O que eu não ando a escrever

Não era este o post que tinha em mente. Queria escrever sobre uma certa Senhora Ministra. Em relação à qual sentia que devia uma justificação a alguns leitores e co-bloggers. Mas veio a minha consciência soprar-me ao ouvido que não era próprio. Que a sucessão de ditos infelizes é certamente imputável à falta de uma assessoria de imprensa capaz de filtrar o que passa cá para fora. Enfim, que tudo não passa de uma má fase e que a Senhora Ministra acabará levada em ombros (talvez numa produção fotográfica da Vogue francesa) por aqueles que ainda não reconhecem a sua irresistível beleza e capacidade de sedução. Que, num futuro não muito distante, será elogiada pela sua coragem em pôr em prática um processo de tomada de decisões que combina os critérios economicistas tão em voga com a mais perfeita forma de democracia que se conhece. Para quê governar como os seus colegas de governo, que perdem tempo e dinheiro em encomendar estudos de mercado, sondagens e inquéritos aos governados para saber como decidir? É ou não muito mais barato, fiável e eficiente iniciar o processo que leva à decisão pela decisão soi-même? Como é que ninguém percebeu que, se a decisão for manifestamente absurda, logo virá o meio em peso manifestar-se com estardalhaço para dizer como os senhores e as senhoras ministras devem decidir afinal? Nada mais simples do que revogar uma má decisão lançada como o barro à parede e substitui-la por outra que resulte da indignação das massas. E que genial é a ideia de perpetuar o exercício do poder pela eliminação, pura e simples, desse disparate a que alguns politólogos se lembraram um dia de chamar “responsabilidade política”. Se um treinador de futebol se pode escusar de responsabilidade pelos golos de baliza aberta que os seus jogadores falham, porque não os senhores ministros e ministras transferirem sempre a responsabilidade pelas tais más decisões para os seus directores-gerais? Sempre sem perder de vista, claro, a vox populi, porque manda o bom senso que, se o jogador — ainda que incompetente — é popular aos olhos das massas, deve o treinador evitar despedi-lo e esperar que ele, jogador, o faça, para depois fazer dele um vilão e festejar o acto com pompa e circunstância.

Mas, como dizia, bem ou mal veio a minha consciência alegar impedimento bastante para escolher o assunto como tema de post. Não estou sequer autorizado a postar uma imagem alusiva ao tema. E assim fiquei sem post. E a verdade é que não me ocorre mais nada para escrever.

Comentários a “O que eu não ando a escrever” (4)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Diogo, a consciência é uma coisa tramada.
    Belo não-post. Parabéns.

    • Diogo Leote diz:

      António, obrigado. Antes um não-post do que um silêncio ensurdecedor. E reconforta-me, neste caso, saber que quem dá também pode tirar, sem ferir a consciência.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Diogo, lembrei-me mais que uma vez nos últimos dias desse seu post que linka de início, já tão remoto. Ainda hoje de manhã, numa conversa com um colega e amigo sobre justamente estas questões, nos intervalos dos árduos labores próprios desta época, em que juntos andamos metidos. Ficámos de a continuar amanhã, nas mesmas circunstâncias. Mas vamos começar, e muito bem, por este seu não post. Gostei muito.

  3. Diogo Leote diz:

    Joana, folgo em saber que um não post pode ser tema de conversa. E, dado que os ditos (e feitos) em causa se têm sucedido a um ritmo diário, pode ser que a conversa seja apimentada com novos episódios e, quem sabe, até dê lugar a um (“sim”) post sem problemas de consciência a atormentar…

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