
Gostava de olhar-lhe a alma. Assombrosamente vazia, preta de tão só. Gostava de espreitar-lhe as entranhas, as vísceras, as artérias e as saudades que lhe ensombreciam a bílis. Gostava de perscrutar cada defeito, cada orifício ácido de desamor, cada metastase da enorme tristeza que o carcomia. Gostava de ver como quem palpa, cada resquício de remorso, cada traço de angústia. Comprazia-se em aumentar-lhe a dor, revelando, amplificando, agigantando até a um operático absurdo, os pavores, os medos, os traumas, os fantasmas azuis que lhe pintavam o cérebro de avesso. Gostava de se saber senhora daquele destino afogado nos fluídos espessos do passado. Passado que era presente e seria futuro enquanto pudesse vestir-se de luto e armar-se daquele óculo de uma crueldade muito sua que lhe vingava o despeito de mulher trocada.
Haveria de sentir-lhe o olhar, negro, gélido, dilacerante, telescópico, até ao fim dos seus dias.

















Mau mesmo! Para o seu desgraçado destinatário, mas, sobretudo para a também desgraçada criatura de negro, que dele se não livrará nunca … nem com lentes espelhadas nos binóculos!
Amei Amei!Amei!
Gostei principalmente das primeiras 5 frases.Gostei da força e da profundidade.Gostei da forma como fez das palavras um punhal.
Ou de como a impiedade pode ser tão aguçada. Incomodou-me — é um elogio.
Éhh… E os sempre presentes “Lemaire nacré-gris”…
Dizia o escritor de policiais Peter Cheney:
“Não há pior fúria no inferno, que a fúria de uma mulher despeitada.”…
Eu acredito — piamente — que sim!…