Ontem à noite até hoje de manhã, agarrei-me ao Raul Brandão: Húmus. Não sei porquê. Felizmente, vivo bem com o desconhecido, issos de escuros, de salas vazias atrás de portas fechadas, também vivem bem em mim, nenhum terror nocturno abre os olhos às minhas noites brancas: é preciso espaço, liga pouco densa de tecidos, para que nos caibam os mortos e os espíritos que nos iluminam, clareira para aprender os vivos.
Se amor é atenção, amar é aprender. Não interessa se do corpo a curva onde as cócegas, se da língua o tempero de sal. A alegria, a grande alegria, a imensa alegria à boca do sol no poema de luz. Ou em que água o coração mais bate: se é na de abraços de mar, frescura de peixe riso de espuma, ou na de lágrimas que atravessam a dureza da pedra quanto postos os olhos de doçura na montanha. Onde se faz canto para nenhuma voz. Aprender de todos os mapas onde se faz canto para nenhuma voz. Assim, com amorosa atenção educados para a melodia do silêncio, auscultamos. Nem a morte, lugar de escoamento de todos os rios da decomposição fétida, nem ela nos roubará de mais do que desses líquidos podres.
Agora vou ler o florescimento do Raul Brandão no Herberto Helder: todos apodrecendo juntos na mesma terra misturada e revolvida.*
Ps: não deixa de ser interessante, neste cemitério, a descombinada sincronicidade: o Pedro Norton passou, num sopro?, da fotografia no Lit de Mort ao Munch, no mesmo dia em que amanheci nele. O José Navarro foi a Cleveland para, sem mais que de cuecas e de peúgas, nos lembrar que de cuecas e de peúgas fazemos, não podemos impedir-nos de fazer, sabemos que fazemos todo o trabalho insano […]: reduzir a vida a uma insignificância… Tapá-la, escondê-la, esquecê-la. *
* Raul Brandão, in HÚMUS, Dom Quixote


















Amei que acordaste remexendo nas covas, Eugénia… e principalmente da água das lágrimas…
Obrigada. I often do.
Que agradável e prazenteiro jantar lhe deve ter ocorrido a avaliar pela delongada e inspiradora leitura a proporcionar profundos e inquietantes pensamentos:
“todos apodrecendo juntos na mesma terra misturada e revolvida.”… Mas não sei se estarei de acordo quanto à colectividade do tema…
Aguardarei pela parte do florescimento.
Não leu o rico Húmus de Raul Brandão em Herberto Helder ? É de 66. Eu ainda não era nascida em tal data e já li..
Querida Eugénia: Ensine-me a gostar de Raul Brandão. A sério. Admiro-o mas não consigo gostar, parece-me áspero, palavroso, demasiado construído. E no entanto, que grande escritor. Isto não lhe acontece às vezes?
PS — Mas há um livro dele, diferente de todos os outros, que sempre o tive como supino: “O Vale de Josafat”
José Navarro que coisa bonita de se pedir. Mas impossível de atender. Só lhe posso dizer que sim, que é verdade, é palavroso, mas de palavras cheias na curva das letras, do quanto põe nelas e porque côncavas, nós também lhes cabemos. É áspero e nos exactos lugares das nossas menoridades, e construído é-o porque escreve meditativamente. Gosto tanto do terrível equilíbrio a que nos obriga: é muito difícil viver com consciência do que é a vida, e em consciência. Sabe, acho que Húmus é uma obra prima. E El-Rei Junot. Esqueça aquilo que de Raul Brandão é tempo, tal como o fazemos com Camões ou Gil Vicente ou luz de outras línguas, e se puder agarre o que dele não é dessa matéria, porém da nossa.
“El-Rei Junot” é um dos grandes romances portugueses, Eugénia. Je suis tout à fait d’accord! “Napoleão desaba sobre o mundo. É a tempestade: assola, destrói e saneia”. OU: ” A horda corta pela trágica Espanha com neve, assassinatos, gritos.” E ainda: ” Em 1805, segundo Laura Junot, na sociedade de Lisboa mistura-se o detestável e o óptimo.”
Estou em crer, Manuel Fonseca, que nisto do traço largo e cheio acordamos e no fino não discordamos.
Eu nem digo nada, sou uma cabra dos livros: gosto tanto de livros que até tenho imensos que ainda não li, faço monte e subo lá para cima todo ufano…
Tenho uma 1ª edição do RB, A morte do palhaço e o Mistério da árvore, que comprei exclusivamente por ter uma capa engraçada e ser 1ª edição (baratucha). Na altura admiti que um dia o pudesse tentar ler. Irei, mas cheira-me que não vou gostar — por isso já encomendei o El-Rei Junot.
Antoine, você obriga-me a roubá-lo uma fartura! Ontem na tão boa frase no texto, hoje levo-lhe a “cabra dos livros”. A culpa sabemos todos de quem é, não vale a pena bater mais no ceguinho, mas há que convir, você não colabora: então não sabe que colecciono palavras?
Eugénia, já lhe disse para roubar à vontade — é praticamente para isso que existo. Mas a minha imodéstia trai-me: qual foi a «boa frase no texto», que já não sei (ontem?)?…
Roubei ontem para a minha colecção, porém já a tinha lido quando publicou o post: “tempo a medronhar nas ampulhetas”. Eu roubo. Mas confesso. Medronhar assim é irresistível.
Sim-sim, e paridinha para a ocasião. Ia pôr «cabecear» mas depois reflecti melhor.
Fez bem — eu faria o mesmo.