ASK ME HOW DO YOU GET TO TOMORROWLAND*
Ao quotidiano máximo as arestas mínimas: mundo curvo de linhas côncavas que nos retêm, corpo na rede em balanço de domingo; mundo curvo de linhas convexas que nos expulsam sem nos deixar cair; vida de anos feitos de meses feitos de horas feitas de gravidade e força centrípeta, não queremos sair das linhas côncavas de domingo, agarram-nos os anos nas linhas convexas, não nos deixam cair das linhas convexas, máximo quotidiano, mínimas arestas.
Aqui, imersa e morna, já satisfeita e bem cumprida a higiénica do sexo na mecânica do orgasmo, penso-nos: em que dia, meu amor ao espelho, meu espelho, deixámos de ser paixão e passámos a ser família?
* verso da canção TOMORROWLAND**, interpretada por Terry McKay, Deborah Kerr, em AN AFFAIR TO REMEMBER, 1957
** TOMORROWLAND, música de Harry Warren, letra de Harold Adamson e Leo McCarey


















Tremendo texto, Eugénia, mesmo sem arestas. Ou justamente por via da falta delas.
Mas … família?!
Sim. Família.
Creio que, não sendo um erro obrigatório — não gosto de lhe chamar um erro, uma confusão danosa e continuada, talvez -, é frequente. Há, ou pelo menos tende a haver, uma subversão. De tanto se amarem os filhos, do tão densa que se torna a trama dos bordados familiar, profissional, social, perde-se de vista a razão de ser, para ter em vista um sem número de razões. Não precisa de ser assim. Nem os papéis são mutuamente exclusivos. Basta arrumar as gavetas. Não se é melhor mãe ou pai para os filhos, por se ser mais mãe ou pai do que marido e mulher — ao contrário porque se ensina com o exemplo, além da maternidade e paternidade, a ser homem e mulher, a ser casal: os filhos criam-se para o mundo, o casal para o casamento.
Perfeito, Eugénia…o texto e o comentário posterior. As pessoas tendem a matar dentro de si um papel para interpretar outro.Tem de haver paixão, amor maternal, espírito de sobrevivência, profissionalismo, desejo e realização pessoal.Homem e mulher devem ser unos mesmo quando unidos por laços já indissolúveis de tão atados.
Obrigada, Turmalina.
É verdade que se tende, também dentro da família, a ocupar um papel como se fora um cargo, e é uma verdade perigosa que obriga a um monolitismo contra natura seja ele com que elemento da família for: se um é o bom filho, ao outro cabe ser o filho rebelde..
São as nossas fragilidades.
Absolutamente, Eugénia. Tinha entendido a alusão à família como contrário de paixão, logo rotina-acomodamento-desentusiasmo-desleixo, em suma “o de trazer-por-casa”, sem mais e sem sequer tomar em consideração os filhos e os papéis que estes implicam. O que seria um pouco forte: daí a minha estranheza.
Gostei do seu texto Eugénia. Mas acha mesmo que família e paixão se excluem absolutamente? Sempre?
Não, Gonçalo, nem pensar. Apenas quando o casal se torna pai e mãe dos filhos, e de si mesmo, antes de homem e mulher que se fazem uma só carne, exactamente aquela que está na origem de tudo, a que, ao fim, deve permanecer.
Completamente de acordo com a beleza do conjunto.
Mas não é fácil. Nada é fácil.
Não é fácil, Antonio, mas justamente o bom é tentar.
Primoroso texto, Eugenia, admirável! E, gosto de pensar que perguntar-se sempre é uma das formas de não permitir que o rosto no espelho seja outro que não o da paixão.
Obrigada, Luciana, gostei de o escrever.
Prefiro: os outros e também o da paixão, que nada lhes retira, mas acrescenta.
Talvez não tenha que ser fácil. Mas também não é a hidra.
Mais uma vez de acordo.