
Félix Nadar. Victor Hugo sur son lit de mort, 1885.
Quando eu morrer, deixem que a barba me cresça.Deixem que o meu cabelo se revolte de tão branco. Deixem-me dormir um sossego muito morto, na escuridão em contraluz de um colchão de penas. Quando eu morrer, vistam-me de algodão ou linho e sonhem-me, lá onde os sais de prata já as não alcançam, as mãos confusas de veias azuis. Fechem a janela devagarinho para não espantar a lua e peçam a Nadar que me fotografe. Não respires. Já está.

















Pedro, não sei se já uma vez aqui o contei. Seja como for lembro-o agora a propósito dos teus caprichos póstumos.… Uma tia do meu avô materno mandou fazer um caixão com uma particularidade muito especial: nele ficaria depositada de lado. A razão — segundo contava — era porque assim, quando acordasse, no dia do derradeiro juízo, no jazigo onde seria enterrada em frente de seus pais, seriam justamente eles quem antes de qualquer outra coisa voltaria a ver. O meu avô, já se sabe, costumava assombrar esta sua fantasia aventando a hipótese de, por engano ou inadvertência, a virem a colocar, no fatídico dia, voltada para a parede. Confesso que não sei para que lado acabou por ficar voltada, mas lá que foi de lado parece que foi.
ficas já a saber, caro Gonçalo, para o caso de eu me esquecer: eu fico de barriga para cima que é como costumo dormir. Entretanto, vou postar mais destes póstumos caprichos. Morto, por morto, que fique confortável.
Boa noite a todos.a maior parte não me conhece, no entanto não resisti a este tema e a este texto.Que confortável é, ler em vida — ” a dormir ou descansar de barriga para cima ” — coisas tão suaves e mesmo sedutoras.