As luzes acenderam-se. Intervalo. Pegou nos binóculos, a outra mão a apertar, firme, o leque pousado no colo. Fixou um ponto do outro lado do teatro, no meio das filas de camarotes. Debruçou-se, tentando mostrar-se natural e descontraída, interessada e curiosa. E, sobretudo, tão segura e destemida quanto gostaria de se sentir. Espreitou. Não procurava nada nem ninguém. De nada lhe interessava o que da vida dos outros pudessem captar as suas lentes. Sentia todos os olhares pousados em si.
Nessa noite infringira várias regras e desafiara outras tantas convenções. Apresentara-se no teatro, ocupando o camarote que assinara para toda a temporada. Três hesitantes semanas depois de esta ter começado. Viera só. Tão só como escolhera, fazia agora um ano, viver a sua vida. Regressara com os filhos a casa dos pais, à sua cidade. A princípio fora fácil. Bem mais fácil do que contava. Os feitos, públicos e privados, do seu ainda marido, de todos bem conhecidos, ajudavam a colorir de negro o retrato da sua tormentosa vida conjugal que, cedo percebeu, constituía a carta de alforria que não podia nem devia largar. Era, afinal, uma vítima das circunstâncias, sofredora e frágil, irresignada a um destino que se lhe impusera. E que, aos mais empedernidos, convinha apresentar, junto com uma incontida lágrima, como não irreversível (quem sabe, talvez um dia, ainda tudo se componha). Resultava sempre. Tal como o recatado quase luto que achara prudente adoptar. Fora tratada com compaixão e complacência. Tivera até vários convites, alguns inesperados. A todos agradecera, humilde e reverente. Ao fim de uns meses, estava saturada. De ter de se apresentar desolada, desvalida, desamparada. Sufocava-a o ter de exibir uma infelicidade que não sentia. O alívio inicial dera lugar a uma desmedida vontade de desfrutar da autonomia que, aos poucos, conquistara. Mudara-se para uma casa sua, com os seus filhos. Administrava o seu património — bendita a hora em o pai impusera a separação de bens. Sentia-se livre e feliz. Aos poucos deixou cair a máscara da desgraçada. Ria e mostrava-se animada. Tinha planos e falava deles. Nos serões e festas, movia-se pelos salões, conversava, dançava até, recusando integrar o “arame farpado” — a temida hoste de azedas solteironas e viúvas que, à falta de mais assunto, cortava às tiras vidas e reputações alheias. Percebera os olhares críticos e reprovadores. Sabia de cor os comentários, de tanto os ter ouvido, aplicados a outras. Levantada. Cabecita no ar. Doida.
Perante várias amigas advertências, hesitou. Fez por regressar ao esquema antigo. Não conseguiu. Tens de te dar ao respeito, diziam-lhe. Respeito não é pena, respondia. E rematava, como sempre ouvira a avó: mais vale mal de inveja, que bem de piedade. Porque era inveja o que sentia suscitar. Inveja da sua liberdade, nas mulheres encerradas em casamentos onde se haviam perdido (admitindo que os houvera) o afecto e o respeito. Nos homens era diferente. Nalguns homens. Era mais medo. Do péssimo exemplo que dava às submissas esposas. Mas havia pior, os sonsos. Como aquele que conhecera em casa dos tios. Desgostara da forma como a olhara e o tom com que se lhe dirigira. Ignorara-o polidamente, refugiando-se, lesta, no “arame farpado”. Soube, depois, dos comentários depreciativos a seu respeito. Falou-se em metê-lo na ordem. Dissuadira-os. Não se dá importância ao que a não merece.
Respirou fundo. Avistara duas primas, que lhe acenavam, sorridentes. Baixou os binóculos. Acenou de volta. Sorriu cordial aos vizinhos do camarote à direita. Retomou a simulada coscuvilhice. A conversa ficaria para a próxima. Não convinha exagerar na dose. Um homem observava-a, fixamente, através dos seus binóculos. O seu mais antigo e querido amigo. A quem ganhara a aposta que haviam feito, ao comparecer no teatro nessa noite. Amanhã ou depois ele levá-la-ia na sua nova caleche a lanchar a uma nova confeitaria que há pouco abrira no centro, próximo do jardim. Haveria falatório? Paciência.
Para a semana viria sem o maldito vestido preto e sem as tristonhas pérolas. Pensassem o que pensassem. Dissessem o que dissessem. Só vive uma vez. E ela tinha trinta anos e tencionava fazê-lo.


















Que bela história! Gostei muito desta sua mulher moderna e livre!
Agrada-me particularmente a ideia de que a vida deve ser aproveitada ao máximo, em cada momento, e sem que nos importemos com os comentários ou pensamentos alheios.
Resta-me, pois, desejar que esta sua observadora troque o preto e as pérolas por algo mais alegre e que o lanche seja agradável e divertido!
Teresinha, que bom vê-la aqui pelo cemitério! Seja muito bem vinda!
Fico mesmo contente por ter gostado. E concordo absolutamente consigo quanto ao aproveitar a vida momento a momento! Por isso, não duvido de que a protagonista terá conseguido colorir e animar a dela, por fora e por dentro, que o lanche correu decerto muito bem e, claro, que animou também as longas tardes de baças almas sem outros interesses na vida… Mas, é como dizem: os cães ladram e a caravana passa!
Gostei Joana. E concordo sobretudo quando a sua viúva fala dos sonsos. Na verdade, não há pior do que os sonsos. Ela que que se vista com cores alegres e que os mande a todos à fava. A vida é para ser vivida a sério, isto é: verdadeiramente. Caso contrário, não se vive. Finge-se viver.
Ainda bem que gostou, Gonçalo. Tem toda a razão: só se vive com verdade. Tudo o que não seja isso, à fava, mesmo!
Uma personagem adorável — tão livre e corajosa, e uma história que aprisiona a imaginação. Mas, sobretudo, a característica de sua escrita que já disse e torno a elogiar: a extrema elegância com que nos enreda e provoca empatia com o personagem. Falta apenas dançar a quadrilha e valsas e mais valsas como a serelepe (uso em sua homenagem) Scarlett.
Bingo, Luciana!
Sabe que nestes dias que andei às voltas na cabeça com esta imagem, sem saber bem por onde lhe pegar, a única cena que constantemente me ocorria era essa, do baile do Gone with the Wind, em que a serelepe Scarlett, toda de negro e louca de vontade, toma o seu lugar entre as outras, de vestido claro, e sem querer saber do que seja, dança a dança (valsa, quadrinha? tanto faz) do princípio ao fim. E foi mesmo daí que parti … mulheres amortalhadas de negro e sepultadas em regras e convenções, mas com o espírito e a vontade bem vivos!!!
Joana,
de tudo que se diz de feminista, feminino, etc. o que sempre me instiga é justamente isso: viver o desejo. Espírito e vontade bem vivos, eis o imprescindível. Obrigada, outra vez, por lembrar-me.
Como num filme, Joana. Eu já vi um assim, que era também como num filme.
Muitos parabéns.
António, sabe que gosto sempre muito que goste! Thks!
Descobri tudo e aqui o publicito!
O “mais antigo e querido amigo” não é senão Edgar Degas, que assim no-la apresentou à saída do espectáculo:
http://www.1st-art-gallery.com/thumbnail/138086/1/Mary-Cassatt-At-The-Louvre.jpg
“O que uma época considera como mau é, habitualmente, um testemunho do que outrora foi considerado bom, o atavismo de um ideal mais antigo”… (F. Nietzche)
Arguto Orcama, vai-se a ver e é mesmo …
Gostei desse seu Nietzche. O problema dos atavismos é que sempre se vão transmitindo, replicando e, nessa medida, subsistindo, de forma mais subtil, mas nem por isso menos funda e arreigada … ;)
E eis como se apresentou na semana seguinte…
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f8/Mary_Cassatt_-_Woman_with_a_Pearl_Necklace.jpg
Pelos vistos o lanche correu muito bem, mesmo para além das mais promissora expectativas…
Da indumentária anterior restou o leque e o seu apego às pérolas…
“O que é feito por amor acontece sempre para além do bem e do mal” (F. Nietzcche)
Pois está bastante melhor. Agora é que vai dar falatório.
Estimado Olho Vivo, oxalá tenha razão! E as pérolas, já se sabe: se fazem, protocolares e tristes, o luto, também fazem, luminosas e, pelo menos para mim, dificilmente batíveis, a festa …
Pois que falem, Gonçalo. Falariam sempre. Se não disto, de qualquer outra coisa. E, como diz a minha Mãe, que o ouvia à minha bisavó: só se atiram pedras às árvores com fruto …
É isso mesmo, meu caro Gonçalo Pistacchini Moita.
Pois não trocou ela o recatado camarote pela exposta plateia, tendo até deixado em casa os luxuosos “Lemaire nacre-gris” que Olivia, a sofisticada amiga do nosso eclético M. Antoine Eça, lhe havia emprestado, enfrentando de peito aberto — em sentido real e figurado…- a sala inteira?
Cá para mim, não pode ter ido sozinha…
“Por trás da sua vaidade pessoal, as próprias mulheres têm sempre o seu desprezo impessoal — pela «mulher» -. (F. Nietzsche — Para além do bem e do mal)
Excelente post.
Sofia, muito obrigada. Pela visita e pelo simpático comentário. Fico mesmo contente por ter gostado.
Joana…adorei…me senti no lugar de sua vibrante personagem em alguns momentos. No final não via a hora de livrar-me do vestido preto e das pérolas.Aliás nunca gostei de pérolas. E na verdade sentir-me livre é o que me faz mais feliz. Porque como bem lembrou nosso amigo Mr. Orcama, com as palavras de Nietzsche: “O que é feito por amor acontece sempre para além do bem e do mal”.
Turmalina, que óptimo que tenha gostado! Concordo em absoluto com tudo o que diz, acerca da liberdade e do amor. Sobretudo do amor de/por si próprio, sem o qual, nada de bom se faz, nem por nós e muito menos pelos outros …
Joaninha,
ficção ou realidade?.…. não importa.
Depois de ler o teu conto, o que “respiro” é Liberdade, Liberdade de viver, e dizer, e cantar, e sentir, e sonhar a Verdade.
Fora com os vestidos pretos e com o raio das pérolas!
Muitos lanches (sempre bem acompanhada) nas belas confeitarias e c*g* nos falatórios!
Mil Vivas à vida!
Querida Cata, eu bem sei e tu bem sabes que a realidade é sempre bem mais rica, colorida, intensa, imprevisível e às vezes inacreditável que a ficção … ;) Felizmente!!!
Ainda bem que gostaste!!! E eu gosto sempre tanto que apareças por aqui!
Um beijo
Fantastico Joana! Um dos melhores textos que já aqui alguma vez li. Parabéns!
E pensar que a menos de um ano atrás, (tu em vestes de Bellatrix), discutiamos as Tonnerres de Brest.…
Obrigada, Vasco, deixas-me completamente desvanecida com a tua simpatia!
Foram anos e anos sem contacto e a saber aos poucos um do outro pelas nossos queridos elos comuns, mas eu diria que temos feito uma excelente, porque intensa, gratificante e muito, muito divertida recuperação! E agora, confesso, estou mortinha por rever-te … :)
Nestes anos todos acho que vi uma vez o teu irmão Pedro com o meu primo Gonçalo e conheci o Luís que se não me engano é teu primo. Beijos e até Agosto!
Querida Joana
Aquilo em que um quadro nos faz pensar é para mim fascinante. Quando a descrição é
uma peça tão boa e a história bem sentida …vale mesmo a pena este bocado de leitura.
Por qualquer razão, a personagem de que me lembrei não foi a Scarlett O´Hara mas a Irene
Forsyte, Na família F. a pintura está sempre presente e este teu trecho assentava como uma luva naquela saga. Lê ou relê que vale a pena.
Bj com saudades Rita
Minha querida Rita, mas que surpresa tão grande e tão boa! Fico mesmo contente por teres gostado! Encantou-me essa tua associação da protagonista à figura da Irene Forsyte. E vai ser, além do mais, um excelente pretexto para uma releitura … Um grande beijo para todos!