
por Luciana Nepomuceno
Desejo. Ela sabe. A boca mais seca, a carne mais quente, o sangue mais acelerado no pulso. O corpo inclina-se um pouco mais, as mãos crispam-se no leque, latejam os ouvidos. Ela sente, ela sabe: desejo. Os olhos estreitam-se à procura, ao encontro já daquele corpo que aprisiona sua imaginação há dias. É só por isso que sai de casa: para vê-lo em movimento, o corpo que a atormenta. Óperas, saraus, chás, não há descanso nem recolhimento. Ela arde. Cobrir de negro seu próprio corpo, amortalhar a alma, de nada lhe valem, ela sente, ela sabe: desejo. Sabe da ansiedade e da rispidez com que passará a agir com os mais próximos, sabe da amargura no canto da boca, sabe da noite vazia e do corpo em apelo. Sabe dos gemidos que serão sempre de não. Mas insiste, os olhos insistem, vorazes; o ventre insiste, faminto; desejo. Estreita os olhos: ela advinha os risos e as conversas no balcão que espreita. Mais um pouco, mais um pouco, é quase uma prece, ela repete, mais um pouco, curve-se mais um pouco, tanta cor na roupa, tanta graça no movimento, ela vê o colo, ela antecipa os seios, ah, sua própria carne em espasmo, aquela pele, que gosto terá? Em ríspido movimento, desvia o olhar, inútil renúncia, não há atalhos para o desejo.

















Luciana!!!
Da primeira leitura, apressada de tão curiosa, retive que a pobre da mulher de negro estava realmente em ânsias! Na segunda causou-me alguma estranheza, confesso, a frequência de chás em tão ardente demanda … mas durou só mais meia dúzia de linhas … Liiiiindo! Melhor dizendo, liiiiiinda!!!
Joana, a pobre da mulher se impôs de tal forma que eu pelejei pra escrever outra estória e essa sempre que vinha. Incomodou-me como seu desejo incomodava-a. Mas você gostou, é paga o bastante…
É… chamaria a esta prosa de frase curta e directa, ideia precisa e ritmo sincopado, de que tanto gosto, o fogo na fala…
Enquanto fico aqui a congeminar sobre o que mais dizer, ou fazer — entre desejos e ânsias — lembrei-me deste poema:
Desejo Indomável
Como corre a gazela
pela sombra dos bosques,
enlouquecida pelo próprio perfume,
assim corro eu, enlouquecida,
nesta noite do coração de maio
aquecida pela brisa do Sul.
Perdi o caminho
e erro ao acaso.
Quero o que não tenho,
e tenho o que não quero.
A imagem do meu próprio desejo
sai do meu coração
e, dançando diante de mim,
cintila uma e outra vez,
subitamente.
Quero agarrá-la, mas escapa-se.
E, já longe, chama-me outra vez
do atalho …
Quero o que não tenho
e tenho o que não quero.
Rabindranath Tagore, in “O Coração da Primavera”
Orcama,
emudeci. Mesmo. Demorei-me a pensar se o que mais me roubou a voz foram as suas palavras ou a incrível poesia que trouxeste. Terei que dizer como o Vinícius e seu Desespero da Piedade:
Senhor, tende piedade das mulheres (…)
que são crianças e são trágicas e são belas
que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
e que tem a única emoção da vida nelas.
Claro, tem mais sentido conhecendo toda… http://www.youtube.com/watch?v=yYeIEKCmIZg
Gosto muito, muito, que tenhas gostado. Gosto mais da estorinha sabendo disso.
“E se a piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!”
Orcama,
se você não tem ainda:
http://www.scribd.com/doc/7224374/Vinicius-de-Moraes-Livro-de-Sonetos
Entre outros: Soneto do corifeu
São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.
Obrigado Luciana,
Este “Corifeu” reacendeu-me o desejo de ler algo mais sobre Moraes.
De facto o meu conhecimento dele é apenas de antologias. A da portuguesa dom Quixote e a da brasileira Sabiá, ambas de 1969. Foi por volta desse ano que aconteceu um famoso serão em casa de Amália Rodrigues, com a presença dele e muita poesia e fados à mistura, de que existe edição discográfica, com gravação ao vivo.
Aqui lhe deixo um registo dessa noite memorável, na voz de Amália, a pedido de Vinicius:
http://www.youtube.com/watch?v=Z7-BFdvZDGs
Orcama,
uma das memórias que tenho de mim é que queria ser uma mulher do Vinícius. Uma das, no tempo que fosse. Claro está que quando tive idade ele já estava morto. Mas o que importa? É meu preferido, não saberia dizer se cronista, poeta ou compositor. Meu preferido, apenas.
Obrigada, então, pelo registro da memorável noite. Eu penso, mesmo, que seria difícil uma mulher recusar um pedido dele, fosse qual fosse.
Gostei da sua poética confissão. Isto já é prosa adulta, de tertúlia.
Não teremos mais maneira de saber que pedidos terá ele feito à anfitriã, e a quais ela terá acedido…
Parabéns Luciana: conseguiu fazer de uma viúva negra, onde não imaginaria o mais leve frémito de desejo, a mulher mais sensual da sociedade da época…
Chamas insuspeitas, Diogo, mas sempre ardem. Que bom que gostou…mas gostará mais dos cromos, já sei.
Há mais de 10 anos escrevi isto numa espécie de conto. Está sem contexto mas o inner moment da senhora lembrou-me esta frase:
«(…) uma teia voraz de heras e “morning glory”, de incontáveis campainhas azuis, entrançada e enredada como um amor feroz e infeliz».
Não há dúvidas que este quadro reuniu até agora consensos no que respeita ao estado emocional da sua figura central.
Sintético, violento, bom.
Parabéns, Luciana!
Precisas palavras, Antonio: feroz e infeliz. Quanto ao seu parabéns, agrada-me agradar, já que sempre encontro tanto motivo de satisfação aqui…
Luciana…com a intensidade do seu texto eu estava quase vendo a hora em que a protagonista iria despencar do balcão, era só inclinar-se um bocadinho mais :o)
Turmalina, o desejo é um pouco como contemplar o abismo, não acha? E há sempre a vertigem…
Ôh…rsss.…
Turmalina e Luciana, o que eu gosto do tão vosso “despencar”! Se há casos em que é mesmo apropriado, este é decerto um deles! :)
Joana, que escolha adorável de palavra. Sim, despencar é extremamente apropriado (embora um pouco doloroso, às vezes).
Luciana: clap, clap, clap! (isto é um coro de palmas). Gostei muito. Tem de vir mais vezes para o lado dos mortos deste cemitério. Com este talento não pode ser só assaltar as campas pela calada da noite!
Pedro, ficaria totalmente desvanecida de prazer com seus aplausos e palavras se tivesse uma vaga idéia do que é campas. Como não sei, fico parcialmente entontecida…E, para que conste, tantas vezes for convidada, tantas vezes compareço, gosto muito da companhia.
(Aliás, a bem da verdade, venho até sem convite, o tal alvoroçamento dos que habitam tão pertinho da Linha do Equador…)
Luciana, campas são os jazigos, os túmulos :o)
Vai alta a Lua
Na mansão da Morte,
A meia noite
Devagar soou…
BUUUUUUU!!!!
Saiu da campa, Benedito???…rssss.…
Isto, Turmalina, é uma coisa peganhentíssima do romantismo português do sec XIX. Parece um ‘gótico’ de agora. Chama-se o Noivado do Sepulcro e é dum senhor chastíssimo chamado Soares dos Passos.
Eu diria que aqui a quadrinha pertenceria ao Zé do Caixão (Mojica)
Cara Turmalina,
Aqui fica o link para o poema de Soares de Passos (1826−1860). Vai-se a ver e, se calhar, até foi colega de Gonçalves Dias (1823−1864) em Coimbra. E, vejo em Fagundes Varela (1841−1875) algumas reminiscências do poeta portuense, por exemplo, no Cântico de Calvário.
http://literaline.blogspot.com/2008/10/o-noivado-do-sepulcro-de-soares-de.html
Canceriana que sou não posso ficar alheia ao romantismo, seja ele português ou brasileiro.O cântico do Calvário eu li ainda na escola e acho-o mais triste hoje pois só agora compreendo como deve ser difícil para um pai perder um filho.No caso de Varela, dois.
Gostei do noivado do Sepulcro, gosto de pensar em amores assim. Merci, Mr. Orcama!
Dizem que o poema de Vinicius “Balanço do filho morto”, na sua segunda parte, teve influências do Cântico do Calvário de F. Varela.
http://www.viniciusdemoraes.com.br/poesia/sec_poesia_view.php?busca=Balan%E7o%20do%20filho%20morto&acao=buscar&id=171&id_tipo=1&back_page=1
Muito bom: tenso, direto ao núcleo, ambíguo.
Obrigada, Zé, sei que não é chic esperar comentários, mas estava sentindo falta da sua opinião…