As malvadezas que o Estado de Israel pratica nos palestinianos são particularmente atrozes porque:
- São perpetradas por um povo que se diz eleito, ungido por deus.
- São cometidas por quem tanto sofreu e tem gravado literalmente na carne a memória desses horrores.
- São executadas por um estado que nasceu como uma utopia de quem por fim reencontra o seu espaço histórico e ambicionou uma sociedade exemplar.
Dito isto falta dizer o resto. Por exemplo, que Tel Aviv é a cidade onde vivem, trabalham, expõem e são considerados o fotógrafo Adi Nes e o pintor David Reeb.
“considerados” significa também que têm o patrocínio de instituições privadas e estatais de Israel.

Asi Nes, “Untitled”, 1996

Adi Nes, “Untitled”, 1999
Adi Nes (n. 1966) ganhou notoriedade com a série “soldados”. Neste lote de fotografias Nes patenteia a sua homossexualdiade retratando os conscritos do exército israelita em pose deliberada e com um olhar muito declarado. Não foram nada isentas de polémica estas fotografias, não só por os militares de um país em constante estado de alerta serem olhados desta maneira, mas também porque os modelos eram de tez escura, de compleição muito semelhante à dos palestinianos. Dois sinais críticos profundos, que excitaram com facilidade os conservadores israelitas, reclamando contra a desmoralização do trabalho de Adi Nes.

David Reeb, “Red helicopter”, 2007

David Reeb, “Wall #7″, 2005
David Reeb (n. 1952) é um artista político, embora muito do seu trabalho tenda para o abstracionismo. Sem subterfúgios, o trabalho de Reeb manifesta-se contra todas as intervenções militares desde a invasão do Líbano em 1982, contra a humilhação dos check points, contra os colonatos e contra o muro. Embora Reeb reitere com um orgulho romântico que apenas se representa a si próprio e seja avesso a declarações públicas por outros meios que não a arte, não é difícil colocá-lo na zona mas à esquerda do espetro ideológico de Israel. Reeb é uma proeminência na Universidade de pública de Tel Aviv onde sempre deu aulas.
Tel Aviv está à distância de 111km de Amã, 214 de Damasco, 405 km do Cairo. Lugares onde é impensável existirem artistas como Adi Nes e David Reeb e onde seria perigosíssimo sequer pensar como eles.
Quando se diz Israel convém olhar melhor.

















Eu detesto quando qualquer coisa, ou no caso tudo, é problema, vira motivo ou causa polêmica. Sempre há beleza no mais horroroso cenário. E por sorte nem todos são conservadores e extremistas nesse mundo.
Impressionantes, as fotos de Nes. E mais ainda os quadros de Reeb.
Simples é palavra que parece não ter aplicação neste conflito de que se não vislumbra o fim. E no qual a violência incessantemente gera mais violência. De parte a parte. Que nos aflige e horroriza. Mas há uma coisa que para mim sempre foi e continua a ser clara — logo, talvez, simples: o paradigma cultural e civilizacional (acrescentaria religioso) israelita é o nosso. E é-o para lá de e apesar de tudo. Prova disso, a existência de um espectro político-ideológico que sabemos tão acentuadamente extremado, que se exprime de forma livre e cujos representantes políticos alternam no poder, por via de eleições democráticas. E também a possibilidade de estes e porventura outros artistas assumirem abertamente a sua orientação sexual, a sua oposição a toda e qualquer acção militar, a sua liberdade criativa, goste-se ou não — sendo, mais que meramente aceites, respeitados e apreciados naquilo e por aquilo que fazem. E, last but not the least, a concepção e o papel reservados à mulher no espaço público, em termos de plenas e inquestionáveis dignidade e igualdade. E tudo isto, para mim, faz toda a diferença.
Gostei muito.
Merci pelo antes desconhecido Nes, José Navarro.