
Hoje sonhei-me ao contrário. Olhava-me ao espelho, olhava-me com o espelho, olhava-me pelo espelho, e via-me do avesso. Estava fora de mim e era só costas. Saíra de mim, fugira de mim e crescera muito para além do que era eu. Estrangeiro, peludo, grotesco e imenso, para dentro do nada. Morto de cabeça invertida e reflexo de coisa nenhuma. Tu eras ninguém e já não me sentias. Eras retrete, eras minúsculos chinelos de um rosa muito vivo, eras o banho já frio e não querias ser memória de nós. Nem sexo, nem paixão, nem saudade. Muito menos a fragrância do corpo que em ti fora mulher. Afogavas-te num silêncio transparente de quotidiano e desejavas que eu fosse também, higienicamente vazio. E eu, para te fintar a vontade, fazia-me revés, fazia-me viés e cortava, à navalha, todas as excrescências do que ainda tinha sido. Do que ainda tínhamos sido. Pêlos de amor, de desejo, de ternura e de raiva incontida de fazer o tempo parar. E eles, para te iludir a vontade, caíam. Decepados para dentro de mim e do ralo conspurcado de sabão azul que ainda era eu. Desciam, rodopiavam, pelo labirinto canalizado da minha alma.
Hoje sonhei-me ao contrário. Tinha o coração escanhoado e estava limpo de ti.

















Extraordinário sonho, que seria um belo dum pesadelo não fora ser largamente ultrapassado em desespero pela realidade. Gostei muito, Pedro.
Sim, a realidade deste sonho seria outro pesadelo: tenho o coração por fazer e estou sujo de mim. Também eu gostei, Pedro, mais da ideia de que se pode ser, se é e nunca tinha pensado nisso, memória de nós e do que, de amor, de desejo.. desce e rodopia pelo labirinto canalizado da alma. Imagens de se ser translúcido.
Lembro-me de um auto-de-fé muito semelhante a este.
Curto, limpo e já bem seco.
Excelente.
Obrigado Joana, Eugénia e António. Fico aliviado com a vossa simpatia. Estava com medo que optassem por puxar o autoclismo!
Falando em puxar o autoclismo, que aqui chamamos de descarga, depois que leio um texto sempre fica piscando em neon uma frase, uma palavra ou mesmo um trecho.Acho que é uma forma que meu cérebro, um tanto desgovernado, encontrou para criar uma conexão entre texto e pensamento.E eu fiquei um tempo aqui vendo rodar todo tipo de coisa num possível labirinto canalizado por uma alma.
Foi ótimo!
Ó Turmalina, que boa ideia essa do seu cérebro. vou tentar educar o meu a fazer o mesmo. e ainda bem que gsotou.
Ah…Pedro Norton, tenho absoluta certeza de que seu cérebro é bem mais educado que o meu…
Pedro, peça ao seu narrador para nos explicar onde é que se compram estas lâminas de escanhoar corações.
Diga-lhe também que lhe reprovo o optimismo: limpo de ti, diz ele! e quem julga ele que, seja que lâminas sejam, está a enganar?! Não há higiene que não se afogue em retrete, minúsculos chinelos, o seu transparente silêncio do quotidiano.