O Mau Olhado

Gostava de olhar-lhe a alma. Assombrosamente vazia, preta de tão só. Gostava de espreitar-lhe as entranhas, as vísceras, as artérias e as saudades que lhe ensombreciam a bílis. Gostava de perscrutar cada defeito, cada orifício ácido de desamor, cada metastase da enorme tristeza que o carcomia. Gostava de ver como quem palpa, cada resquício de remorso, cada traço de angústia. Comprazia-se em aumentar-lhe a dor, revelando, amplificando, agigantando até a um operático absurdo, os pavores, os medos, os traumas, os fantasmas azuis que lhe pintavam o cérebro de avesso. Gostava de se saber senhora daquele destino afogado nos fluídos espessos do passado. Passado que era presente e seria futuro enquanto pudesse vestir-se de luto e armar-se daquele óculo de uma crueldade muito sua que lhe vingava o despeito de mulher trocada.

Haveria de sentir-lhe o olhar, negro, gélido, dilacerante, telescópico, até ao fim dos seus dias.

Comentários a “O Mau Olhado” (4)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Mau mesmo! Para o seu desgraçado destinatário, mas, sobretudo para a também desgraçada criatura de negro, que dele se não livrará nunca … nem com lentes espelhadas nos binóculos!

  2. Turmalina diz:

    Amei Amei!Amei!
    Gostei principalmente das primeiras 5 frases.Gostei da força e da profundidade.Gostei da forma como fez das palavras um punhal.

  3. José Navarro de Andrade diz:

    Ou de como a impiedade pode ser tão aguçada. Incomodou-me — é um elogio.

  4. Orcama diz:

    Éhh… E os sempre presentes “Lemaire nacré-gris”…
    Dizia o escritor de policiais Peter Cheney:
    “Não há pior fúria no inferno, que a fúria de uma mulher despeitada.”…
    Eu acredito — piamente — que sim!…

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