& toclas.



















António, de tão entretido com os fósforos, pode até ter sido um late bloomer, mas a avaliar pelo andor apanhou o passo sem esforço e alargou-o..
Diverti-me muito com os seus auto destratos de protozoário e, vá, chamemos-lhe recuperação em teddy boy.
Muito bonita a sua mãe. Gostei imenso desta sua decisão de fotografia — que cão!
Aquilo não foi recuperação, foi metamorfose mesmo. E fui tendo outras através dos tempos.
A minha mãe era especial, como todas, claro. Acho que tenho mais dela que do meu pai — de quem apanhei a matemática, o xadrez, a science fiction e uma boa dose de bordoeja. Ele também escrevia mas somos muito diferentes nisso.
Ela aturou-nos cada uma que nem lhe passa pela cabeça… Tinha mentalidade de esteta, pintava, mas talvez fosse indecisa a esse respeito — o que foi pena (ou não, paradoxos não).
Sempre tivemos cães, muitos, das mais variadas raças e imensos rafeiros. E gatos. E um pinguim que o meu pai apanhou na praia com um coador, e um papagaio da Guiné (mesmo) que estagiou no quarto de banho dois dias com o esquentador de água ligado para se habituar (tipo câmara hiperbárica)…
É mesmo da outra infância, o tempo — para o qual julgo ter uma excelente explicação — por vezes irrita-me.
Beneditoooo…vc tinha cara de criança arteira!!! Mas de bom coração.…
Linda sua mãe, sabe que desde criança sempre quis ter cabelos assim, ao contrários dos lisos e escorridos que habitam sobre a minha cabeça.
Ondas, cachos, caracóis…acho lindo…assim como sorrir em fotografias.
Quando aos cães, gatos e afins, aqui em casa sempre foi um tipo de casa do Dr. Doolittle…aonde já acolhemos até coruja.Mas pinguim, nunca…achei o máximo!!!
Arteira, Turmalina? O mesmo que malandro, é?…
Mas olhe que nem isso era! Depois sim.
Arteira significa “especialista na arte de fazer o que não se espera”…rss…
Tinha traços que só se revelaram mais tarde, numa espécie de acordar…
Mais vale tarde do que nunca.
Da idéia linda do Manuel a uma linda execução de uma infância outra. Antonio, como gostei desta recortada foto, parece dizer que é assim que mais permanecemos nós mesmos, exilados da história nossa e capazes de reinventá-la. Ah, deliciosa situação a da anedota! E que solução inusitada criarem-lhe um censor particular…
Ele adorava o cargo, Luciana. Parecia um funcionário público.
Deixa lá, pá. Se calhar quem recortou a foto não era hábil e lá se foi parte dos ombros.
Que metamorfose, António. E que borboleta me saíste, com a mania de asas de dragão.
Gramei à brava a tua infância toda e a Nossa Senhora da sardenha que se despache lá com a comunhão que eu quero ver-vos nos iniciáticos preparos (aviso já que não tenho para troca, acho que só uma da minha irmã, mas isso não vale).
Isso não é desculpa, vem mesmo que seja de calções de praia: a comunhão solene dos mortos faz-se consigo ou não se faz comigo. Qual é a graça de reescrever a história, se não for para estarmos todos juntos nela?!
Exacto, do tipo «era para ir mas nesse dia tive outra coisa que fazer». E põe a coisa, hony soit…
Amigos e amigas, agradeço penhorado a vossa generosidade, que consegue retirar alguma da vulgaridade à minha existência pré-inteligível.
Tu, Manuel, se não tens o momento «iniciático» vais ter de pôr lá alguma coisa em substituição — mas algo de substância minimamente semelhante. Não vai ficar um buraco em branco, como uma campa rasa sem nome…
António, tanta self-deprecation tem um único e patente objectivo: fazer recair sobre a sua diminuta pessoa, acima retratada, uma avalanche de ternurentas apreciações! Ameba? Abrolho? Protozoário? Ruídos estranhos? Palavras ininteligíveis de resmungo? O que um homem faz para que — como dizia a minha filha Joana — lhe “dêem elogios”!
Só por isso, não devia levar nem um! Um que fosse! Mas a verdade é que, se bem percebo, a intenção desta série de posts proposta pelo nosso Manuel SoSweet Fonseca é tornar este lindo cemitério num local ainda mais feliz e aprazível. E para isso, os comentários têm de acompanhar as queridíssimos textos e fotos. Ser super doces e fofinhos. Por isso, lá vai…
Acho que a sua Mãe tinha toda a razão. Amoroso. Amoroso mesmo. Gostei do narizinho e das orelhas. E do penteado, claro. Mas sobretudo dos refegos nos pulsos e no braço. Acho que tinha um ar divertido e bonzinho. Muito mesmo: fascinou-me a cena das caixas de fósforos. Quanto à anedota, só gostava de saber se eram mesmo idóneos os critérios que lhe aplicava, pobre inocente, o seu prestável e sabedor irmão — ou se não era pior a emenda que o soneto …
PS1 — A camisola era mesmo cor-de-rosa?
PS2 — O que eu gosto do tão portuense “sorvete” …
1 — Não é verdade, eu era efectivamente um paz d’alma absolutamente incorrigível.
2 — Seja como for, aceito sempre elogios.
3 — Tive sorte com o nariz, que chegou da minha mãe. Se fosse do meu pai e o mundo acabasse à bicada eu ganhava a guerra.
4 — Refegos?! Nunca tive refegos! Mas conseguia, a espaços, ser divertido… Por incrível que pareça.
5 — Os critérios do meu irmão eram os de qualquer jovem judaico-cristãos na flor da idade e próprios dum autêntico Napoleão-de-casota-de-cão (achava-se importantíssimo no seu cargo repressivo-inquisitorial).
6 — A foto era a preto-e-branco mas virou sépia com a digitalização.
& — Eu só como sorvetes…
Ainda bem que gostou, mas agora também quero ver a Joaninha sob os holofotes. Não sei porquê mas imagino-a com um vestido às bolinhas e com aquele arzinho de pespireta que só as miúdas hiper-activas sabem envergar…
Aposto.
Então essas férias nunca mais acabam?! Aie…
Presumo que se esteja a divertir imenso, claro. Ainda bem.
Amiba sorridente, disse? Pois, Pois, das muitas amibíases que já congeminava pregar… a adivinhar pelo olhar matreiro mas contido.
Linda mãe. Imponente cão, mas de pose pouco amigável. Prefiro a Jagunça, de seu nome próprio.
Orcama, eu aqui ainda não sabia congeminar… E não conheci o canídeo em causa, e nessa medida prefiro a Jagunça, é claro.
Mas ó António. É mesmo muito azar. Essa coisa da Bardot, digo. À época, bem entendido.
Pedro, como se diz aqui: foi um ‘galo’ monumental!
Fiquei marcado para sempre.
Sabes que me perguntam sempre que cão é aquele que está COMIGO naquela fotografia a preto-e-branco?
Mas tu és muito parecida com a Avó, o nariz, os olhos, a boca… Tenho fotos tuas em que és uma Laranjinha perfeita.
Beijocas, querida.