Onde tantos jazem — o meu cemitério preferido


Andreas Gursky, “Ocean II, c-print”, 2009–2010


No início do filme “The Thin Red Line”, ainda a caminho de Guadalcanal, há uma cena em que os soldados acorrem à amurada dos navios, a saudar o sobrevoo dos Mustang. Excitado e demasiado pendurado, um dos homens cai à água e logo outro grita o alarme, mas o seu camarada encolhe os ombros: o comboio de barcos não vai parar. E a câmara perdura sobre o pontinho cada vez mais insignificante à tona de água, sacudido pela esteira de espuma, enquanto o sol se põe.
Por um instante acomete-nos o pavor do abandono definitivo que é ficar sozinho no oceano apenas à espera da morte.
O mar é o cemitério mais absoluto que há.

Comentários a “Onde tantos jazem — o meu cemitério preferido” (11)

  1. Turmalina diz:

    Estou absolutamente de acordo.
    Quando morrer quero ser transmutada em cinzas e que alguém se lembre de me levar prô mar :o)

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Deus me livre. Quero que me enterrem ao lado do meu amor. Tanto me faz que seja numa campa rasa ou num jazigo. Mas gostava de uma sombra de árvore.

      • Turmalina diz:

        Que lindo, Eugénia!!! Que tal, então, as cinzas dos dois aos pés de uma árvore?

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Uma das árvores mais bonitas de quando eu era pequena, era onde a minha tia, e antes dela o pai, mandava enterrar os cães. Muito alto, verde e prata, dourado depois, ramos ascendentes: um plátano.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Terrivelmente verdadeiro, JNA. Por isso é que não gostava de morrer no mar. E lembro-me da minha mãe rezar, e me fazer rezar, oração de deus me livre dos perigos do mar, e deus proteja os homens que andam no mar, noite escura e terríveis e frias ondas.

  3. Joana Vasconcelos diz:

    Dito assim, JNA, será. Mas o problema não é o mar, é o abandono à morte. No mar, no deserto, no mato, num campo de batalha, tanto faz.

    Mas se de última morada falamos, a poder escolher, talvez o mar, como a Turmalina — belo, imenso e libertador.

    • Turmalina diz:

      Exatamente, Joana!
      Concordo com o pavor do abandono e penso que no mar ele seja terrível, uma vez que dependendo da distância que estivermos da terra firme, o horizonte é sempre azul e imenso. Quando pequena, depois de assistir Titanic pela primeira vez, fiquei noites pensando em como seria horrível morrer no mar e naquelas circunstâncias.
      Já quanto à última e definitiva morada eu tenho pavor de pensar que ficaria presa num buraco.Nem mesmo ao lado do grande amor.Prefiro a liberdade do mar ou do ar.
      Ah…e depois escreverei um texto sobre cemitérios que talvez explique porque é que me sinto bem e em paz dentro deles, muito é por causa do silêncio :o)

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Também me agrada a ideia das cinzas atiradas ao vento, do cimo duma escarpa, a mistura com os elementos.
    Gosto muito de mar, de temporais, da rebentação, das ondas, dos peixes, da areia. E das histórias de mar.

  5. Luciana diz:

    Quanse deve-se à hora e ao extremo cansaço, releve…

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