Arquivo | Agosto de 2010


Coisas do Diabo

Ao princípio estranhara. Ao tempo, achava que já tinha provado de tudo o que lhe podia dar o prazer da sua carne na carne de uma mulher. Fantasias tivera-as aos rodos, daquelas que faziam o Oshima parecer um menino de coro e que há muito tinham deixado de o ser porque vividas até ao tutano. Dos relatos dos seus amigos das pândegas das sextas-feiras, também não vinha nada de novo. Apenas mais do mesmo. A verdade é que nenhuma das mulheres que tivera – e já não se lembrava se desistira de as contar depois da quinquagésima ou se daquela vez em que lhe apareceram quatro à porta de sua casa — lhe tinha feito uma exigência daquelas. Estranhara mas aceitara as regras do jogo. E acabou mesmo por se excitar com a ideia. Afinal de contas, pensou ele, sabia que tinha um talento especial para satisfazer todos os caprichos sexuais delas. E este, ao contrário de outros, nem era de todo irracional. Ela explicara-lhe que, por ser uma mulher casada, só podia ser assim. Uma vez por mês, sempre à quarta-feira à tarde que era quando o marido estava fora e ela tinha a sua folga semanal. Sempre na banheira, onde ela o esperava de corpo imerso. Para que não se sentisse suja e as impurezas daquele prazer proibido fossem todas pelo ralo abaixo logo que ela saísse do transe. Só podiam ser obra do diabo, dizia-lhe ela, aqueles estremeções que lhe percorriam o corpo todo. E ele acreditava nela, quando ela lhe jurava que com o marido, homem temente a Deus, não havia nada daquilo. E ele tinha de se depilar todinho, com o cabo e as lâminas que ela lá tinha guardado só para ele. Ou melhor, ele depilava-se até onde o seu braço alcançava e deixava-lhe a ela – e que prazer tinha ela nisso antes do outro prazer que aí vinha! – a minuciosa tarefa de remover as pilosidades traseiras. E ele já se habituara ao riso que tomava conta dela no momento da extracção daqueles tufos redondos que enfeitavam as suas nádegas (que eram enfeites, isso era coisa dela, porque ele nunca lhes conseguira por a vista em cima, nem através do espelho que havia lá em casa). Um riso que vinha assim em convulsões e que só podia ser uma espécie de preparação mental para as convulsões subsequentes. Tinha de ser assim porque com ela, mulher casada e também temente a Deus, nada a podia fazer sentir como uma cadela com cio. E, enquanto não desaparecessem aqueles pelos todos que eram o orgulho da virilidade dele, era assim que ela se sentia.

Ele estranhara ao princípio. Mas agora não se queixava. Sentia-se bem naquele papel de diabo. Só tinha pena de a coisa só acontecer uma vez por mês. Tinha de ser assim, dizia-lhe ela. O pelo tinha de voltar a crescer para ser arrancado como uma erva daninha.

O tempo e o espaço

As imagens são tão boas que não vou estragar-vos o gosto com sermões. Ora vejam.
Este é um anúncio da Playboy brasileira. O tema merece futuros posts de alguns dos mais ilustres autores aqui do cemitério (caramba, mortos, mas nem tanto).


 

A discrição deste suave anúncio de um gel entusiasma e, vá lá, comove. Não deve haver melhor gel. Manix-gel high power lubrification, se querem saber.

O drama do desemprego

Empregos. Jobs. Mesmo aqui, neste Cemitério de Gente Morta, estamos longe de ser insensíveis ao drama do desemprego, um dos cancros do nosso mundo globalizado. Queremos ajudar. Mas reconhecemos que não é fácil. Cada vez há menos postos de trabalho decentes e, quando aparecem, reunir as condições de candidatura exige recursos filosóficos que não estão ao alcance de qualquer um. Para ser franco, acho mais fácil resolver o paradoxo de Zenão…

Um Perfeito Vazio

 

Não se lembrava da última vez que tomara um banho de imersão. Naquele dia, apetecera-lhe. Encheu a banheira e despejou lá para dentro uns sais e mais um gel, presente de Natal ou de anos, não sabia ao certo. O rosa-vivo destes tingiu a água e a espuma. No ar, um intenso cheiro a rebuçado de framboesa. Ou seria morango? Sentia-se vagamente ridícula. Hesitou. Mas aquilo era suposto ser relaxante, revigorante, activar a circulação nas pernas… Largou o roupão e entrou na banheira. Excelente, a temperatura da água. Procurou uma posição confortável. Olhou à volta — o lavatório, o pequeno armário por baixo que mandara há tempos fazer, o espelho a começar a embaciar. Será que também é cor-de-rosa, o vapor? Sorriu da absurda ideia e fechou os olhos. Para logo os abrir e, rapidamente, espreitar e voltar a fechá-los. Tudo na mesma.   

Às vezes parecia-lhe ainda vê-lo ali. De pé, diante do lavatório. A fazer a barba. Nu.

Estes flashes causavam-lhe uma irritação difícil de controlar. A mesma que sentia quando, dali, de onde estava, ele a interpelava. Com os seus problemas — pessoais, familiares, profissionais, tanto fazia. “Olha lá”, começava invariavelmente. Mesmo sabendo, porque tantas vezes ela lho dissera, que tal tratamento lhe desagradava. Depois as questões, os dilemas, os impasses, quase todos fruto da sua exasperante falta de sensibilidade e de empatia, de instinto e de tacto. Que o passar dos anos agravava. Ela respondia, resolvia. Seguiam-se os cenários, antecipados à exaustão, construídos uns sobre os outros, hipotéticos e surreais — então e se ele me responder que? e se eles me propuserem antes que? e se não aceitarem isto? e se o tipo começa com a conversa de outro dia? e se? e então se? olha lá, e se? Não valia a pena encurtar o duche: ele segui-la-ia até ao quarto. Era um exercício cansativo e inútil. Mas ao qual não tinha como escapar. A alternativa era o inferno, logo ali, logo pela manhã. Sabia-o, porque experimentara. Não responder ou explicar que estava absorta nos seus problemas. O resultado, sarcasmo e rancor: obrigado, muito obrigado, está uma pessoa cheia de problemas e é esta a ajuda que recebe; da próxima vez que me vieres chatear com os teus dramas, vais ver como é! Não era provável que isso viesse a suceder. Percebera há muito que neste, como noutros planos, nada era como esperara. Tentara. Mas sem êxito. Foste parva, agora admiras-te, tão inteligente para umas coisas…, esses tipos são umas bestas, só percebem à bruta, fora o que obtivera, de conforto e de conselho. Quisera crer tratar-se de incapacidade dele: se mal resolvia os seus problemas, como haveria de saber acudir aos alheios? Logo percebera ser algo muito diferente: uma visão totalmente enviesada do amor, do casamento, dos papéis do homem e da mulher. Profunda, enraizada, ancestral. Que ele nem sob tortura admitiria professar. Mas que praticava, se praticava. Por isso o desconcertava a insistência dela na reciprocidade: não era suposto maçá-lo com os seus problemas, não era suposto sequer tê-los.  

Piores, muito piores eram os outros flashes. Felizmente cada vez mais espaçados. Imagens e sons de explosões de fúria descontrolada. Sempre dirigida a ela. Fosse qual fosse o detonador. Gritos e ameaças, insultos e reprimendas. Até acalmar. Até à próxima. Que só não sabia quando, onde e por que motivo ocorreria. Nunca pedira perdão. Nunca mostrara arrependimento. Uma ou outra vez admitira, displicente, ter-se talvez excedido, mas — que diabo! -, tinha razão. Tinha sempre razão. Os gritos eram um suplício, as descomposturas um enxovalho: vê se metes isso de uma vez nesse bestunto, não me voltas a fazer isso, não me voltas a colocar numa situação destas, ouviste? Implorava-lhe que parasse. Não consigo, não vês que não consigo? Eu bem te disse para não me irritares. Ou então, tu pelos vistos não percebeste ainda a gravidade do que fizeste. E continuava. Para que ela percebesse. Só que ela persistia em não o fazer. Em não achar inaceitável telefonar-lhe do escritório a avisar que ia chegar mais tarde, pedir-lhe que fosse, muito excepcionalmente, claro, buscar as crianças ou ao supermercado comprar leite para o dia seguinte, o facto de a empregada não ter lavado e engomado no mesmo dia (de chuva torrencial) aquela camisa branca, igual a todas as outras, que ele decidira (in pectore), usar no dia seguinte.

A princípio optara por ignorar. Não fora fácil, mas desenvolvera um excelente auto-domínio. Só que tanto para ele, como para as crianças, que assistiam às cenas – como impedi-lo? – isso equivalia a submissão. Passou a ripostar. A agressividade subiu de tom. Aos primeiros encontrões arranjou forças para o que há muito sabia ter de fazer. Nos meses seguintes, a violência continuou, sob todas as formas pelas quais ele sabia poder atingi-la, mostrar-lhe que ela estava ainda ao seu alcance. Mas não era a mesma coisa. Já não dormia com o inimigo. Já não partilhava com ele a intimidade. A casa de banho cor-de-rosa. O medo, a humilhação, o embaraço haviam dado lugar a um delicioso, desmedido e libertador alívio.   

Abriu de novo os olhos. Só para mirar, mais uma vez, o lavatório, o pequeno armário por baixo, o espelho já completamente embaciado. De branco, afinal. O vazio, onde antes estava ele. Um perfeito vazio. Imenso e luminoso. Sorriu e estendeu o pé na direcção da misturadora: será que consigo pôr um bocadinho mais de água quente?   

As mulheres, os homens #2

A adorável princesa da Sardenha, que tanto veneramos, veio explicar em francês que as mulheres são diferentes dos homens por quererem tudo. Tout. O que, claro, a qualquer homem parece logo rien du tout. Traduzindo, e nem é preciso ser para esperanto, os homens querem ontologicamente a mesma coisa: só que para os homens qualquer coisa, a mais pequenina coisa, é já tudo. O homem é holográfico: basta-lhe a fina abertura do decote e fica logo na veemente excitação de quem já viu a eternidade – um nimbado mamilo e valha-nos Deus e os sonhos de toda a corte celestial!
Mas querem os dois, masculinos e femininos, a mesma coisa – os homens a mais pequena partícula, que acarinham como se fosse tudo, porque é tudo; as mulheres querem tudo com medo que o tudo seja menos do que a soma das mais pequeninas partes.
Vamos lá ser pedagógicos e ouvir cada um — uma mulher, um homem – pedir a mesma coisa. Vão ouvir que cada um, pedindo o mesmo, pede coisas diferentes.

Ladies first, claro, com mil perdões pelo execrável visual do vídeo – não vejam, ouçam só:

Ouviram? Claro que é lindo. Mas perceberam o artifício, a pose, o subtil prazer de tirar mais dor da contemplação da dor do que da própria dor? Ouçam lá agora um homem a querer a mesma coisa:

Claro que já viram a diferença. Até lhe custa começar, de tão fundo vem a voz. Rouca de emoção pela coisa que se quer. Nenhum cuidado com a expressão, toda a atenção vai direitinha para o coração um bocadinho partido da silly girl – ó, a forma como o rapaz aconchega a silly girl entre a língua e o céu da boca!

 A canção foi composta por Tom Waits para um dos meus filmes de culto, o One From the Heart, de Francis Coppola. Infelizmente, não consegui encontrar o momento mais comovente do filme, quando o personagem do Frederic Forrest, que não sabe cantar, do que a namorada sempre se queixava, canta o “You’re my sunshine” no aeroporto para que ela, arrebatada por um cantor, pianista, bailarino (tudo!), não o deixe.

A outra infância # 4

Nos tempos homéricos, os gregos viajavam pelos líquidos caminhos: «todo o dia tinham desfraldadas as velas das naus, que corriam sobre o mar; em seguida o Sol punha-se e a sombra cobria todos os caminhos.» Assim chegou Ulisses ao fim da terra, ao curso profundo do Oceano, onde se situava o país dos Cimérios, coberto de nuvens e de brumas. Naquele lugar, que o Sol, com os seus raios, nunca aquece, estendendo sobre aqueles mortais uma noite maldita, haveria Ulisses de, por indicação de Circe, descer à mansão dos mortos e interrogar o velho Tirésias (Odisseia, Canto XI).
Ora, o que aqui me interessa nesta visão ainda brutal dos nossos heróicos gregos sobre o mundo e sobre nós é a distinção radical entre o dia e a noite, a alegria e a tristeza, a luz e a escuridão. Assim é a minha infância, tal como hoje me lembro dela.
Os mortos habitam, como diz Tirésias, uma região sem alegria, à qual não chega a luz do Sol. Aquiles, o herói Aquiles, agora morto, pálido, exangue, confessa a Ulisses preferir viver como um escravo de um qualquer homem sem importância nem património do que reinar sobre todos os mortos, que já nada são.
A alegria, com efeito, pertence ao mundo dos vivos, para o qual Ulisses quer regressar. Por isso, o nome do fruto que cresce ao sol, que os latinos hão-de chamar apricus, há-de, mais tarde, querer também dizer abrigo. Ter abrigo, com efeito, não é ter um telhado, mas ter acesso ao Sol. Assim, nas nossas cidades, o excluído não é o que não tem tecto, mas o que não tem acesso ao Sol, à luz, à alegria e à vida. É o que vive na sombra, esquecido da verdade do ser, pois que o seu sangue não é aquecido pelo Sol.
Assim é a saudade da minha infância. Lembro dentro de mim, criança, esta distinção radical entre a noite e o dia, a tristeza e a alegria, a morte e a vida; esta crença natural na luzidia verdade do ser que me rodeia e ao qual me entregava com o seu brilho reflectido nos meus olhos; esta vontade corajosa de viver rindo, sem medo de chorar – porque sempre chorando o medo… Outras coisas terei experimentado e sido e vivido. Só disto tenho saudades. A isto apenas regresso. Tudo o resto morreu, esquecido.

As mulheres, os homens

As mulheres. Falemos então de “as mulheres”. São seres alados, bem sei, mas o que nelas nos tortura é a dúvida. Negam. Bem podem os sentidos delas dizer o contrário. Negam na mesma. O beijo que lhes pomos na boca, os nossos dedos a apertar-lhes onde a carne é macia, soube-lhes melhor que framboesas. Negam. Podia insistir. Não insisto, Kate Winslet é que confessa. A cantar.

Os homens. Falemos então de “os homens”. Seres de coração puro, líricos. Seres sofridos, tanto faz que seja a cappela ou com orquestra e coro. A violência dos trabalhos, a áspera barba, o grosseiro fato de macaco: tudo fragilidades quando se arranha a superfície. Movem-se como ursos: bailarinos inconfessados e insuspeitos. Mesmo num triciclo onde pedalam a sua inocência é já para o amor que pedalam porque é muito só o homem sem amor. Mesmo ou se canta e dança como James Gandolfini.

 

Os extractos são do peculiar “Romances and Cigarettes” realizado por bizarro John Turturro.

Encontrei a Eugénia na ma-schamba

A Ma-Schamba que é um belo de um blog com cambiantes índicos, elogiou a nossa Eugénia. Embora quem a boca da nossa Eugénia beija não beije, Deus lhes valha, a boca de todos os mortos deste cemitério, não quer a gerência deixar de sublinhar a merecida referência e pedir à Ma-Schamba que se sinta veementemente abraçada.

Humphrey Bogart

Na Broadway, já ganhava 500 dólares por semana, e bastara-lhe a experiência de um filme para se desiludir de Hollywood. Tinha 35 anos e preparava-se para se resignar a uma existência sombria.
Humphrey DeForest Bogart nascera a 23 de Janeiro de 1899, embora o departamento de publicidade da Warner o dê, congeminando subtil variação, como nascido no dia de Natal. Um menino Jesus noir.
Numa tarde de Outono, estava 1934 a chegar ao fim, preparando-se para protagonizar a peça “The Petrified Forrest”, de Robert E. Sherwood, o actor Leslie Howard convidou-o para ser seu parceiro e fazer o papel de Duke Mantee, “a foul mouthed vicious killer”. Bogie aceitou e, grande salto, trampolim para outras famas. A peça foi um êxito e a Warner quis fazer o filme. Howard aceitou com a condição de que Bogart fosse com ele e voltasse a ser, como na peça, um Duke Mantee que, como diz Jorge Luis Borges que viu o filme, era um “gangster fatigado, resignado a matar (e a fazer-se matar) como os outros a morrer”. É muito provável que Bogart nunca tenha lido esta tão exacta definição, mas mesmo assim caprichou em não fazer outra coisa que não fosse dar-lhe razão.
Ainda assim, Hollywood não se convenceu logo. Os thirties eram o tempo de heróis à Gary Cooper, um “gentle giant” que sumarizava a inocência da América, galante e obstinado a lutar pela Boa Causa. E depois, como era belo. Até o insuspeito Hemingway lhe caiu nos braços: “the most beautiful man I ever met!”. A beleza de Cooper submergiu a década, o seu “play natural” também. Era uma água cristalina e Bogart era homem para beber tudo menos água.
A década seguinte, quando a Guerra, modelo WWII, lhes caiu na cabeça como um tijolo, mudou os americanos. Os novos heróis de Hollywood queriam-se “rough, tough and ready for anything” à maneira de Clark Gable. Bogart pensou duas vezes antes de ir a jogo. “Rough and tough” era como ele, mas porque raio é que haveria Bogart de estar “ready for anything”?
Quem melhor compreendeu Bogart, foi uma mulher que nunca foi mulher dele (falo menos em termos bíblicos que nisso não me meto, mas nos termos notariais que dão direito a pensão alimentar). Lulu, a lendária Louise Brooks, percebeu-o da cabeça aos pés e nada faz um homem mais feliz do que ver a nossa idiossincrasia apanhada por um possessivo raio xis (eu bem o topo, PN!).
Lulu viu logo que ser actor cansava Bogart – o homem não tinha energia para actividade tão extenuante. Pensou ela: ou desistes ou fazes da debilidade o teu trunfo. Valeram-lhe os ingleses que tinham vindo representar Chekov e Shaw na Broadway. Trouxeram um estilo que rompeu com o “more a fight than a play” dos yankees. E Bogart, nesse “new and quiet and subtle style of acting – a prose style” sentiu-se como peixe no mar, o cherne de Louise Brooks.
Hollywood demorou 34 filmes até aceitar a verdade de Miss Brooks. Matara Bogart a tiro em 12 filmes, em 8 ou o electrocutou ou enforcou, condenara-o a prisão perpétua em 9. O ponto mais disgusting da sua carreira foi uma coisa chamada “The Amazing Dr. Clitterhouse” a que, mais por raivosa vingança do que por ironia, chama “The Amazing Dr. Clitoris”.
Mas, de repente, fez-se luz. Uma série de mudanças tecnológicas que não vêm ao caso, permitiram criar a atmosfera visual do que hoje chamamos film noir – sombras muito longas, rostos obscurecidos, formas enigmáticas num espaço recortado por fitas de luz. E isso, que antes não imprimia, passou a imprimir. Em filmes de Raoul Walsh (High Sierra e They Drive by Night), John Huston (Maltese Falcon) e Michael Custiz (Casablanca), Bogart aparece como uma Nossa Senhora dos Aflitos, filmado, pelo menos em três deles, pela mestria de Arthur Edeson, um dos directores de fotografia que foi expoente do estilo. Em Maltese Falcon a mão prodigiosa de Edeson está por todo o lado, nos ângulos baixos de câmara, nos planos nocturnos sinistros e ameaçadores, como em Casablanca está na densa bruma que inventou no plateau para fazer o exquisite recuo de câmara quando Bogart e Claude Rains caminham para o começo de “beautiful friendship” deles. Nesses planos, assim iluminada, via-se finalmente o que a adorável Miss Brooks chamava “the face of St. Bogart”.
Um rosto e um olhar vazio. O “blank look” era, é outro dito de Lulu, a chave do magnetismo sexual de Bogart: “devassa-nos dá nome mesmo à mágoa”, escreveu o poeta Ruy Belo.
Trabalho e whisky, sem sono e comida parecem ter sido os ingredientes da receita de Bogart contra a inércia. O efeito, naqueles anos de cepticismo e desilusão, foi portentoso: um rosto velho, místico e petrificado que inaugurou o niilismo como forma de representação.
O resto são filmes e histórias, Faulkner, Hawks e Bacall que Bogart, St. Bogart, agora nos contará pessoalmente no recato deste cemitério.

Manuel S. Fonseca

Adaptação de texto que escrevi em 1985, para ciclo da Cinemateca Portuguesa sobre Bogart. 

 

O dedo no Phantom

O Herói é o nome de guerra de um “quase-autor” do É Tudo Gente Morta. Quase autor, quase nómada, tem colaboração bissexta, que eu acolho e, mero intermediário, publico com o maior gosto na minha campa privativa. É meu kamba, meu amigo, e há tão poucos.

 

O dedo no Phantom
Um post do Herói

E eu ia dizer que não a um Cadillac Ride & Drive? Fui lá depois de sair do consulado da fraternité. Os franceses, é sempre outra conversa. Fala-se do que se quer e, no fim, só se falou de cultura. Abençoados attachés.
Já percebeste, meu, que me apanhaste na tua L.A. Saí de Santa Monica e o gps levou-me ao Groove. “Esqueça a snobeira, lá é que é”, disse-me o attaché, a pensar que eu queria o que ele estava a pensar. Quando cheguei, vi que era verdade. Um gado novo. Não te vou dizer fresco porque aqui, ainda estão na catequese e já coalharam (as merdas que eu aprendi convosco, meu).
Fui ao que fui sem saber ao que ia. Queria um test drive da Cadillac a lembrar-me do espada do velho Pinto. No meio do buzz mordeu-me o sotaque patrício*. O brother andava sem pisar, contente e senhor de si. Meti conversa e eram dois lá da banda mais garinas** locais.  
O que é que vocês estão a fazer aqui e komé k é? Ah, eu lá moro em alvalade e os meus kotas…*** Em breve síntese, como diria o redundante Gebo, nosso prof de língua pátria, os ndengues**** estão cá a estudar e têm pais ministros – vá lá, da nomenklatura amiga e democrática. Como me viram amancebado com o Cadillac, gabaram-se: meu, vou mostrar-te o que é um bom mambo*****. Desceram-me até ao parking e enfiaram o ticket na boca do valet. Três minutos depois caíram-me os queixos. O caxico***** aparece com um Phantom, meu. Como a tua ignorância na matéria é lendária, explico-te: são quinhentos mil dólares de carro. Um brinquedo feito pela Rolls Royce, com motor V povoado por 12 cilindros e 48 válvulas. Phantom Drophead Coupé em mãos pouco mais do que adolescentes.
Estes putos estão a formar o espírito para servir a terra que os heróis libertaram das algemas******. Estranhei-lhes a contradição. Estranharam-me a estranheza. “Komé, temos que representar a pátria, é o nível, não vamos dar uma de subserviência.” Sabem falar, meu, e eu subservi logo: em 5 segundos já batíamos as 60 milhas. Só para cheirar, que em L.A. não se brinca. “Mama 25 aos 100, guio-o com um dedo e rasga como um Porsche”.
Não duvidei: um dedo para o Phantom, a mão inteira para segurar a terra amada que me viu nascer.

Glossário
da lavra do esquecido Manuel S. Fonseca
 

*Patrício – designa reconhecimento e pertença entre angolanos negros
** Garina – jovem de sexo feminino
*** Kotas – Mais velhos, pais
****Ndengues – mais novos, crianças
****Ter um bom mambo – ter alguma coisa de valor
*****Caxico – criado, tratamento depreciativo
******Os heróis quebraram as algemas – verso do hino do 4 de Fevereiro, data simbólica do início da luta de libertação de Angola

A outra infância #3



A amiba sorridente…


Humpf!…

Humpf, sim!…
E tanto humpf porquê?!, perguntar-me-ão.
Simplesmente porque toda a minha primeira vida foi um conjunto sórdido de não-actos e, como tal, não teve direito a registos documentais de gabarito – bem ao contrário do que se passou com o esfusiante e radiofónico MSF ou com a convincente e empenhadíssima Eugénia da Sardenha e Duas Sicílias.
Eu era um abrolho. Olhe-se para aquele sorrisinho de amiba sonolenta, os ombros descaídos (mas aqueles ombros, Mon Dieu!)… Um horror.
Tenho, isso sim, uma foto interessante da minha Comunhão Solene – que pensava fazer interagir para este requisito tão específico do ETGM.
Cedo piei!
Que não, porque agora vai haver também performativos comungantes escarrapachados neste nosso cemitério, mais dia, menos dia. Bem, é costume dizer-se que a vingança se serve fria. Lá terei de esperar, aguentando para já estoicamente os dichotes e zombarias da turba multa que o documento acima fazem prever. E com toda a razão, repito.
Foi um momento estranho, este. Sei que estava na Piscina da Granja, pois nos anos 50 só lá vendiam sorvetes de copinho e eu tenho a respectiva colherinha na mão. Recortaram-me do fundo sem qualquer explicação plausível.
Mas o que sei desses tempos é que – dizia-me a minha Mãe aos 16 anos – «eras amoroso» (I&%$¥§≠ώЏжΣ&YT, e mais GXXXXX!!!!)…
Sei bem porque era amoroso: não mexia uma palha, sempre com aquele sorrisinho parvo. Os meus pais, que jogavam bridge em casa dos amigos granjolas, nunca tinham problemas comigo: bastava darem-me uma caixa de fósforos para as mãos e eu, pacientemente, tirava-os todos da caixa, um a um, para depois tornar a metê-los lá dentro segundo o mesmo método. Estava nisto horas e nem sequer um incêndio ateei!
Um protozoário…
Um dia, enfim, tudo mudou. Aos oito anos.
Havia um jantar lá em casa, várias pessoas convidadas, os meus irmãos tinham vindo de Lisboa, onde estudavam, e eu iria ter lugar à mesa junto dos mais velhos. Contavam-se anedotas aos berros, como de costume, e estava tudo muito divertido, como de costume.
Então eu disse que também tinha uma anedota para contar…
Acharam imensa graça que eu, o trambolho silencioso e emimesmado, tivesse (ou sequer soubesse!) uma piada. O que aquela gente se riu desse simples facto…
Incitaram-me imenso, «ora conte lá a sua anedota, que querido!…». Assim acicatado eu fui-me em frente com a prosa – que era um dos vários cúmulos que povoavam o anedotário do século. Comecei por perguntar à amável e condescendente plateia, com a vozinha prenhe da inocência que se aceita num catraio daquela idade:
Sabem qual é o cúmulo do azar?… Depois do «não» genérico (ignorantes!) lá continuei na minha pedagógica missão:
É ser filho da Brigitte Bardot e mamar por biberon!…
Foi um sucesso enorme! Bem à medida dos urros do espanto e da repreensão logo ali instalados, e dos risinhos parvos das minhas duas irmãs e da minha Alice. E à época eu nem fazia a mais pequena ideia da existência do tremendo Sigmund! Veja-se lá bem…
Com isto passei a contar com a censura prévia do meu irmão Zé Maria, que me ouvia em confissão sempre que eu declarava publicamente a existência de nova piada em stock. Algumas passavam, outras não.
Vivíamos a Ditadura, era o que era…
Pouco tempo depois (concretamente a seguir à Primeira Comunhão) ingressei no restrito grupo dos terroristas da Granja, assim crismado pelo interessante conjunto de patifarias que conseguia produzir num único dia. E três anos mais tarde, ainda que sob identidade alternativa devido à pouca idade acumulada, ascendi ao já mediático grupo dos teddy boys da Granja, com direito a pelo menos duas primeiras páginas no velho Jornal de Notícias (que ao tempo era ainda mais pateta do que é hoje) e um rol de desacatos em carteira verdadeiramente impressionante.
Vinguei-me, pois, dessa foto, e da imagem deformada que ela de mim fazia.
& toclas.

 

Ela sim, era bonita


Ludopédico leonino — mais uma grande noite europeia # 1

prostrai-vos!

Cruz na porta da tabacaria!

Às 18H estava sentado à secretária, laborando em prol do share holder e nem me lembrei. Na verdade – declinemos as liberdades poéticas – lembrei-me, mas não quis saber. De propósito: eles que dessem pela minha falta.

Quem morreu? O próprio Alves? Dou

Quando saí ao fim do dia, o segurança estava ostensivamente de costas para o televisor pendurado na parede. Revendo agora a pose, consigo esmiuçar a mensagem que o instinto me enviou: se o homem, que é um daqueles usuais benfiquistas azedos, perpetuamente de mal com o universo, virava as espaldas ao jogo é porque tinha comichões. Olhei para cima e lá estava: em letra miudinha, muito discreto ao canto da pantalha – zero-um. Olha! pensei. E saí.

Ao diabo o bem-estar que trazia

A caminho de casa o relato radialista exaltava uma épica batalha em relvados hamletianos – o habitual. De repente (mais tarde percebi que foi uma improvável parabólica de 30 metros), zero-dois. O próprio e emérito Pedro Gomes balbuciou umas evidências que acabara de não ver segundos antes, para disfarçar a surpresa que lhe acometeu.
Aqui deram-me uns nervos; aqueles bandalhos aproveitaram à traição a minha paz de espírito e pela surra punham-se a jogar com decência? Ai era assim? Então, só para enervá-los, fui a correr para casa ver a segunda metade da segunda parte.

Desde ontem a cidade mudou

Mas os marotos são espertos. Quandodei um salto à cozinha a buscar os pistacios do prolongamento, o sonso do Djaló roçou com a luva do pé no esférico e ei-lo, qual mero coralífero, flutuando rumo ao precipício das redes.
Vitória! Vitória! Vitória! Eu não vos disse sempre que?