
- foto de Kathryn Parker Almanas
O que lhe pareceu mais estranho não foram as sete cabeças envolvidas em celofane que estavam na arca frigorífica.
O pelicano da BT até se alegrou quando viu a furgoneta fumegante descendo por ali abaixo, adornando nas curvas da serra, rumo a Vila Velha de Ródão. Àquela hora pós prandial, com os pinheiros a estalarem ao sol ameaçando combustões e tragédias, dormitava ele ao volante do patrulha, na emboscada à N18. Lá surgiu então a descomposta carrinha. Despertado num repelão, alarmou a sirene, atravessou o patrulha na estrada e ergueu a palma da mão fazendo alto. Ato contínuo, as portas do veículo prevaricador se abriram e delas despontaram dois indivíduos com propósitos de fuga. Entusiasmado e bem oleado pela adrenalina, o guarda deu uns tiros para o ar e outro para diante, só para ser levado a sério, ao que já um estava amochado no asfalto com a cabeça entre as mãos e outro de joelhos e braços levantados, ambos irrompendo num lamento ululante e enigmático. Eram romenos. A seguir foi a revista ao furgão e lá dentro a arca ligada a uma bateria a zumbir na penumbra. O resto já sabem.
Veio a tropa toda do posto de Vila Velha cortar o trânsito, esticar fitas amarelas, registar a ocorrência e mostrar aprumo. No calabouço, antes que chegasse a polícia graúda, bem sacudiram a ciganada com tabefes, cuspidelas, berros, o tenente mandou-os despir, um cabo de olhos vermelhos agitou um facalhão mesmo diante do seu nariz, mas os flagrados, uma vez começando a gemer já não pararam, entregues ao fatalismo zíngaro, o que viesse que viesse depressa, porque tinha que vir. Ficou assim a guarda sem muito que reportar aos inspetores que nessa noite mesmo chegaram da cidade. Ao verem uns paisanos com tanto à vontade na esquadra dando ordens aos fardas, os ciganos descompuseram-se de vez, aterrorizados com a dimensão da desgraça que decerto se preparava.
Desembrulhadas, expostas, classificadas, enumeradas e conferidas as cabeças, o que verdadeiramente intrigou o inspector foi a placidez daqueles rostos decepados cerce por um corte limpo e breve. A expressão que eles ofereciam não era de abandono nem a de quem foi passado ao fio durante o sono. Era outra coisa: uma tranquilidade consciente, uma espécie de felicidade interior; tinham ar de enamorados, como se ainda neles houvesse alma.
De pronto, com grandes demonstrações de submissão e humilíssimos, os romenos romperam numa algaraviada, donde se retirava que não sabiam nada, que tinham sido pagos para levar a carga sem abrirem e muito menos desligarem a arca, que nada sabiam, que o frete tinha sido combinado em Lisboa, que não sabiam de nada, que tinham ordens para atirar o aparelho ao Tejo, junto ao Cedilho, em terra de ninguém. Fora isto não sabiam mais nada, por favor sinhor. É assim que eles nos levam à certa, remoeu o inspetor.
O pânico tomou os ciganos, ao verem os polícias virar costas e irem-se embora sem mais, deixando-os entregues à guarda. Nos praças e no próprio tenente inflamava-se o despeito por terem sido excluídos do interrogatório. O meu tenente vá levantando o auto relativo ao código da estrada que infrações não faltam para armar um valente processo, o resto fica ao nosso cuidado, não se preocupe. Obrigado – e foi esta despedida do inspetor.
Num assomo de autoridade castrense o oficial ordenou aos subordinados:
– Levem esta merda toda para os bombeiros, não quero aqui nada a estorvar o serviço.
Tal era o humor dos guardas quando acolheram os ciganos de volta. Os coitados acoitaram-se no fundo mais negro da cela e agudizaram a tétrica melopeia.

















Lindo! O que eu — sádica, confesso — gostei dos pormenores do zíngaro desespero, algaraviada incluída! Mas … e as sete cabecitas, não sendo decerto de pescada, eram a) de porco? b) de vaca? c) de borrego? d) de outra espécie, animada?
curiosa pergunta. Estive mesmo para afirmar que erem humanas, mas depois pareceu-me redundante. Não era.
Horror! Eram humanas as sete cabeças que aqui cortou, Zé Navarro!???!
Confesso que foi o que achei na primeira leitura — desde logo por conta da alusão à subsistente alma … — mas ao reler, entre a respectiva profusão, a caixa frigorífica e o envio das ditas para os bombeiros, convenci-me de que se tratava de um crime económico — tipo abate ilegal — coisa do pelouro da ASAE .… Afinal era gente morta!
Zé: chama-me sádico a mim também mas o texto é muito bom. e a foto, trágica rosa de sangue, é muito, muito boa.
I see dead people*
Gostei muito de tudo, José Navarro, palavras e imagem.
Obrigado, caros. Uma descoberta, de facto, esta sra. Alamanas. Visitem o site dela e deslumbrem-se.
Muita acção na lezíria! A hydra innumera numa arca frigorífica, o que Inocêncio III não pagaria por isso…
Tremenda foto.
[…] Pela estrada abaixo – […]