Apresento-vos o Viajante Heróico
Mudava os nomes conforme os filmes. Ficou o conceito que a todos unia, o Herói. O Herói morava nos limites do bairro. Pertencia ao bairro por escolha pessoal que nunca se dignou comunicar. Nenhum de nós, no bairro, se atreveu sequer a interrogá-lo sobre o direito que se arrogou, muito menos a pôr em causa a legitimidade da decisão unilateral. O Herói morava nos limites de tudo: do sexo, da cultura, da raça, do asfalto, da lei – e com esta espero arrancar-lhe um sorriso quando ele me ler, porque ele me vai ler. Ele lê tudo, como já naquele tempo via os filmes todos e era, mais do que o Yul Brynner ou o Charlton Heston, o herói de todos: Sansão, Taras Bulba, Miguel Strogoff, Spartacus, Sandokan.
Ficou em Angola, como Angola dentro dele. Vive onde vive o que não vem ao caso. Temos conversas bissextas. Antes por carta, agora por e-mail. Um extenso telefonema, 300 páginas, o ano passado. Viaja muito, viagens heróicas. Por locais tão insólitos como os bizarros heróis que foi. Convenci-o a deixar-me publicar no Gente Morta algumas impressões do seu aventuroso périplo. Regularmente, espero. Disse-me: “Kamba, se é um cemitério até deixo. Mas poupa-me às vossas flores. Abomino gladíolos.”
A Fêmea Ausente
Um post do “Herói”

Aden: o mataco no asfalto 1
Foi antes do twighlight: em Aden, como em Luanda, ainda não são 7 e já é noite. Fiz o que me trouxe cá e saí do sumptuoso escritório do Abdul (tinha que lhe dar algum nome, não é). Rumei à Cratera. É a cidade velha, do porto velho. Lembra filmes dos nossos, mas com lixo contemporâneo. Aden ferve. Aliás, tudo ferve no Yemen. De dia e de noite. O pessoal gosta de sentar no chão, nas escadas, nos passeios, à frente das lojas – gostam do mataco* no asfalto. Só homens, meu, não vás pensar outra coisa. As baronas** recolhem-se, recônditas.
Durante a estada, todos os dias, curti a baía do Elefante, a água morna, mas na praia a fêmea local é ausente. Será que foi esse o gancho do teu sobrevalorizado Rimbaud? Embora digam que apareceu agora uma foto dele aqui, à porta do Hotel de l’Universe, sentado – em Aden todo mundo senta, não te disse? – ao lado duma duia***, suposta concubina. Não fui à casa que dizem que foi dele. Avisaram-me de que era coisa miserável. Para miséria e musseque já dei.
Quando se chega de carro, entra-se pela ilha. Entrada mentirosa, como diria a minha avó preta – explica aí aos teus avilos**** que tenho uma branca. A ilha afinal não é ilha. É só uma península, nem sequer uma jangada de pedra. E já te estou a mentir de novo. Fiquei uátobo*****, quando vi a festa de pedra que é as cisternas. Dos mil anos arqueológicos e muita pedra. Cabe lá a chuva de um mês. Se chovesse. Interessa é que os abissínios devem ter cavado aquilo à mão, sentados já vês, à espera que ainda estavam que Maomé chegasse. A persistência que emana da obra comoveu-me, e bem sabes que sou mais exaltado do que sensível.
Como estás agora muito dado a cemitérios, conto-te que também farejei o Cemitério Militar Britânico. Tem pinta romanesca desde que o romancista não seja o Pepetela, se é que me faço entender. Um toque de fim. De despedida. De europeus a levar com a catana árabe na mona. Não leves a mal, meu.
Como andas sempre a vangloriar-te do dim-sum do Golden Unicorn, lá da tua New York, fica a saber que comi dim-sum em Aden. Para poupar o dinheiro do povo que a oligarquia custa a todos. Ironia das ironias, o chinês de Aden, o Ching Sing, onde é que havia de ficar? Na que já foi a Stalin Allee. Papar chinês, com mãos e chupar os dedos, ao mesmo tempo que se calca o Stalin, é uma espécie de êxtase geracional. Tardio o êxtase, porque o revisionismo dissipou o encanto da coisa. Hoje a rua chama-se Madram road. Já ninguém se lembra de nada, nem de sonhos, nem de pesadelos. Até os árabes andam de memória envergonhada. Por estas e por outras é que da fervente Aden saí como entrei: não me aqueceu, não me arrefeceu. A cidade é triste e o povo desprezado. Aden é o sul, o poder é o norte. Um separatismo patético anda no ar. Já vi muita coisa: é só poeira.
E basta. Toma nota: consegui “não falar a política”. Fiz só conversa de menino turista. Espero não ter cansado o teu people. Se lhe tomar o gosto, talvez volte.

Aden, o mataco no asfalto 2
Glossário por msf
*mataco – o mesmo que rabo, tanto se dá que seja um bom ou um mau rabo.
**barona – fêmea, como diz o Herói.
***duia – rapariga. Uma boa duia vale uma boa semba e juro que não é o que estão a pensar.
****avilos – amigos; podem ser do peito.
*****uatobo – ficar de boca aberta, com cara de parvo.

















É bom, Manuel Fonseca, que ele, o herói de tantos heróicos nomes, abomine gladíolos. Desconfio fortemente, por essa razão apenas, que pouparei na florista. Diga-lhe que a ser sempre assim, é muito bem vindo, ele, anónimo, a despeito das exigências de antivedeta, vedeta igual, pelo avesso.
Eugénia, não tenho mandato do Herói, mas antecipo agradecimentos que certamente me hão-de chegar. Tem razão, também o acho vedeta. É coisa irrepremível apesar do cinto de castidade que ele tanto e tão bem aperta — e esta ele não ma vai perdoar, ainda para mais dita à frente de uma linda santinha da Sardenha.
Manuel, volte para falar mais de Luanda…apesar de estar tão longe de Moçambique, muito do seu texto me lembram palavras tais como machamba, xipoco e naparamas de uma Terra Sonâmbula, retratada por Mia Couto.
Turmalina, o texto não é meu, mas sim de um não-residente neste cemitério. Estou certo de que ele será sensível ao seu pedido…
Só agora, a descansar de um intenso período de férias, tive tempo de ler este fantástico texto.
Gostei muito do relato em tom de “menino turista”. Nada sabia sobre Aden, excepto vagamente onde ficava. Tinha ouvido falar por causa dos atentados recentes envolvendo a Al-Qaeda. Fui ver, claro, e aprender. Sobretudo as extraordinárias cisternas e a casa de Rimbaud. Também gostei da parte do dim sum — fez-me saudades do que constantemente comia em Macau. E das extraordinárias palavras novas (para mim) e do esclarecedor e explicativo glossário.
Agrada-me a ideia de um Herói que percorre o mundo e que se detém de vez em quando aqui no extraordinário cemitério, Fico curiosa à espera do próximo relato.
Joana, a mim também, mas ele, o Herói, além de errático é também recalcitrante. Anda sempre a não fazer o que já fez uma vez. Já lho disse mil vezes, e por isso me autorizo a denunciá-lo publicamente: adora frustrar expectativas. O que vale é que eu sou persistente (o que não faço por este cemitério!!!, ah, ah, ah) e estou quase a caçar-lhe o segundo relato.
Manuel…, mas o nosso Herói é padre?!…
Gostei muito deste escrito com vista para Aden, há algo de familiar em tudo o que diz — talvez por o autor ser Angolano, é o mais certo, que não conheço a África Oriental.
Padre??? Vais ouvir das boas do Herói. Se bem que, acólito, já não sei se na Missão de São Paulo, se na de São Domingos, isso foi.
Ah, e também acho que há uma idiossincrasia afro neste meu kamba que não o “deslarga”. Está pegada!
Contribuição para o entendimento da semântica em “não falar a política”:
http://www.youtube.com/watch?v=he53jhGgJRE
Xé menino Orcama, fizeste bem então!
Mas Mr. Orcama, ter de aturar a Dulce Pontes… frankly my dear!
Orcama, caro Orcama, NÃO SE FIQUE, todos temos direito às nossas dulces pontes — por acaso desta também não sou fã -, o Manuel Snob Fonseca tem as dulces e as pontes dele. Responda-lhe, mas como deve ser: frankly my dear, i don´t give a damm.
É pouco torcidinha, é!!! Veja lá se quer ver o seu reino sardento invadido por pessoal bem treinado que imponha uma, digamos, disciplina musculada. Tudo acompanhadinho com as obras completas da pontes.
Assim de repente, não estou a ver ninguém com tais capacidades.. mas estimo que tenha muitos e bons conhecimentos.
Bem vistas as coisas, terei de concordar com o reparo. Senti-o mesmo, antes de ter incluído aquele específico link. Fi-lo por consideração aos numerosíssimos e intercontinentais leitores deste extraordinário Blog.
A razão foi só esta: a transcrição da letra. Pois é, não se pode ter tudo…
Aqui fica pois o link que teria inicialmente escolhido:
http://www.youtube.com/watch?v=Kl8mLhXyGis
Todavia, monandengue Maner das bigs mowas, só pode ser mesmo o juvenil desejo de xingilar este teu kota. Ora repara neste som da tal Dulce:
http://www.youtube.com/watch?v=4c8IvUBJ30c
Este som e registo, ouvido numas competentes Dynaudio Audience 82 devidamente amplificadas por um adequado Nad, até o inspirar se ouve. Espera só, que vai-te entrar mesmo pelos dois ouvidos, e mais cedo do que esperas!…
Pois é, nem tudo é o que aparenta.
Komé meu mais velho, ouviste só o muxoxo? Meu primeiro muxoxo em dynaudio audience 82, ai ué! Mas no Bastos, estamos juntos.
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