A outra infância

Há quem invente para os mortos outra vida. A nós, mortos deste cemitério, quando nos acolheram, distribuiram-nos um passado, resquícios de infância, uma ilusória paixão. Ao Vasco, à Eugénia, à saudosa Teresa, ao PN, ao Navarro, à Joana - eu sei, Francisquinho e young master Peter, também a vós, imberbes fantasmas!
Não me pediram reserva. Poderia agora mostrar-vos uma apócrifa versão da Enciclopédia Britânica que me deram logo à entrada, um óleo especial para polir ossos, um bizarro instrumento para (helás! monsieur Antoine) matar dragões. Balanceando em cada mão os ingredientes do kit de acolhimento, do que gostei mais foi desta fotografia, simbolo inofensivo e inocente de uma outra vida. É antiga, tão humana, cheia de riso como um verso. Não é, de certeza, minha.

Aos meus companheiros, que se movem como eu na fina sombra da copa destes ciprestes, peço que sem pudor aqui mostrem as fotos com que, para consolo da humildade das nossas almas, nos recriaram uma infância.

Comentários a “A outra infância” (19)

  1. Marise diz:

    Gostei de ler o texto do amigo!
    Beijos saudosos

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Ó Marise que bom que tenha vindo aqui a este “CEMITÉRIO” (não se assuste, não se assuste, é conversa de novela). Sabe que o Navarro também cá está, numa cova especial. Beijos para si e muitas sauadades de si e desse lindo pessoal do Rio.

  3. Luciana diz:

    Manuel,

    olhe que isso não se faz. Estão os alunos todos me olhando de jeito estranho, pois no intervalo das aulas a professora pôs-se a assoar o nariz e enxugar os olhos. Uma tal ternura em meu peito que só houve jeito de virar sal.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Agora percebo tudo, Manuel: aquelas orelhitas tipo ninfa de Batman é que ditaram o teu destino benfiquista!
    Gostei imenso da ideia e o texto é uma delícia — apesar do abre-latas para dragões, que, por ser bizarro, obviamente não funciona.
    Agora diz-me uma coisa: são só fotografias nossas ou também podem ser de outras pessoas? É que eu acho que só tenho duas fotos minhas MUITO antigas: uma com quatro anos e outra com 11. Ou seja, numa sou um protozoário, na outra uma girafa deslocada…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Não me interessa nada o que o Manuel Fonseca lhe disser, António. Sua! Claro. Com 4 anos está lindamente. Guarda-se os 11 para outro álbum.

      • António Eça de Queiroz diz:

        Afinal estive a ver a data e são nove. É que a de quatro é inócua, cara de bebé paspalho…
        Já a outra é, no mínimo, temática: a 1ª Comunhão, a caminho da Igreja de S. Félix da Marinha, de ‘blaser’, no meio duma data de miúdos do seminário, todos de branco e com menos um palmo que eu…
        Tenho de ver se há outras.

        • Manuel S. Fonseca diz:

          A Eugénia já te pôs em sentido, ó meu aspirante! Mas sim, a ideia era que cada um postasse uma foto de infância com texto ou história a enquadrar. Bora lá.

          • Eugénia de Vasconcellos diz:

            Ó Antoine, não pode ser o seu eu de menino crescido. Esses nós comportados guardamos para depois. Não teve, não é possível que tenha tido, cara de bebé paspalho..Ou sequer fotografia de Primeira, conforme bem disse, temática Comunhão — estou em crer que devíamos, eu gostava, um dia de plasmar aqui as nossas comunhões, tipo à URSS de quando eu era pequena e os danados faziam pré photoshop nos jornais, como se a tivéssemos feito todos juntos: os lindos mortos na primeira comunhão, juntos. Isso é que era uma beleza de reescrição histórico temporal.

  5. Vasco Grilo diz:

    Pergunto-me quanto darias a esta idade, por uma bela t-shirt to Eusébio?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Vasco, acho que o vi no ano seguinte em nobre visita a Luanda, depois dos 5 a 3 ao Real Madrid de Puskas e Di Steffano. Mas o tema marujo que tenho vestidoé homenagem à vocação atlântica desta pátria tão amada, ó, ó, ó.

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Se dúvidas houvesse Malvado S. Fonseca, perdão, Manuel S. Fonseca, bastava que voltasse a pôr o avatar, ou lá o que é, original. E se eu bem me lembro, e olhe que me lembro, sequer está a sorrir nele, mas a fazer boquinhas — há-de estar a falar francês.. Ponha lá uma ao lado da outra, se é capaz. Nem com óculos deixa de ser igualzinho a si mesmo. Impressionante.

    Gostei muito: ideia de post, texto e fotografia de linda infância feliz.

    Ps: sabe o que estou a rever?, nem de propósito, intervalo agora para uma torradinha com leite quente: O vale era verde.

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Vou já dizer-lhe que mudei muito:

    1. Cresceu-me a cabeça. Julgo que — pretensão pouco inocente — tive um crescimento galopante do cérebro e o invólucro expandiu-se.

    2. As minhas orelhas encolheram, sendo hoje quase dois graciosos apêndices quando comparados com os vastos painéis eólicos que a foto atesta.

    Era feliz. Sinto, deveras sinto, que nisso não mudei.

  8. Turmalina diz:

    Manuel, adorei sobretudo o sorriso :o)

  9. Orcama diz:

    Meu caro Manuel “Sempre-Sorridente” Fonseca,
    Só pode ser:
    Tinha acabado de ganhar uma corrida de caricas nos lancis da Fernando Pessoa e o prémio era um Kitoko do Baleizão!!!.

  10. Joana Vasconcelos diz:

    Que querida fotografia e que fantástica e divertida ideia, Manuel! É só o tempo de regressar safely home e de assaltar os álbuns de fotografias que existem em casa dos meus pais … até já tenho uma ou outra ideia…

    Eugénia, que fabulosa ideia a das primeiras comunhões em colectivo fotoshop … Pelo sim, pelo não, vou surripiar também as correspondentes fotos (se bem que pululem já várias no FB, fruto de um recente acesso de saudosa loucura colectiva dos meus queridíssimos colegas de primária…)

  11. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Manuel, para mim, o melhor desta fotografia é o ar, ou melhor, o âmbito, de uma crença absoluta e inocente no mundo e nos outros, da qual por vezes resultam, como aqui parece ser o caso, momentos de felicidade. Fiquei, sobretudo, com saudades de ser criança, coisa de que muito padeço e cujas melhoras só espero em uma outra vindoura idade.

  12. Pedro Norton diz:

    Manuel: Gosto muito daquele cotovelo premonitório pousado sobre a televisão…

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