Johnny Cash
Queridos Mortos

Penso: tudo é o que parece ser. Apenas não pode ser visto só com os olhos.
J.R. Cash. Não sei de outro que não tenha nome próprio e só à beira da recruta se invente Johnny a partir de um J sempre colado ao R. Antes da força aérea era só J.R. por desacordo de mãe e pai na escolha do nome de baptismo — e por concórdia  nas duas letras que o fizeram. Cash é paterno. E lá no princípio desse Cash paterno, um rei escondido pelo nevoeiro de um lago que ainda lhe guarda o nome nas terras da Escócia, negando-lhe, enquanto o azula, o desejo sólido de sangue índio e a consciência de ser irlandês. Se um rei escolher voltar na sua descendência, parece-me bem que o faça assim, pelas mãos do mais povo que colhe a dureza do algodão nos campos da infância. Porque um rei é o corpo do seu povo, conhece-lhe a dores como os ossos conhecem o mau tempo. E reconhece nos muros altos, fora, onde os últimos são fechados, os muros iguais aos que nos prendem, dentro, à nossa menoridade sem crime, outro nome para o pecado. Mas saber isto de cor, sabê-lo, portanto, com o coração, e senti-lo com o pensamento, é caminhar em cima do sofrimento. Amar com grandeza é ser mais que real, é ser humano.
A minha mãe diz, de quando em raro ainda diz, dormias tão bem. É verdade. E ao sábado, no Inverno que durava até meia Primavera, porque a minha avó autorizava pequeno almoço na cama, atraso na hora do duche e assim pijama pela casa a fazer tangente à mesa posta, ai ai, ao meio dia e meia, o meu avô sentado em ponto, o meu cabelo molhado, caído nas costas, isso faz mal, ao sábado, no Inverno que durava até meia Primavera, na preguiça muito quente do leite quase a queimar a língua, ao sábado de fatias de pão aparadas para serem todas a parte do meio da torrada de café, de cabelo encharcado, que falta de preceito, ao sábado ainda dormia melhor.
Tenho noites em branco. Não as noites brancas sonhadas por Dostoievski, aquelas fazem do simulacro da luz, a luz devoradora da vida logo no embrião da vida — não é outra coisa o amor. Das outras. Das que, Deus saberá como e porquê, se enfiam à força por dentro do cansaço e fazem abrir os olhos que querem fechar-se. Às vezes, muitas vezes, quase sempre, fico deitada, quieta, a despensar cada pensamento que vem dar de comer à insónia. Porém às vezes, poucas vezes, quase nunca, também me levanto e atravesso o silêncio da casa, como eu gosto, descalça, sem acender luz, até chegar ao pc, ligá-lo e abrir o ecrã todo para a sala, janela aberta por onde a música.
A voz do Johnny Cash. É toda lentura de navio, calado máximo em cuidados de quilha que roça o leito ao fim da água, ou a carne ao fim do corpo, na fronteira com outra coisa sem nome. Atravessa a noite para aconchegar o escuro. É sempre aquilo que nos mata que nos pode salvar: mesmo que não compreenda esta circularidade de venenos e remédios, sei.

Eugénia de Vasconcellos

Comentários a “Johnny Cash” (6)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    As lenturas de navio souberam-me a viagem transatlântica e a madrugada a fazer-se manhã de sol.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Também tenho noites dessas, de andar no escuro balizado de penumbras e das lâminas de luz reflectida que as cortam em contrastes de pintura. E faço outra coisa: abro a janela da varanda e fico a ouvir os pássaros da madrugada — a que a minha Callas (uma canária ‘bronze’) responde em contrapontos vertiginosos.
    Que texto tão íntimo, Eugénia. Gosto muito desses pequenos pedaços de interior que tão bem nos mostra.

  3. Joana Vasconcelos diz:

    Eugénia, o que eu gostei dessas suas descalças deambulações. Também as tenho, mas por outras razões. Não sei o que seja uma insónia. Caio na cama e, como as crianças, adormeço. Mas, tal como as crianças, muitas vezes resisto a deitar-me a horas sensatas. Gosto de acrescentar mais horas (uma ou duas que seja), só minhas, ao dia. Para este que não seja só trabalho. O resultado, já se sabe, uma soneira desgraçada, no dia seguinte. Mas às vezes tem mesmo de ser e vale bem pelo que ganho em gozo, beleza e tranquilidade.

    Descobri definitivamente o fabuloso Cash depois de tanto ter gostado do Walk the Line e da extraordinária história dele, tão intenso e escuro, com a luminosa June.

    Duvido que depois deste lindo enterro que lhe fez ele volte a cantar esta música sem ser cross fingered.

  4. José Navarro de Andrade diz:

    Até hoje Johnny Cash, para mim, não passava de mais um gringo baptista que havia pilhado a música fermentada por debaixo dos senhores do Sul dos EUA, embora não tão nefasto como aquele Presley de Memphis. A sua insónia, Eugénia, trouxe-mo a outra luz. Obrigado.

  5. teresa conceição diz:

    Que bom voltar e ter esta noite para me receber.

    Que saudades tinha disto, Eugénia, destes bocadinhos que nos dá de surpresa, sejam cash ou outro o gancho. Até apetece ter insónias para as escrever assim.

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Merci aos rapazes e às meninas.

    Ps: Teresa! Onde é que anda, sua malvada?!

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