Um final feliz


Foi a sua primeira aparição pública depois do recolhimento a que a última morte a obrigou. Sabia que o luto tinha de ser ainda mais carregado do que das outras vezes. A sua condição de cortesã de luxo, só por si, já era motivo suficiente para que todos os olhos se concentrassem nela. Mais do que nunca, tinha de se resguardar do falatório. Esconder bem as suas formas, que elas, as mulheres deles, diziam ser obra do demónio, e eles, os anciãos endinheirados da cidade, viam como a mais perfeita manifestação da existência de Deus na Terra. Ou, no mínimo atribuíam à intervenção, divina também, daquele santo patrono da virilidade masculina que ninguém alguma vez ouvira falar antes daquelas suas formas irromperam com toda a sensualidade no S. Carlos. Segundo lhe constou, era isso que os defuntos diziam à boca cheia — antes de se finarem na cama dela em manobras inverosímeis — a todos os que, como eles, já não tinham idade para aquilo. Num espaço de três anos, sete respeitáveis frequentadores do Teatro foram-se, uns a seguir aos outros, a poucos anos de completarem oito décadas de uma vida de fortuna abundante. Para calar as más línguas, bastar-lhe-ia dizer que tinha uma missão divina: a de fazer morrer os homens da forma que qualquer um gostaria de morrer se pudesse escolher como morrer. A prova disso era o indisfarçável esgar de felicidade estampado na cara, com que os cadáveres foram encontrados na cama dela. Já para não falar na protuberância que as respectivas partes baixas exibiam ainda garbosamente, e para as quais a ciência médica não encontrara explicação que não fosse atribuível a Deus. E nada de mais injusto do que lhe atirarem à cara que tinha ficado com tudo o que aos defuntos pertencia. Bem sabe ela que não há herança que pague o que não tem preço suficientemente elevado, isso de fazer coincidir a morte com a suprema explosão de felicidade que não se alcançou em toda uma vida.

Apesar dos protestos das mulheres e familiares dos defuntos, estava ciente que a sua reputação  crescia a cada morte feliz. E que prazer tinha em escolher, de entre as dezenas de olhares masculinos enrugados que sobre ela recaíam no Teatro, o próximo a ser tocado pelo seu dom.

Comentários a “Um final feliz” (12)

  1. Hmmm… parece-me que esse Teatro se chama Ministério das Finanças, e esta senhora tem lábios grossos. bfds

  2. Orcama diz:

    Com licença da transatlântica Luciana, que gosta de citar Vinicius — e eu também — com primazia minha, que sou mais velho, atrevo-me a dizer, citando do “Soneto do amor total”:

    “(…)
    E de te amar assim, muito e amiúde
    É que um dia em teu corpo de repente
    Hei de morrer de amar mais do que pude.“

    Não há maneira mais gloriosa de morrer, atrevo-me eu a dizer…
    Fulminado no fragôr da dura mas gloriosa batalha…

    E tudo isto ao som da cavalgada das Valquírias…

    Obrigado a Diogo Leote que no-la trouxe… A viúva negra…

    • Luciana diz:

      Orcama, eu só passeava pelo cemitério, a alma calada, mas tive que parar ao me deparar com o Soneto do Amor Total. Que bom encontrá-los (o Soneto e você).

  3. Turmalina diz:

    Mr. Orcama, vez ou outra sofro de surtos de racionalidade e daí que, não querendo desfazer da sua citação, imagino que para a mulher deva ser um verdadeiro horror um homem morrer no ápice do amor, no auge da batalha.Acho que nem sendo uma Viúva negra e ao som das Valquírias. Fico imaginando o instante seguinte, aquele corpo ainda morno e inerte.Para o homem o problema acaba alí, mas para a mulher não. Fui chata agora, não é? Prometo abstrair melhor na próxima.

  4. Orcama diz:

    Claro que não foi chata, cara Turmalina, até porque hoje é sábado…
    Aliás, o que me traz e me mantém por este blog é o gosto pelo debate e pela boa polémica. Comentários de gostar e de gostei que gostasse, não fazem o meu pleno.
    Aqui, estamos no domínio da ficção, da poesia, da metáfora, dos sentidos, da exacerbação, enfim, do exagero.
    Se passarmos para o racional, serei tentado a concordar consigo — acabar com um peso morto em cima de nós — seria desagradabilíssimo em semelhantes circunstâncias.
    De todo o modo, a escrita é toda do Poeta, eu sou apenas o fiel citador! ;-)))
    Talvez o Autor do post nos queira desvendar o modo como se foram passando os finados, nas manobras inverosímeis citadas, esses anciãos — sublinho — endinheirados…

    • Turmalina diz:

      Obrigada Mr. Orcama. Tem dias em que gosto de poesia e muito de Vinicius. Tem dias que gosto somente de gostar porque estou com preguiça de pensar e deixo somente o sentir.
      Mas acho mesmo que costumo ser exagerada sempre, até mesmo quando a razão está no comando ;o)
      E parece que os anciãos endinheirados caíram também no canto do querido poeta:

      “Quem já passou por essa vida e não viveu
      Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
      Porque a vida só se dá pra quem se deu
      Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
      Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
      Nao há mal pior do que a descrença
      Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
      Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
      Pra que somar se a gente pode dividir
      Eu francamente já não quero nem saber
      De quem não vai porque tem medo de sofrer
      Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão”

      http://www.youtube.com/watch?v=TaLnz0SUxe8&feature=player_embedded#!

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Àh, Turmalina!… Mas a mulher é mercenária, tira prazer do seu poder e ganha muito com isso…
    O peso morto é só mais um número para o seu (dela, claro!) curriculum.

    • Turmalina diz:

      Ah, sim…Benedito…isso eu entendi, mas fiquei aqui pensando que para qualquer outra mulher “normal” seria muito desagradável o tal peso morto, apesar das palavras de Vinicius.Só mesmo sendo uma assassina fria e calculista.

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Gostei, Diogo, desta sua tão profana quanto eficaz Senhora do Bonfim (ou da Boa Morte, tanto faz).

    A dar-nos seriamente que pensar. Na natureza afinal também feminina da divindade, que do seu texto enviesadamente parece ressaltar (embora o argumento seja reversível .…). Mas, sobretudo, no real teor das preces de muitos mortais para o seu último instante de vida terrena …

  7. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Diogo, Diogo, Diogo: estou pasma consigo e com a candura tão feliz que imprimiu à perversidade. Você é pior do que eu o tinha pensado.

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