Quando eu era pequena, muito pequena, tinha, não é segredo, já contei, uma grande fúria escritiva que a custo, e só de tão tremenda vontade, me cabia dentro. Não era só por não ter a desejada independência leitora — e isso era-me muito. Tanto. Era a ainda mais grave incompreensão do significado das letras, desenho de curvas e rectas que correspondiam, por uma lógica que me escapava, a sons que faziam palavras para dizer no papel. E eu, que desespero!, não as sabia nem percebia porque é que um A dito se desenhava em A de bico. Fazia aquela fúria estreitar-se até passar pela ponta redonda da lapiseira, e em cima de folhas cheiinhas de frases escritas por alguém, o que apanhasse, zás! era meu, apontamentos, listas de compras, o diabo, era-me igual, sabia lá eu o que estava escrito, só sabia que havia de saber nem que tivesse que escrever por cima, letra a letra, tudo. Tudinho a fazer força demais na caneta, a exasperar-me do cansaço de intermináveis linhas de uma folha toda de palavras de alto a baixo. Mas feliz de sei escrever por cima, só não sei o que diz, não faz mal, faz de conta que diz.. será que diz? Uma vez tirei as teimas: pedi que lessem. Tinha esperança que tivesse ficado escrito por cima, não o que estava escrito por baixo, antes aquilo que tinha pensado enquanto escrevia por cima: o meu pensamento também escrevia, soprava pela tinta coisas de uma cadela e uma menina, circo, rua, casas, ser grande, malinhas, princesa e príncipe e encantamentos, pessoas crescidas, árvores, mar, feira. Porém não: a mão não escrevia o pensamento. Um dia. Às vezes, quando aquele caudal de esforço rasgava o papel e me fugia nas linhas, ficava submersa dele, apetecia-me gritar ou chorar ou as duas coisas juntas mais atirar livros ao chão com estrondo, rasgar tudo. Sabe Deus como, em vez de, ia a velocidade alucinante, a minha avó, páre vendaval, dar banho a uma boneca, aconchegar o chorão no carrinho azul escuro de rodas brancas, pô-lo a dormir nos lençóis com patinhos amarelos bordados, fronha igual, a dobra debruada a bordado inglês, e fitinha também amarela, sobre a manta macia, de tricot, por cima. Ou andar de bicicleta. Páre vendaval. Uma infância inteira, a vida toda, páre. Eu vendaval parava. Depois, calma, voltava. No quintal, traseiras de tudo já depois de tudo, não no pequenino, de cozinha, ao lado, bonitinho, onde um enorme Dezembro floria de vermelho o Natal, alecrim, hortelã, salsa e coentros o ano todo, acesso restrito por causa de um canteiro em pedra que a minha avó inventara. Não, no outro, ao fundo do fim da casa, onde um cavalete, o meu avô fazia-me vontadinhas, improvisara-me um cavalete enorme, não no quarto fechado e sério com escrivaninha, nem pensar, no quintal, com o melhor movimento de entra e sai, gente de fora que eu não via dentro, e máquinas, pias, tanques, alguidares de roupa que esperavam para subir as escadas até aos estendais lá de cima, e até uma galinha sem cabeça a correr uma dança circular de morte. Quando era pequena e quase até ser grande tinha calo no dedo médio.



















Eugénia: gostei muito e gostei de tudo. Desde o pensamento soprado pela tinta até à galinha a correr. A despropósito como você costuma dizer: conheci e conheço muita galinha a correr sem cabeça. No sentido metafórico, claro. Mas também galinhas, galinhas. A espirrar sangue por todos os lados e os cães (Faruk e Tarzan, imagine) a morder-lhes as canetas.
Fico contente, já sabe. Grandes nomes, Faruk e Tarzan. A minha Laika já estava mais que baptizada quando nasci. Ela era mais crescida.
Ps: há que tempos não ouvia alguém dizer.. canetas de patas ou pernas finas!
Gostei muito. Também eu tinha calo no dedo médio de tanto rodar as Bic. Hoje já ninguém tem calos desses, os teclados não os fazem.
Lembra-se, Alberto?
Bic Laranja,
Bic Cristal,
duas escritas à vossa escolha,
Bic Bic Bic.
Bic
Era danada a pequena.
Era uma miúda de trato fácil, José Navarro, que se entretinha sozinha e, vá, um bocadinho inho eléctrica.
Eu acho que ainda é — a cara tem a mesmíssima expressão vendavalesca.
Também tive calo — ainda tenho resquício e tudo.
Mas você, Eugénia, é uma pessoa com sorte, fizeram-lhe fotos giras, e várias.
Sou um infeliz do passado…
Plasme lá o raio das photos, seu infeliz do passado! — você faz-me rir sozinha com o ecrã! Que diabo de homem fiteiro..
Vendaval passou, tão lindo o que deixou.
Vendaval.. não sei se ainda, acho que sou bastante calma, agora — em regra. As excepções não contam.
Já sabe, Manuel Fonseca, escusaria quase de o dizer: fico sempre feliz quando gosta do que escrevo. Obrigada.
Eugénia…vou ter de dizer que você arrasou.Essas suas lembranças parecem os instantâneos da minha infância. Lembro-me com saudade da alegria com a chegada de uma Polaroid lá em casa.Tive um pato amarelo, mas minha paixão era um poodle azul marinho. Ao vê-la com a boneca no colo lembro-me do meu inseparável Feijãozinho (assim é que ele se chamava) com os cabelos todos levantados.E essa sua segunda foto é uma fofura só, que menina mais linda.Eram maria chiquinhas?
Ah…acabei de me dar conta que tenho um lindo calo no dedo médio da mão direita :o)
Se maria chiquinhas forem as tranças, sim. Obrigada, Turmalina.
Poloroid!, adorava aquilo da fotografia a sair entre o ruído fino, tomar fôlego entre os dedos que a abanavam, ganhar cor e existir. Mal comparado, claro, uma mulher que desmaia e acorda. Tenho de ir saber se ainda se vendem.. Isso é que é máquina para mim. Não sei como é que não pensei nisto antes. Parece mentira. Que nervos!
Não sabia que essa maneira de pegar no lápis também provocava calo. Pensava que só a antiga maneira provocava aquela anacrónica protuberância na terceira falange do dito.
Ainda hoje o meu dedo apresenta os vestígios, e já nem cheques assino…
E o que dizer daquelas canetas de corpo de madeira e molhar no tinteiro da carteira, cujo aparo passava o tempo a impeçar no papel, produzindo intensos gaffiti nos cadernos, dedos e mãos, bata, pernas e nem sei que mais.
Que grande caderno usava, e ainda tão novinha e já ia em mais de meio. Seria prosa ou poesia? Ou será que nessa idade já produzia “Inventários…”?
E com que afinco escrevia, até a mão esquerda como que arranhava o papel no frenesim da produção literária.
Mas o que mais gostei foi das fotos. Até que enfim!… Era então que nós éramos mais nós.
Obrigado por nos abrir e compartilhar a sua meninice.
Caro Orcama, olá. Não escrevi com essas canetas, mas o drama da tinta pela bata, dedos, trabalhos destroçados, conheci-o bem, chamava-se tira linhas dum raio e tinta da china!
Merci.
Eugénia: calo (ainda o tenho), galinhas (também, mas era sobretudo o peru, no Natal) e vendaval (hoje já não tenho forças, mas para o bem e para o mal, os outros ainda o esperam de mim), são memórias que temos em comum da nossa infância.
Quanto às provas da sua existência extra-virtual, deu-se aqui um grande passo, já que a menina com uma boneca ao colo tem os olhos da outra menina que está no seu perfil.
Acho, Gonçalo, que a infância é um lugar de verdade comum mesmo se feita de experiências diferentes.
Eu ainda tenho calo no dedo médio. E a única tareia que apanhei, do meu pai, foi devida às galinhas sem cabeça: A Srª Maria, caseira da quinta onde passava os meus dias, um dia manda-me embora: vai para casa que eu tenho de matar galinhas; mas é tão giro vê-las correr sem cabeça; vai-te embora não te faz bem ver essas coisas, és má; e de má peguei numa pedra e parti o vidro do postigo da porta que me era fechada.
Olá Ana.
Todas as meninas são um bocadinho más, mesmo as muito boas. Não sei exactamente de onde vem essa qualidade um tudo nadinha perversa da primeira infância, talvez do olhar, de percebermos muito mais do que nos é concedido que percebamos. Nem sei se não será por isso que adormecemos na segunda infância e só voltamos a abrir os olhos na adolescência e a acordar, de facto, na idade adulta. Mas naquele tempo inicial, vida e morte, felicidade e dor, são lugares sem fronteiras entre si, onde tudo é natural.
Postigo. Há quanto tempo não ouvia esta palavra. Usei-a tanto e tinha-a esquecida ou deixado para trás por junto com a casa. Merci.
… agora recordei a ‘inveja’ que uma pessoa da família, com muito pouca instrução, sentia do meu calo no dedo…, e fiquei com tanta saudade e tanta tristeza e tanta coisa aos trambolhões cá por dentro, que estou para aqui com água morninha a rolar-me dos olhos.
”…Bic Laranja — uma escrita fina, Bic Cristal — uma escrita normal, Bic-Bic-Bic…, Bic-Bic-Bic…“
ai meu deus, deusa…
(beijo ao cão, s.f.f.)
O raio da memória dá-nos tratos de polé ao coração, Margarida..
Que menina tão amorosa e que texto tão cheio de graça!
O “páre, furacão” da sua Avó — ja um clássico dos relatos de e sobre a Eugénia-pequenina — é absolutamente irresistível! Muito intensa seria a menina, com tão grandes olhos para ver tudo e tão grande vontade de escrever…
Encantou-me a segunda e compenetradíssima fotografia: tenho uma quase igual da minha filha Madalena que, dos milhares que lhe tirei, continua a ser a minha preferida…