
Não se lembrava da última vez que tomara um banho de imersão. Naquele dia, apetecera-lhe. Encheu a banheira e despejou lá para dentro uns sais e mais um gel, presente de Natal ou de anos, não sabia ao certo. O rosa-vivo destes tingiu a água e a espuma. No ar, um intenso cheiro a rebuçado de framboesa. Ou seria morango? Sentia-se vagamente ridícula. Hesitou. Mas aquilo era suposto ser relaxante, revigorante, activar a circulação nas pernas… Largou o roupão e entrou na banheira. Excelente, a temperatura da água. Procurou uma posição confortável. Olhou à volta — o lavatório, o pequeno armário por baixo que mandara há tempos fazer, o espelho a começar a embaciar. Será que também é cor-de-rosa, o vapor? Sorriu da absurda ideia e fechou os olhos. Para logo os abrir e, rapidamente, espreitar e voltar a fechá-los. Tudo na mesma.
Às vezes parecia-lhe ainda vê-lo ali. De pé, diante do lavatório. A fazer a barba. Nu.
Estes flashes causavam-lhe uma irritação difícil de controlar. A mesma que sentia quando, dali, de onde estava, ele a interpelava. Com os seus problemas — pessoais, familiares, profissionais, tanto fazia. “Olha lá”, começava invariavelmente. Mesmo sabendo, porque tantas vezes ela lho dissera, que tal tratamento lhe desagradava. Depois as questões, os dilemas, os impasses, quase todos fruto da sua exasperante falta de sensibilidade e de empatia, de instinto e de tacto. Que o passar dos anos agravava. Ela respondia, resolvia. Seguiam-se os cenários, antecipados à exaustão, construídos uns sobre os outros, hipotéticos e surreais — então e se ele me responder que? e se eles me propuserem antes que? e se não aceitarem isto? e se o tipo começa com a conversa de outro dia? e se? e então se? olha lá, e se? Não valia a pena encurtar o duche: ele segui-la-ia até ao quarto. Era um exercício cansativo e inútil. Mas ao qual não tinha como escapar. A alternativa era o inferno, logo ali, logo pela manhã. Sabia-o, porque experimentara. Não responder ou explicar que estava absorta nos seus problemas. O resultado, sarcasmo e rancor: obrigado, muito obrigado, está uma pessoa cheia de problemas e é esta a ajuda que recebe; da próxima vez que me vieres chatear com os teus dramas, vais ver como é! Não era provável que isso viesse a suceder. Percebera há muito que neste, como noutros planos, nada era como esperara. Tentara. Mas sem êxito. Foste parva, agora admiras-te, tão inteligente para umas coisas…, esses tipos são umas bestas, só percebem à bruta, fora o que obtivera, de conforto e de conselho. Quisera crer tratar-se de incapacidade dele: se mal resolvia os seus problemas, como haveria de saber acudir aos alheios? Logo percebera ser algo muito diferente: uma visão totalmente enviesada do amor, do casamento, dos papéis do homem e da mulher. Profunda, enraizada, ancestral. Que ele nem sob tortura admitiria professar. Mas que praticava, se praticava. Por isso o desconcertava a insistência dela na reciprocidade: não era suposto maçá-lo com os seus problemas, não era suposto sequer tê-los.
Piores, muito piores eram os outros flashes. Felizmente cada vez mais espaçados. Imagens e sons de explosões de fúria descontrolada. Sempre dirigida a ela. Fosse qual fosse o detonador. Gritos e ameaças, insultos e reprimendas. Até acalmar. Até à próxima. Que só não sabia quando, onde e por que motivo ocorreria. Nunca pedira perdão. Nunca mostrara arrependimento. Uma ou outra vez admitira, displicente, ter-se talvez excedido, mas — que diabo! -, tinha razão. Tinha sempre razão. Os gritos eram um suplício, as descomposturas um enxovalho: vê se metes isso de uma vez nesse bestunto, não me voltas a fazer isso, não me voltas a colocar numa situação destas, ouviste? Implorava-lhe que parasse. Não consigo, não vês que não consigo? Eu bem te disse para não me irritares. Ou então, tu pelos vistos não percebeste ainda a gravidade do que fizeste. E continuava. Para que ela percebesse. Só que ela persistia em não o fazer. Em não achar inaceitável telefonar-lhe do escritório a avisar que ia chegar mais tarde, pedir-lhe que fosse, muito excepcionalmente, claro, buscar as crianças ou ao supermercado comprar leite para o dia seguinte, o facto de a empregada não ter lavado e engomado no mesmo dia (de chuva torrencial) aquela camisa branca, igual a todas as outras, que ele decidira (in pectore), usar no dia seguinte.
A princípio optara por ignorar. Não fora fácil, mas desenvolvera um excelente auto-domínio. Só que tanto para ele, como para as crianças, que assistiam às cenas – como impedi-lo? – isso equivalia a submissão. Passou a ripostar. A agressividade subiu de tom. Aos primeiros encontrões arranjou forças para o que há muito sabia ter de fazer. Nos meses seguintes, a violência continuou, sob todas as formas pelas quais ele sabia poder atingi-la, mostrar-lhe que ela estava ainda ao seu alcance. Mas não era a mesma coisa. Já não dormia com o inimigo. Já não partilhava com ele a intimidade. A casa de banho cor-de-rosa. O medo, a humilhação, o embaraço haviam dado lugar a um delicioso, desmedido e libertador alívio.
Abriu de novo os olhos. Só para mirar, mais uma vez, o lavatório, o pequeno armário por baixo, o espelho já completamente embaciado. De branco, afinal. O vazio, onde antes estava ele. Um perfeito vazio. Imenso e luminoso. Sorriu e estendeu o pé na direcção da misturadora: será que consigo pôr um bocadinho mais de água quente?