O futuro está sempre no passado

Saí esta semana do meu patético eremitismo para ir ver dois filmes: “O Escritor Fantasma”, de Roman sweet thirteen Polanski, e “A Origem”, de Christopher Nolan.

Regressei contente da gruta de algodão doce situada no sétimo círculo do Inferno ao fim das escadas castelhanas de Penrose porque assisti a uma espécie brilhante de tomografia axial computorizada (TAC) ao cérebro dos senhores Nolan e Polanski. Nunca gostei particularmente dos empreendimentos do senhor Nolan, incluindo os celebrados “Memento”, esse sublime relógio suiço onde só se vê o mecanismo interno — a arquitectura da acção — , nunca o mostrador — a beleza da emoção  — e o díptico dedicado ao Cavaleiro das Trevas. Nunca compreendi o fascínio da crítica internacional e o entusiasmo da crítica (?) nacional face a “Batman Begins” e “The Dark Knight”, mas depois lembrei-me que os comentadores para-cinéfilos cá da terra escolhem periodicamente um reles industrialista norte-americano com cara de cifrão e traçam-lhe o perfil de artista de portento para melhor criar a ilusão de que o seu juízo estético não jaz inquinado, antes exultando numa cristalina imparcialidade ontológica.

Nos últimos anos, de forma a poderem interromper o café para levantar a chávena e afirmar, sorriso suave, “há cinema de entretenimento de que gosto muito”, os controladores de qualidade fizeram em Portugal o mesmo exercício com, por exemplo, John Mc Tiernan (negligenciando, no entanto, um dos seus melhores filmes, “The 13th Warrior”, por causa de ter nascido deficiente, condição agravada por mutilações na pós-produção), Michael Mann (de quem foram traçados retratos de pura vulgaridade e negação autoral por via das cumplicidades do cineasta com a televisão no seu todo — vade retro — e “Miami Vice” — credo! — em particular, tudo ali por volta de 1984, já após “The Jericho Mile” e o excelente — e autoríssimo — “Thief”) e, claro, o caso mais desagradável, o senhor Clint Eastwood, que a imprensa portuguesa tomou como criativamente néscio, cinematográficamente monocórdico e esteticamente sub-Siegel ou avant-Leone até dar de caras (ia escrever trombas, ainda bem que não o fiz) com a insustentável beleza ardente de “Bird”, em 1988 — o jazz, que pedigree! — quando o homem já tinha dirigido um grande filme 15 (!) anos antes — “High Plains Drifter, 1973″ -, uma fita de uma enorme ternura picaresca — “Bronco Billy”, 1980 — e duas obras-primas: “The Outlaw Josey Wales”,  1976 — que em boa hora roubou a Philip Kaufman — e “Pale Rider”, 1985, um dos grandes westerns da história do cinema (para o qual Manuel Cintra Ferreira, justiça lhe seja feita, chamou dedicada atenção num “Expresso” que ainda tinha, no século passado, aqui e acolá, crítica de cinema).

É pois, para mim, verdade — pelo menos foi-o nas horas que duram minutos e que abraçam anos pela escuridão da gruta do algodão doce — que tanto o senhor Polanski (sem surpresas) como o senhor Nolan (com uma certa dose de imprevisibilidade) nos oferecem agora duas obras visuais, ambas alicerçadas na trave mestra do “avanço inexorável da intriga” tão caro à herança do cinema clássico — leia-se “susceptível de compreensão pela generalidade dos espectadores que aceita assinaturas para além da de Hsou Hsiao Hsien e Bela Tarr nos filmes que deglute” — que são verdadeiros exemplos de inteligência democrática — leia-se agora “a consumir com prazer e a reflectir com gosto por cidadãos não-lobotomizados”.

O senhor Nolan é, arquitectonicamente, mais complexo. Gosta de brincar com as formas, os códigos, os ingredientes, no que é uma característica do seu cinema (o sono que faz reverberações na realidade do agente policial de “Insomnia”, os olhares paralelos da obra de estreia, “Following”, o jogo de Circe em “Memento”, nesse mega-puzzle cujas peças encaixam no sentido contrário ao que era suposto para (re)formarem o quadro final). Em “A Origem”, o jogo é uma espécie de Monopólio onírico a quatro dimensões — três de espaço, uma de tempo — mas a eficácia e, porque não a elegância, das charadas dos filmes anteriores ganha, pela primeira vez, uma ressonância emocional. Não se trata do primeiro love-thriller do milénio, mas pode bem ser um novo degrau no sempre precário equilíbrio entre argúcia dramática e imaginação plástica. Nolan pica o “2001” de Kubrick, o fausto corruptível do “Election” de Johnnie To, a engenharia noir de “Dark City”, a energia cinética de De Palma e o melhor da operacionalidade mística dos irmãos Wachovski para nos entregar o seu filme menos frio, uma história de amor high-tech de 200 milhões de dólares. É um desplante, mas funciona.

 

Em contrapartida, Polanski é infinitamente mais perverso. Pega num policial político (Robert Harris, o autor de “Pompei” e “Fatherland”), injecta-lhe o sangue dormente de um Hitchcoch criogenizado, passa por Losey, visita três segundos a sala de estar de Pakula, regressa por uns minutos ao cinema negro de Joseph H. Lewis e Fritz Lang (com quem tem mais coisas em comum do que parece) mas, sobretudo, insufla tudo de paranóia, a paranóia de um silêncio acre, como os ventos muito secos, de que só ele conhece o segredo. A forma como as personagens do senhor Polanski saltitam entre o egoísmo e a amoralidade é de uma sageza admirável, e esta história de um primeiro-ministro britânico preso às decisões do passado com ice blondes, viúvas negras e o espectro do seu escritor-fantasma numa casa à beira-mar que parece uma caixa-forte do subsconsciente — e ei-nos regressados ao filme do senhor Nolan — é o melhor que o polaco nos ofereceu em anos.

O que é dizer muito.

 

 

 

 

 

 



Comentários a “O futuro está sempre no passado” (9)

  1. José Navarro de Andrade diz:

    Magnífico texto. mas essa de chicoteares um cavalo morto, é tempo perdido. Fossem dizer aos senhores Hawks, Capra, Sirk ou Wyler (horror, ele falou neste, mas não foi amaldiçoado pelos Neros?) que não faziam entretenimento… Esta política dos autores dos anos 50, não está já um bocadinho relha? E, além de ter sufocado de morte o cinema europeu, não acabou por não explicar nada?Manias que eu tenho, eu sei…

  2. Turmalina diz:

    O que eu tenho prá dizer é muito pouco, ou quase nada, diante de texto tão completo e tão perfeito. São dois filmes que estão no topo da lista dos filmes que pretendo assistir em breve.Até então era somente porque “A Origem” é o tipo de trama que altera a realidade como conhecemos e ” O Escritor Fantasma” porque o tema ghost writer sempre me atraiu.
    Com o mesmo tema e abordando a questão de uma forma diferente o diretor Walter Carvalho levou às telas o livro de Chico Buarque, “Budapeste”. Era um filme que tinha tudo para ser um sucesso, mas não chegou lá, faltou uma coisa alí e outra acolá. Um critico especializado disse que é porque ele tem muitos recortes. Eu acho que teve falhas inclusive na direção e interpretação.
    Mas voltando ao seu texto, agora é aumentou a minha vontade de assistí-los!

  3. pedro marta santos diz:

    Agradeço o comentário, Turmalina. Tenho que experimentar o “Budapeste”. Obrigado, José. E nem mais, tocaste no ponto. A escolher apenas um motivo para a lenta tragédia do mais incipiente dos cinemas europeus (o português, ao lado do cipriota), é esse: uma absoluta incapacidade para ir além do que foi dito entre 57 e 59.

  4. Pedro diz:

    Bem, o Clint era mesmo canastrão (eu agora não consigo ver o Dirty Harry sem sorrir, sorry). Os críticos iam dizer o quê? Ora aqui está um imbecil monocórdico, mas nota-se naquele olhar de águia míope que futuramente irá produzir e realizar excelentes filmes?

  5. pedro marta santos diz:

    Remeto para o texto, caro Pedro. Ao mesmo tempo que o senhor Eastwood contracenava com orangotangos (o estrondoso díptico “Any Which Way”, que é melhor exemplo para ilustrar o seu ponto do que os “Dirty Harry”), pegava no dinheiro que ganhara com as sacrílegas fitas para dirigir obras pessoais E de “entretenimento” (desde 1971, com “Play Misty for Me” — já viu esse?). Enquanto estrelava “Magnum Force” e “The Enforcer”, desconstruía o “imbecil monocórdico” em “The Outlaw Josey Wales” ou “Tightrope”, onde tem mais pecados, vícios e desvios sexuais assumidos do que o assassino que tenta capturar (o filme é mesmo dirigido por ele, só lá está o nome de Richard Tuggle por motivos contratuais) .
    O senhor Eastwood faz filmes “de autor” QUE SÃO, SIMULTANEAMENTE, “comerciais” há quatro décadas — quase ao mesmo tempo que o “Dirty Harry” passou a primeira vez pela cabeça do casal Fink. Para repararmos no Eastwood anti-granítico, bastava irmos mais vezes ao cinema desde o início dos anos 70 (não 80).

  6. Pedro Norton diz:

    Thank You Master Peter. Por teres saído de tão longo eremitismo. E logo para mais uma lições das tuas. Tenho curiosidade de ver o Polanski. Porque o livro era mauzote — eu eu gosto do Robert Harris — mas tinha todos os ingredientes para dar um bom filme.

  7. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Caro Pedro,

    tinha saudades de ler um texto seu. Bem escrito, uma arquitectura de pensamento exemplar. É um prazer lê-lo: as diferenças não criam fricção, só curiosidade, acrescentam, e em vontade, de ir ver com os nossos olhos o que os seus filtraram. Isto porque as suas linhas, não é fácil, fazem uma rede que nos prende.

    O último Polanski que vi decepcionou-me profundamente. E de infantil que sou em tudo o que não deveria, jamais veria este, não fora o seu texto. Merci.

  8. Pedro diz:

    Pedro, por acaso não conhecia esses filmes do Clint. Se é assim, tem razão.

  9. pedro marta santos diz:

    Ruborizo sempre com os vossos encómios, amigos Eugénia e Pedro. É a convivência com Vªs Exªs que me enriquece. Comece pelo “Pale Rider”, prezado Pedro. Acho que não se vai arrepender.

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