

Ninguém sabe onde fica Cleveland.
No mundo contemporâneo, a caminho da urbanização total, as cidades combatem entre si, se não pela primazia, ao menos pela notoriedade. Onde os antigos erguiam catedrais para dar fama ao burgo que tutelavam, hoje os governos eleitos constroem museus, teatros, parques, até estações de caminho de ferro, como forma de dar relevância à metrópole que administram. Aquilo a que os autarcas chamam de “equipamento” tem o fito de deslumbrar as populações, notabilizar as cidades e dar-lhes atração.
Assim é por todo o lado, menos em Cleveland. Diga o leitor uma coisa de que se lembre acerca de Cleveland? 1… 2… 3… Pois é – nada. Ora extrema irrelevância deste lugar só podia ter como corolário o facto de nada, nicles, niet, zilch, rien, se passar em Cleveland. Pois então, sendo a América a terra das maravilhas, até de uma nulidade tão nítida, haveria de nascer qualquer coisa de interessante. Essa coisa foi Harvey Pekar.
Misantropo, picuínhas, de aspecto desleixado, ganhando a vida como o último dos amanuenses no arquivo de um hospital público, a Harvey Pekar deu-lhe um dia para começar a escrever na primeira pessoa acerca dos não-acontecimentos do quotidiano da sua quase não-existência. E para que a forma correspondesse em menoridade ao seu conteúdo, em vez de prosa, os relatos mais não eram do que argumentos para uma banda desenhada, à qual, muito apropriadamente deu o título genérico de American Splendor.
Na fase inicial, os desenhos eram de um amigo de infância de Pekar, quase tão excêntrico como ele: Robert Crumb. Mas Crumb ganhou fama e estatuto artístico e, como qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, evacuou de Cleveland à primeira oportunidade. Pekar, embora também a sua fama se fosse ampliando, ficou – ou deixou-se ficar, o que vai dar ao mesmo. Nunca lhe faltaram ilustradores e todos obedeceram ao seu estilo.
A singularidade do trabalho de Harvey Pekar é o hiper-realismo das minudências e trivialidades que narra e a candura com que expõe o seu comportamento patético perante tais micro-acidentes, comuns a qualquer um de nós. E o mistério do talento de Pekar é tornar potável, por vezes inspirada, a descrição desses nadas capazes de ocupar tanta do nosso tempo. Ao lermos as estórias de Harvey, cada um de nós é Pekar – it could happen to you – e todos ganhamos conta do enorme desperdício de paciência, energia que é boa parte da nossa vida. Mas tudo isto sem drama, apenas nos reconhecemos assim; a verdade é que não somos heróis, às vezes andamos pela casa de cuecas e peúgas…

- José Navarro de Andrade
















