A partir de uma breve conversa, tida neste nosso último jantar, com o ilustre Pedro Medusa Norton, sobre o caminho de espiritualização que deve, ou não, sofrer o amor humano, aqui deixo, para prosa posterior, alguma coisa que, em forma de narrativa mítica, disse, sobre este assunto, o enorme e querido Platão. Peço-vos que leiam com atenção, pois se é certo que os mitos são falsidades, neles se contêm, contudo, algumas verdades (República, 377a), de tal maneira que nos podem ser muito úteis, se neles acreditarmos, para descobrirmos a verdade (República, 612b).
A cena passa-se n´O Simpósio, ou Banquete, de Platão. O tema é Eros: o amor. Depois de vários discursos, é dada a palavra Sócrates, o qual, falando depois de Agatão, o homenageado dessa noite, prefere lembrar um discurso por meio do qual foi iniciado neste tema pela profetisa Diotima de Mantineia. É no início do seu discurso que ela nos conta este mito sobre o nascimento de Eros:
«De que pai e de que mãe nasceu Eros? – perguntei eu. ”Demora um pouco a contar – disse-me ela. – No entanto, vou fazê-lo. No dia em que nasceu Afrodite, os deuses estavam num banquete. Com eles estava Poros, filho de Métis. Depois do jantar, Pénia veio mendigar, o que era natural em dia de festa, e pôs-se ao lado da porta. Poros, que se tinha embriagado com néctar (o vinho não existia ainda), entrou no jardim de Zeus e, completamente entorpecido, adormeceu. Pénia, na sua indigência, teve a ideia de ter um filho de Poros. Deitou-se junto dele e ficou grávida de Eros. Eis porque Eros se tornou o companheiro de Afrodite e o seu servidor: engendrado aquando das festas do nascimento desta, é naturalmente amante do belo… e Afrodite é bela!
Sendo filho de Poros e de Pénia, portanto, Eros encontra-se na seguinte condição: por um lado, é sempre pobre; e longe de ser delicado e belo, como crê a maioria, anda descalço, não tem morada, deita-se sempre no chão, dorme ao relento junto das portas e nos caminhos, porque sai à sua mãe, acompanhando-o sempre a necessidade. Por outro lado, tal como o seu pai, vive à espreita do que é bom e belo; é viril, resoluto e ardente, um caçador de primeira, que está sempre a inventar estratagemas; deseja o saber e sabe encontrar os caminhos que a ele conduzem, emprega todo o seu tempo a filosofar, é um adivinho, um mago e um orador dotado.
Acrescente-se que não é, por natureza, nem mortal nem imortal. Ao longo de um só dia, ora floresce e vive, ora morre; depois revive, quando nele perpassam os dons que deve à natureza do seu pai; mas o que nele perpassa sempre lhe escapa; Eros, assim, não está nunca nem na indigência nem na opulência. Está, pelo contrário, entre o saber e a ignorância – e isto diz bem o que ele é. Nenhum deus se ocupa em filosofar nem deseja tornar-se sábio, porque já o é. E de um modo geral, quando se é sábio não se filosofa. Os ignorantes, porém, também não filosofam, nem desejam tornar-se sábios. É justamente isso que é desagradável na ignorância: não se é nem belo, nem bom, nem inteligente, e, contudo, acredita-se sê-lo o bastante. Na verdade, nós não desejamos ser uma coisa quando não cremos que ela nos falte.”
Quem são, então, ó Diotima – perguntei eu –, os que filosofam, se não são nem os sábios nem os ignorantes? “É muito claro – respondeu ela – e até uma criança pode agora percebê-lo: são os que se encontram entre os dois: e Eros deve fazer parte deles. A sabedoria, com efeito, conta-se entre as coisas mais belas. Ora, Eros é o amor do belo. Logo, é necessário que Eros seja filósofo e que, sendo filósofo, esteja a meio caminho entre o sábio e o ignorante. A causa de isto ser assim está na sua origem, pois que nasceu de um pai sábio e cheio de dons e de uma mãe desprovida tanto de sabedoria como de dons. Tal é, meu caro Sócrates, a natureza deste daemon.”» (O Simpósio, 203b-204b)
Glossário e pistas de leitura:
* Eros: Deus grego cujo nome significa aqui o amor, em especial o amor humano, ou amor-desejo.
** Afrodite: Deusa grega da beleza, que nasceu nas ondas formadas pela espuma resultante do sémen de Urano, atirado para o mar por Cronos, quando este o castrou. Outra versão, porém, contada por Homero e aqui provavelmente tida em conta por Platão, diz que ela é filha de Zeus e de Dione, a deusa das ninfas.
*** Poros: Personificação da abundância, ou da riqueza (não de coisas, ou de objectos, mas de habilidades, de capacidades e de dons), que vivia junto dos deuses. Poros, assim, é o que é capaz de engenhosamente encontrar e de fazer caminhos (o que se lhe opõe, neste sentido, é a aporia, enquanto, o caminho sem saída, ou ausência de caminho).
**** Métis: Deusa grega cujo nome significa a inteligência prática, ou a prudência. Foi a primeira esposa de Zeus, o qual a engoliu, por causa de uma terrível profecia, quando ela estava grávida de Atena, a qual viria a nascer directamente pela cabeça de Zeus.
***** Pénia: Personificação mítica da pobreza, da carência e da indigência (não de coisas, ou de objectos, mas de habilidades, de capacidades e de dons), que vivia à porta dos deuses.
****** Zeus: Zeus era filho de Cronos e de Reia, o rei do Olimpo e o maior dos deuses.
******* Daemon: É um espírito, um génio, um demónio (assim à imagem do génio da lâmpada de Aladino), que está presente nas coisas e, principalmente, nas pessoas, funcionando como intermediário, que pode ser bom ou mau, entre os deuses e os homens.


















Gonçalo, estou resoluta e intrepidamente de acordo: sem Eros não há filosofia. É mesmo por aí que a(s) ideologia(s) coxeia(m]: falta-lhe[s] a boa perna da sensualidade.
Outra ilação, não menos importante, a tirar: cuidado com as festas de Afrodite!
Pois é Manuel, mas o ponto aqui era outro. Será que sem filosofia há eros? Ou, pelo menos, pode ele — Eros — ser e crescer e durar!? Quer dizer, não tem o desejo de se ir espiritualizando (não entender como desencarnando, que uma coisa não implica necessariamente a outra), isto é, de ter o sentido do espírito, sem o qual todo o abraço da carne nada mais é do que mera possessão?