Eros e Psique
Queridos Mortos

Psique era uma mortal com a beleza de uma deusa. Muito naturalmente, os mortais adoravam-na, pois não podiam amá-la. Muito naturalmente, Afrodite, imortal deusa da beleza, afrontou-se com a beleza e a adoração. Porque humanos e deuses são iguais em respectivos tronos de onde regem os destinos próprios e os dos outros no que de si e dos outros é regível sob o comum princípio: homogeneidade. Humana. Divina. Sobrou então a Psique, o que sempre sobra a Psique: o sacrifício da diferença, do monte alto o precipício fundo, só medo, sequer ressentimento, pois até a própria diferença o mais quer é ser igual — de verdade, nem precisa consultar os livros: pergunte a qualquer adolescente se quer ser diferente dos amigos dele. E já que está nisso, a uma criança, se de outras crianças. A um adulto, dos seus pares. Qual o quê! É a elementar biologia a gritar a memória da célula desde os tempos da predação em quatro ainda patas.
Mas há aquilo com que não se conta. Inevitável, no entanto. Quem. Eros. Porque a natureza do amor é a ligação. O molhado corre para o seco. Isso é o amor. Não a terra. Não a água. A ligação da terra com a água. Deste modo, à ligação por força de seta, isto é, direcção, juntou-se a harmonia do sentido: à atracção dos corpos opostos, juntou-se, em simetria, a alma dos corpos complementares. Eros e Psique. Claro que tudo isto aconteceu em perfeita ordem grega de fatalidade, portanto, na mais absoluta cegueira. Para que o amor ame, é preciso fechar os olhos. Quando o amor ama, para continuar a amar, é preciso abrir os olhos. Incumpriu,  então, Psique, para cumprir, e derramou o óleo quente da visão sobre o amante tão amado com quem vivia no vale feliz fora do mundo. Doeu-lhe,  é certo, mas há que reconhecer, o danado foi bera. É bem verdade que eram um bocadinho bebés, os dois. Totalitários, claro, de bebezice. Mas não é sempre a paixão? Não sei se foi para que crescessem. Diz que sim. Creio que não. Penso mesmo que foi para que, sem crescerem, acrescentarem sem diminuir. O que quero dizer? Não é difícil. Sem diminuir a paixão, acrescentar na força do amor, traduzidas em cada uma das tarefas realizadas que dilatam e expõem a própria natureza do ser, aos olhos de quem as realiza e de quem as vê realizadas. Final feliz, portanto. Há que matá-lo. Enterrá-lo muito bem. O tempo não está para amores. Apuleicos amores. Platónicos amores. Amor às metades. Muito menos pessoanos amores em avessos de assins:


EROS E PSIQUE — Fernando Pessoa -

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Eugénia de Vasconcellos

Comentários a “Eros e Psique” (2)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Eugénia, gostei muito deste dueto finado.
    E sabe o que me aconteceu? Comecei a ler esse Pessoa e dei comigo a ouvi-lo ao som da guitarra portuguesa, como num fado, daqueles bem fatalistas!
    Tem um quê conclusivo de Dorian Gray.

  2. Luciana diz:

    O mais de sempre costuma ter cores raras em suas mãos, Eugénia.
    Esse Pessoa eu o conheci num lindo disco — Pássaro da Manhã (Bethania — 77). Cresci ouvindo, até antes de entender eu já o sabia. Aqui (http://www.youtube.com/watch?v=LEKA1mAVrJ8), já em 2008, ela tudo diz de novo — a partir de 2’50″. Antes, Bethania erra a linda letra de Vila do Adeus.
    Parece-me apropriado, isso.

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