Onde todos os caminhos vão dar

É assim desde 1122, ano em que o Papa Calisto II proclamou Ano Santo Jacobeu (Ano Santo Xacobeo ou simplesmente Xacobeo, em galego), todo aquele em que a festa litúrgica de Santiago – a 25 de Julho – coincida com um domingo. Como neste ano de 2010.

Os Xacobeos sucedem-se segundo uma cadência regular de seis-cinco-seis-onze anos, por força da interferência dos anos bissextos: a não existirem estes, ocorreria um em cada sete años. O anterior foi em 2004 e o próximo será apenas em 2021.

O seu significado é, antes de mais e principalmente, religioso. Trata-se de um ano jubilar, período durante o qual a Igreja concede singulares graças espirituais aos seus fiéis que reúnam determinadas condições que, no caso do Xacobeo, são essencialmente a visita ao túmulo de Santiago e a participação nos sacramentos da reconciliação e da comunhão.

Nesse sentido, o início do Ano Santo é marcado pela abertura solene, na tarde de 31 de Dezembro antecedente, da Porta Santa da Catedral, situada na Plaza de la Quintana e pela qual se acede directamente à parte de trás do altar-mor, erigido sobre la Tumba del Apóstol. È por essa porta que durante o Xacobeo (e só nesse período) se faz a entrada dos peregrinos. São diariamente celebradas várias misas de peregrinos, sendo, em várias delas, lançado o Botafumeiro, o descomunal turíbulo de incenso, que nos tempos medievais perfumava e, segundo se cria, purificava o ar, pesado e quase irrespirável da Catedral, a abarrotar de peregrinos exaustos, sujos e, não raro, doentes. 

Mas Santiago, em geral, e o Xacobeo, em especial, têm também uma fortíssima componente histórica e cultural.  

O Caminho de Santiago, cujas rotas e símbolos – a começar pela própria vieira, usada pelos peregrinos para se identificarem e serem tratados como tais e para beber água, associada a antiquíssimos rituais de fertilidade –  resultaram, em larga medida, da assimilação de itinerarios e cultos pagãos, foi durante séculos um percurso e uma experiencia essencialmente religiosa. Na actualidade, e sem perder essa dimensão, tem vindo a ganhar várias outras — cultural e artística, de contacto com a natureza, de desafio  ou de percurso de crescimento espiritual, por via do despojamento material e do distanciamento de hábitos e rotinas do quotidiano que propicia. É percorrido a pé ou a cavalo, como outrora, mas também e crescentemente, de bicicleta — pelos chamados “ciclogrinos”. O chamado Caminho Francês foi proclamado pelo Conselho da Europa Primeiro Itinerário Cultural Europeu, em 1987. E tanto a parte española (em 1993), como a parte francesa do Caminho (em 1998) foram declaradas pela UNESCO como Património da Humanidade, pelo papel fundamental por este desempenhado no intercâmbio cultural entre a Península Ibérica e o resto da Europa durante a Idade Média e, bem assim, enquanto testemunho do poder e influencia da fé cristã entre pessoas de todas as clases e de todos os países na Europa medieval.  

Todas estas dimensões estão bem presentes na variada e abrangente programação de eventos de toda a ordem — 10 camiños para vivir Xacobeo 2010, que vão da espiritualidade à história e à contemporaneidade, passando pela música, a gastronomia, a reflexão, as artes cénicas, o audiovisual e o desporto, sem esquecer as crianças — e que abarca todo o ano, incidindo especialmente nos meses de Verão.

 

Comentários a “Onde todos os caminhos vão dar” (12)

  1. Teresa Teixeira Motta diz:

    Que belo texto! E a assinalar uma data tão importante! Depois de duas visitas, em 1999 e 2004, é impossível ficar indiferente perante uma experiência que é verdadeiramente única.
    Obrigada por ter aqui lembrado e assinalado esta data!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Obrigada Teresinha, ainda bem que gostou! Eu confesso Santiago é dos sítios que sempre me encanta, com ou sem Xacobeo! Toda a Galiza, aliás!

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Olá, Joana!
    muito bonito lembrar, sempre tão documentada, a grande rota da fé do noroeste peninsular.
    Gosto imenso da cidade e também já andei por trás do altar da catedral. É tipo passagem secreta, incrível.
    Agora se aquele botafumeiro se descontrola…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá António, fico contente por ter gostado! Eu também já fiz esse percurso todo na Catedral e, claro, gostei muito! Quanto ao Caminho, é um dos meus sonhos mais antigos. Por uma razão ou por outra, ainda não o fiz. Hei-de fazê-lo com as minhas filhas, espero que em breve — estou só à espera que a pequenina e as respectivas pernas cresçam mais um bocadinho …

  3. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Indulgências à parte, que é questão que me faz alguma confusão, estive lá em 2000. É um lugar extraordinário.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Absolutamente de acordo, Gonçalo. Quer quanto à maravilha que é Santiago, quer quanto à famigerada e tão propalada indulgência plenária… Creio que a graça que ali se possa alcançar não depende de ser ou não Xacobeo, nem de concessões dessa ordem, mas do que porventura se encontre ou reencontre e é nessa, e só nessa medida, que pode mudar a vida de cada um.

  4. jtavillez diz:

    Pelo sim, pelo não — gostava de lá ir este ano, Cega!Só fui lá uma vez, solteira, num passeio c pais e irmãos.
    Desde aí, uma indulgência seria benvinda!
    Bjns, cº sp gostei mt.

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Adivinhe, Joana, adivinhe, para onde é que eu vou quase já?! Sua Bruxa! Isto não é normal..

    • Joana Vasconcelos diz:

      Pois eu já cá estou: cheguei ao fim da tarde … e que bem que aqui se está!

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Não me diga que foi?!

        • Joana Vasconcelos diz:

          Vim, pois! Os dois posts foram puro entusiasmo de antecipação! Isto é sempre lindo e está uma animação total. Donde, e porque aqui estou já com uma hora de avanço, vou ver se durmo qualquer coisa, ou amanhã parecerei uma ciclogrina vinda dos confins da Europa e em muito, muito fraca forma …

          PS — A sério que vem? Mesmo? Quando?

          • Eugénia de Vasconcellos diz:

            Vou, de facto! Saio daqui na sexta e chegarei aí na sexta. Não idealmente como Sophia e Francisco, contados numa entrevista que moldou o meu entendimento amoroso no fim da adolescência, religião e ateísmo submetidos ambos à expressão humana mais elevada, desejo de deus ou arte, mas, assim mesmo, perfeitamente.

            Pensei deslargar-me, tentei efectivamente deslargar-me hoje para a malvada Paris onde me acontece de um tudo que me impede de a ver — nevões que fecham aeroportos e agências que devolvem o dinheiro sem mais.. céus, acredite se quiser: eu e o meu ex marido, noutra encarnação, estávamos de viagem marcada, colados já à L´Opéra, quando começou uma, vá, guerrazinha de nada só para contrariar.. são inacreditáveis histórias verídicas e desta vez mais uma.

            Até quando fica?

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