As mulheres, os homens #2

A adorável princesa da Sardenha, que tanto veneramos, veio explicar em francês que as mulheres são diferentes dos homens por quererem tudo. Tout. O que, claro, a qualquer homem parece logo rien du tout. Traduzindo, e nem é preciso ser para esperanto, os homens querem ontologicamente a mesma coisa: só que para os homens qualquer coisa, a mais pequenina coisa, é já tudo. O homem é holográfico: basta-lhe a fina abertura do decote e fica logo na veemente excitação de quem já viu a eternidade – um nimbado mamilo e valha-nos Deus e os sonhos de toda a corte celestial!
Mas querem os dois, masculinos e femininos, a mesma coisa – os homens a mais pequena partícula, que acarinham como se fosse tudo, porque é tudo; as mulheres querem tudo com medo que o tudo seja menos do que a soma das mais pequeninas partes.
Vamos lá ser pedagógicos e ouvir cada um — uma mulher, um homem – pedir a mesma coisa. Vão ouvir que cada um, pedindo o mesmo, pede coisas diferentes.

Ladies first, claro, com mil perdões pelo execrável visual do vídeo – não vejam, ouçam só:

Ouviram? Claro que é lindo. Mas perceberam o artifício, a pose, o subtil prazer de tirar mais dor da contemplação da dor do que da própria dor? Ouçam lá agora um homem a querer a mesma coisa:

Claro que já viram a diferença. Até lhe custa começar, de tão fundo vem a voz. Rouca de emoção pela coisa que se quer. Nenhum cuidado com a expressão, toda a atenção vai direitinha para o coração um bocadinho partido da silly girl – ó, a forma como o rapaz aconchega a silly girl entre a língua e o céu da boca!

 A canção foi composta por Tom Waits para um dos meus filmes de culto, o One From the Heart, de Francis Coppola. Infelizmente, não consegui encontrar o momento mais comovente do filme, quando o personagem do Frederic Forrest, que não sabe cantar, do que a namorada sempre se queixava, canta o “You’re my sunshine” no aeroporto para que ela, arrebatada por um cantor, pianista, bailarino (tudo!), não o deixe.

Comentários a “As mulheres, os homens #2” (3)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Ouvir a Crystal Gayle a cantar Take me home ao lado de Tom Waits é tão mau como ouvir a Roberta Flack ao lado do Cash a cantar The first time ever i saw your face.

    Ps: desgosto tanto da Crystal que me esqueci do mais importante: que mau uso deu ao meu tout feitinho des petits riens. Perdoo-lhe. One from the heart é um dos meus filmes do Coppola.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Eugénia, então agora obriga-me a vir defender “as mulheres”! A Crystal Gayle canta extraordinariamente ao lado do Tom Waits no filme do Coppola. Juntos fizeram uma das melhoras bandas musicais de filme de sempre. Nunca ouviu? É uma delícia e ela tem “imensa culpa” — fica muito bem o contraste entre o melódico dela e o áspero dele.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Sim, Manuel Fonseca. Mas aqui, fora do sítio, a seco e sem filme, só emerge o que dela desgosto: tudo o que não está no filme. Nunca penso, na música, ou na escrita, ou no que quer que seja dissos, homem-mulher. Penso voz: nossa ou estranha. Nosso para ser ou para desser. Estranho bom para entranhar ou estranho mau de afastar. Tom Waits, aqui, minha, Crystal Gayle, estranha, de afastar.

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