A outra infância # 4

Nos tempos homéricos, os gregos viajavam pelos líquidos caminhos: «todo o dia tinham desfraldadas as velas das naus, que corriam sobre o mar; em seguida o Sol punha-se e a sombra cobria todos os caminhos.» Assim chegou Ulisses ao fim da terra, ao curso profundo do Oceano, onde se situava o país dos Cimérios, coberto de nuvens e de brumas. Naquele lugar, que o Sol, com os seus raios, nunca aquece, estendendo sobre aqueles mortais uma noite maldita, haveria Ulisses de, por indicação de Circe, descer à mansão dos mortos e interrogar o velho Tirésias (Odisseia, Canto XI).
Ora, o que aqui me interessa nesta visão ainda brutal dos nossos heróicos gregos sobre o mundo e sobre nós é a distinção radical entre o dia e a noite, a alegria e a tristeza, a luz e a escuridão. Assim é a minha infância, tal como hoje me lembro dela.
Os mortos habitam, como diz Tirésias, uma região sem alegria, à qual não chega a luz do Sol. Aquiles, o herói Aquiles, agora morto, pálido, exangue, confessa a Ulisses preferir viver como um escravo de um qualquer homem sem importância nem património do que reinar sobre todos os mortos, que já nada são.
A alegria, com efeito, pertence ao mundo dos vivos, para o qual Ulisses quer regressar. Por isso, o nome do fruto que cresce ao sol, que os latinos hão-de chamar apricus, há-de, mais tarde, querer também dizer abrigo. Ter abrigo, com efeito, não é ter um telhado, mas ter acesso ao Sol. Assim, nas nossas cidades, o excluído não é o que não tem tecto, mas o que não tem acesso ao Sol, à luz, à alegria e à vida. É o que vive na sombra, esquecido da verdade do ser, pois que o seu sangue não é aquecido pelo Sol.
Assim é a saudade da minha infância. Lembro dentro de mim, criança, esta distinção radical entre a noite e o dia, a tristeza e a alegria, a morte e a vida; esta crença natural na luzidia verdade do ser que me rodeia e ao qual me entregava com o seu brilho reflectido nos meus olhos; esta vontade corajosa de viver rindo, sem medo de chorar – porque sempre chorando o medo… Outras coisas terei experimentado e sido e vivido. Só disto tenho saudades. A isto apenas regresso. Tudo o resto morreu, esquecido.

Comentários a “A outra infância # 4” (13)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Boa saudade, a de viver rindo sem medo de chorar. E que homérica, épica fotografia, Gonçalo.

    • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

      Boa, na verdade, Manuel. Mas triste, por ser só saudade. Neste momento já vou a caminho, já estou de regresso. Mas ainda tenho muito medo que não choro e muito choro que nada vale. Perdi-me, é verdade. Mas não tanto que não saiba ainda exactamente para onde quero voltar: para aquela certeza de ser, inteiro, na alegria e na tristeza.

  2. Turmalina diz:

    Gonçalo, que bebê mais lindo você era…e não que eu pense que todos os bebês são lindos…com certeza alguns são mais.São principalmente mais risonhos, mais simpáticos, mais felizes!!! Que bom que a fotografia tenha congelado toda essa alegria :o)

    • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

      Obrigado Turmalina. Mas não foi a fotografia que congelou a alegria. Foram… enfim, outras coisas. Mas não tanto que não possa ainda derreter-se esse triste frio que a encarcerou.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Antevê-se na foto a imparável força dialogante que irá marcar mais tarde o tribuno e o cantor consagrados, sem dúvida!
    A foto é toda ela um canto.

    • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

      António, nem tribuno, nem cantor, nem consagrado. Mas a força, sim, lá estava. E se lá estava ainda cá está. Ando outra vez à procura dela. Com alegria, pois claro. Obrigado.

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Que bebé risonho, solar.

  5. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Era Eugénia. De facto. E já sou hoje outra vez um bocadinho. E hei-de sê-lo inteiramente outra vez. Obrigado.

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Gonçalo, olhe bem, mesmo, mesmo bem, para a fotografia. Já olhou? Olhe mais uma vez. E outra. E outra. E outra. Quantas sejam necessárias…

    Para relembrar, recordar, recuperar, reassumir tudo o que de força, vitalidade, optimismo, alegria, gosto pela vida, curiosidade, expectativa e divertimento está inscrito all over este absolutamente delicioso bébé da fotografia. E que — quanto mais vivo, mais disso me convenço — nada, absolutamente nada há que possa apagar, destruir, retirar, inverter. Quando muito, esbater, a pontos de os julgar perdidos. Mas isso resolve-se: ora olhe lá bem outra vez … :)

    • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

      É verdade, Joana. E veja lá que agora nem preciso de olhar para a fotografia porque tenho uma quase igual cá em casa. Mas adoro que me façam elogios enquanto bebé. Obrigado. :)

  7. Redonda diz:

    Espero que reencontres a alegria e força de viver que tinhas e que arrastava tudo à tua frente. Quanto à fotografia, eras e és um espanto. Bjs.

  8. Pedro Norton diz:

    Gonçalo, compreendes que passe a parte do “que bébé querido”, espero. dito isto, gostei mesmo muito do texto.

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