No outro dia reli HÚMUS, de Raul Brandão, e na noite seguinte HÚMUS, de Herberto Helder. Ficou-me — deve-me ter ficado, só agora dei pela fome - a apetecer exercício com as mesmas regras inventadas por este último, brincadeira como a dos miúdos, mesmo a sério, brincadeira igual à paixão que se apropria do corpo do amor para o conhecer e fazê-lo seu — ou melhor, de si. Tudo em pequenina escala, claro, que os supra citados danados são pesos pesados. Por isso, não a partir de HÚMUS, apenas de: A pedra espera ainda dar flor.
Material: texto do HÚMUS de Herberto Helder
Regra: fuga?
A PEDRA ESPERA AINDA DAR FLOR
Soerguido pelo único esforço da erva, sou o grito dos mortos. Ouves?
Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.
A praça debaixo de água, tudo isto, pátio castelo escada torre porta, tudo isto flutua debaixo de água com um povo de estátuas por cima, um povo de mortos em baixo. Somos o reflexo, o mundo não é real.
Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.
Fecho os olhos. O silêncio. E o que se cria no silêncio é uma voz, as bocas falam por muitas bocas: floresta apodrecida, tocamo-nos todos como as árvores no interior da terra, uma atrás da outra, floresta apodrecida, um remexer de treva, a terra treva remexe, põe-se a caminho a floresta apodrecida — uma vida monstruosa, ouve-se a dor das árvores, sente-se a dor dos seres.
Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.
E o céu? Ponho o ouvido à escuta: palavras vivas através da paciência que desliza, mar inesgotável que desliza, som de água que desliza, o céu. Desliza. Muitas bocas, o céu. Estou só e a noite, vem a noite, pausa e silêncio, a noite com outras noites em cima, inferno: uma camada de flor, um grito, outra camada de flor, outro grito. Também eu atravessei vivo o inferno entre o inferno e o sonho: dessa pata escorre sempre ternura. E o grito dos mortos, uma voz de palavras vivas, as bocas falam por muitas bocas as palavras vivas.
Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.


















Ora aí está uma frase que considero polar: «Somos o reflexo, o mundo não é real».
Acho-a polar pelo paradoxo atraente que que lhe encontro: achamo-nos o reflexo de algo apenas por desconfiarmos que esse algo existe, a pontos de sermos apenas o seu reflexo. Ou antes: só nos achamos reais, nós e as coisas, se garantidamente nada mais houver para lá da dimensão previsível, num impenetrável huis clos universal.
Há uma versão ocultista do Mundo que o dá como as duas metades duma laranja, em tudo iguais mas separadas por ténue mas crucial divergência.
Conhece os ‘Andares’ do HH?
Andares, António? Diga-me mais qualquer coisa. Eu agora já só tenho o Ofício Cantante — poesia completa da Assírio & Alvim, 2009 — e os Passos em Volta, da mesma editora.
Que coisa estranha, quando escrevi HH nem me passou pela cabeça que estava a bater na porta errada. Era do Herman Hesse que eu falava, Eugénia… Desculpe-me a falta de atenção.
António, o enviesamento foi todo meu, tal como a falta de atenção: não há porque não evocar um a partir da reflexão de outro. Releve, sim?
Eugénia, Eugénia, só você para traduzir o que muitas vezes eu gostaria de experimentar, como por exemplo, uma tarde que viesse na ponta dos pés…
Turmalina, esta tarde não é minha, eu só a trouxe. E também a quero. Obrigada: faz-me muito contente que, por vezes, se encontre naquilo que escrevo.
Posso garantir-lhe que muito mais do que eu comento :o)
Extrordinário texto, Eugénia. Gostei do desassossego das palavras e das imagens. E muito do refrão, da “candeia em mão de mulher”. A evocar, em mim que tanto gosto das parábolas, a da dracma perdida (Lc. 15, 8–9) e o muito que podem a persistência e as pequenas coisas ao nosso alcance mudar na nossa vida: assim o insistir em procurar e depois encontrar uma moeda, ainda que de escasso valor ou o mero contemplar da beleza das suas “flores desmedidas”, por mais escuras que sejam a floresta e a noite envolventes.
Jeanne, fiquei feliz dessa evocação de parábola e que gostasse, claro. Também eu gosto tanto de parábolas.
Menina Eugénia, estou de HH ao lado, lido e relido o seu “extraordinário texto”. (Você sabe que não gosto do “seu” HH.) Esse refrão acima referido tem o peso de uma oração ou de um pedido de consolo por “mão de mulher”. Fiquei encantado com a cadência, a interrupção do trágico. Adorei a ideia da fuga como regra, só da sua cabeça de Bach.
Menino Quico,
estou pasma consigo! Para além disso, o meu trágico interrompeu-se logo com a cabeça de Bach. Não me conhece?! Como é que me diz cabeça de Bach?!Lembrei-me logo daquilo de quando era miúda cabeça de burro és mesmo tu, com as sílabas bem contadinhas de um dó li tá. Merci. Mesmo de cabeça de burro posta, fiquei contente que lesse e para mais que se desse ao trabalho de ler com o texto do HH.
Um beijinho.
Ontem li! Hoje li alto. BRUTAL