- Se tivesse sido atingido pela tormenta surda da orfandade, gostava de ter Johnny como irmão mais velho. Johnny (Paddy Considine) é o Pai Coragem de “In America” de Jim Sheridan, e respira debaixo de água para que a frágil jangada onde estão a mulher, Sarah, e as filhas, Christy e Ariel, não afunde de desídia.
- Cada vez que tivesse dúvidas sobre as matérias claras da integridade, gostaria de ter Frank Serpico como irmão do meio. Serpico (Al Pacino) é um fanático da integridade no filme de Sidney Lumet que lhe transporta o nome, e por ela sacrifica emprego, amor e todos os rastos de futuro. De tanto renunciar a diluir-se na corrupção endémica da NYPD, é baleado por convite dos próprios colegas, que delatou. Mas Serpico está disposto a sofrer até às últimas consequências pelo que acredita — hoje, podemos dizer o mesmo de quem?
- Cada vez que me faltasse a coragem, gostaria de ter o capitão Leith como o irmão que vive no Sahara e nos manda as epístolas que guiam os cegos por entre as dunas. Leith (Richard Burton, apóstolo bebedor), anti-herói de “Bitter Victory”, o mais belo filme de Nicholas Ray no meu cine-teatro mental, sabe que vai morrer por causa da cobardia do seu superior, o Major David Brand (Curd Jurgens, viscoso como uma lesma dos canaviais). Em regresso de missão na Bengasi ocupada, Brand aperta Leith contra as paredes vítreas do deserto, espreme-o para que saia a tinta que o denuncia (a tinta das cartas que Leith escreveu a Jane, a mulher de Brand, por Leith apaixonada), duas vezes o lança contra a morte, mas Leith resiste — “I killed the living, and I saved the dead”, diz, depois de matar um soldado por misericórdia e de tentar resgatar outro que não resiste aos ferimentos — até que Brand o deixa à mercê de um escorpião, na apócrifa cumplicidade entre lagartixas e aracnídeos.
- Cada vez que me esquecesse da compaixão, gostaria de ter Kyle Hadley e Roger Schumann como irmãos mais novos. Ambos têm e terão o rosto de Robert Stack, o Homem Que se Desfaz aos Bocados. Ambos são filhos de uma natureza frágil , sobrinhos de um dinamarquês e enteados de um destino que nada de bom lhes trouxe. Kyle é um playboy alcoólico levado desde puto aos ombros por Mitch Wayne, um geólogo pobretanas (“Written on the Wind”). Conseguiu casar com a mulher de quem Mitch gosta — o sentimento é mútuo — e a irmã Marylee (Dorothy Malone, a Mulher dos Olhos Cansados) anda à caça de Mitch desde que começou a usar saias. Kyle é irmão gémeo de Roger, um às dos aviões, herói da Primeira Guerra algemado ao cockpit, que oferece a mulher em troca de mais vinte minutos no ar, cruzando os pilares que cobiçam os céus do Lousiana. Como Kyle, o Roger de “The Tarnished Angels” , o mais belo filme de Douglas Sirk no meu cine-teatro mental, precisa de ser salvo de si próprio, mas talvez esteja para além da salvação (Sirk filma o Mardi-Gras como o Antonioni de “A Noite” encena a festa de Gherardini, mas fá-lo em silêncio, quatro anos antes).
- Cada vez que me assaltasse o egoísmo (rouba-me de mim todos os dias), gostaria de ter Pat Conroy como o irmão que saiu cedo de casa e volta apenas pelo Natal, nas horas à mesa mais perfeitas de cada ano. Chamam-lhe “Conrack” no filme que traz o nome dele ao peito, é professor do ensino básico (os últimos heróis da era moderna?), branco como um copo de leite andaluz ‚e foi parar a uma aldeiazinha só de negros como o chocolate da Martinica, no delta de um riozito na Carolina do Sul. A administração da Buford School District acha que aquela aldeiazinha é um caso perdido: Ninguém sabe ler, ninguém lava os dentes, ninguém sabe nadar (ali, o rio não é um sulco de vida no relevo das geografias, é a Morte). Conrack — assim chamam a Conroy os miúdos com olhos de ontem e sorriso de amanhã — ensina as crianças do delta a ler, a lavar os dentes, a nadar. Mostra-lhes o que é um quadro, um filme, uma sinfonia. E amanhece.
- Cada vez que me falta a força de vontade, gostaria de ter Frank como aquele irmão nascido um ano depois, nem muito mais nem pouco menos, para saber o mesmo que nós. Frank “Spig” Wead é o papel estático de John Wayne avant la lettre — em “Wings of Eagles”, passa meses de barriga para baixo numa cama de hospital — mas a teimosia com que ultrapassa o acidente que quase o matara, arrancando-o das aterragens na piscina dos oficiais, dos beijos de despedida no alpendre, ao luar pêssego da Flórida, das bebedeiras mortais com os inimigos predilectos, transforma-o num modelo fraternal. É Ford.
- Cada vez que me desaparece o altruísmo (some-se todos os dias), gostaria de ter Josiah Doziah Gray — há nome mais de homem do que este? — como o irmão nascido muitos anos antes, o irmão que julgamos ser tio de visitas frequentes até percebermos que nos abraça como um segundo pai. Josiah Doziah tem o nariz de combate de Joel McCrea, e o seu garbo, e a sua altura, e um passo que nos faz andar atrás dele para beneficiarmos da brisa que corre na sua sombra. Em “Stars in My Crown” — o filme que Ford gostaria de ter feito se não tivesse feito “How Green Was My Valley” — Huw chama-se John, Roddy McDowall é Dean Stockwell e, como o delfim dos Morgan, o filho adoptivo dos Gray é olhos, coração e boca da vida que aí se conta. Como ele, vemos, sentimos e falamos de um padre que é pai e irmão da comunidade saída da Guerra Civil dos EUA: Josiah Doziah dá medicina aos médicos, luz aos mineiros, braços aos fazendeiros e tolerância aos linchadores.
A cena mais justa, justamente, do cinema clássico americano? Josiah Doziah, sob os archotes, a apagar o fogo nos homens do Ku Klux Klan.
O resto é de somenos importância.
No entanto, por respeito a Cleópatra VII (tão terna é a noite) e a seu marido, irmão caçula, à paixoneta de Calígula pela mana Drusila, aos desgraçados de Faulkner e Ellroy, ao ogre J. J. Unsecker, à soprano Jill Clayburgh de “La Luna”, à mamã Angela Lansbury, unhas na ardósia, em “The Manchurian Candidate”, à terna mãezinha Lea Massari de “Le Souffle au Coeur”, à Nastassja, sempre à Nastassja das ostras com o irmão-tigre McDowell, ao wild bunch de “La Caduta degli Dei”, aqui vai uma lista das meninas, todas actrizes, todas nossas contemporâneas, todas acima dos trinta (para não ser acusado de indecências vorazes) das quais, em nenhuma circunstância, poderia ser irmão.
Ficam, vestidas de branco Agosto, para os meus sete manos acima descritos, em singela homenagem à consanguinidade:
…E a mamã da qual, definitivamente, não poderia ser filho, Oedipus Rex, aleluia:
Sete noivas para sete irmãos.
























Young star Peter, grandes, justos, clássicos irmãos tão bem tratados no teu texto. Se escrevesses mais vezes, o ETGM era mesmo bom. E se as tuas “amigas” aparecessem mais por cá, já havia engarrafamentos à porta do cemitério e alguma convulsão nos melhores esquifes.
Não me importava nada, desejava mesmo muito, ser primo afastado delas todas e da mãmã…
Manuel “Suma-se já daqui” Fonseca, pire-se lá de férias (mas vá escrevendo) e deixe as primas comigo, que sou mais velho. Quando voltar — também não se demore muito — prometo apresentá-lo elogiosamente.
Desculpe, Pedro Marta Santos, estava apenas a sonhar… Também aplicou-nos um alucinogénio em dose séptupla!
Se algum dos escolhidos fosse meu irmão ia, pela certa, haver crime…