Sweet dreams (are made of this)

Tauba Auerbach, “Yes No Morph 1″, 2007

O livro “A Jornada de Cristóvão Távora Terceira e Última Parte” (Lx, Presença, 1990) de João Miguel Fernandes Jorge inclui um Posfácio de Joaquim Manuel Magalhães que tenho como um dos mais notáveis ensaios sobre poesia (e literatura) do séc. XX:
“(…) A construção não visa um efeito de linearidade ou de discursividade meramente narrativa (…) mas têm um valor narrativo de espécie diferente bastante intenso; mas têm um valor referencial muito firme, ainda que não se preocupando com o nexo clarificado entre aquilo que designam. Querem apenas colocar diante de nós objectos vocabulares com capacidades evocadoras. (…) A acumulação assim causada, perseguida e sabotada pode talvez ser inteligível de um modo inicial através de todas estas palavras pouco capazes de explicar. (…) O leitor é que sabe. Eu não sabia. Concerteza perdi tempo demais com a insistência racional.”

E se estas palavras tivessem ressoado, lá ao longe, numa vaga memória do nexo que elas causaram, a meio da escrita de um texto que começou por se ir experimentando escrevendo?
E se a recordação da Tia Tula de Unamuno tivesse sobressaltado a memória aquando da descrição dos comportamentos daquelas mulheres?
E se, então, a mulher seca e dominadora de Unamuno que tanto impressionou a puberdade deste leitor, se tivesse convertido na sombra da personagem que ao ser construída, começasse assim a fazer um pouco de sentido?
E se Ramiro tivesse, ao mesmo tempo, surgido como nome eufónico e, já agora, como a vingança do pobre Ramiro subjugado e desorientado pela Tia Tula na novela do bilbaíno de Salamanca?
E se Emília fosse um erro por ter julgado, no instante em que foi grafado esse nome, que a Bovary era Emília e não Emma?
E se a mulher de negro só tivesse sido batizada no fim de tudo escrito?
E se o final fosse este porque a ideia de um segredo era a que melhor calhava numa descrição de gente que vive em conspirações e tramas constantes?
E se tudo isto emergisse assim porque sim, ou seja, porque pareceu que assim ficava melhor, ou seja, mais justo e ajustado?
E se, ao fim e ao cabo, de tanta explicação com ratificadora citação e tudo, as coisas fossem tão simples quanto o Diogo Leote revela?
Quer dizer: também não sei –  não escondi nada, só escrevi.

 

PS — Obrigado Joana — deep from the bottom of the heart

Comentários a “Sweet dreams (are made of this)” (2)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Who am I to disagree, Zé, ainda que por outras razões? Que maravilha este seu texto — citação e tudo — e, as always, o fantástico quadro (adorei o jogo de palavras e as cores, todas as que eu gosto!). A culminar o imenso gozo que foi ler a sua história e ficar a congeminar naquele enredo e a remoer explicações. E, claro, o irresistível impulso de — finalmente, ao fim de décadas de sempre apressadas e desinteressadas passagens por aquela zona da estante — ler A Tia Tula. Comecei na mira de descobrir pistas — que lá não estavam — e acabei fascinada e menos pouco lida. Ou seja, eu é que agradeço, for a whole lotta fun!

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Gostei muito de todos esses «ses» — eles é que fazem sentido.
    A escrita é uma ferramenta de impressão, mais do que de imersão — esta eventualmente surge na sequência da primeira.
    O sentido da narrativa permite encerrar a dita com alguma elegância.

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