
De acordo com a sua certidão de nascimento, Ernesto Guevara de la Serna nasceu a 14 de Julho de 1928 em Rosario de la Fe, na Argentina. De facto, El Pelao (como lhe chamaria Granado) nasceu um mês antes da data oficial. Celia de la Serna, católica progressista, estava grávida de três meses quando casou com Ernesto Guevara Lynch, descendente arruinado de “boas” famílias espanholas e irlandesas. E a mentirola, guardada em segredo durante trinta anos, evitou um escândalo na sociedade de Buenos Aires.
Ernesto nasceu assim sob a maldição de uma dupla biografia. E nunca mais se livrou dela. A esquerda gosta de celebrar o jovem asmático que cresceu, enclausurado, a ler Verne, Salgari, Stevenson, Cervantes, Baudelaire, Neruda, Jung, Steinbeck, Lorca e, claro está, Ghandi, Marx e Engels. O mito faz-se do jovem inconformado que, farto de medicina até às orelhas, atravessou meia América em cima de uma Norton 500 (a célebre La Poderosa) numa viagem iniciática onde descobre, revoltado, a miséria abjecta dos mineiros de Antofagasta e a condição desumana dos leprosos perdidos na selva amazónica. Que se despedem de um renascido Guevara com um espectáculo que jamais esqueceria: “O cantor era cego e o acordeonista não tinha dedos”. Depois vem Castro e o encontro “que mudaria uma vida”. O Granma, 82 guerrilheiros barbudos, a Sierra Maestra e, já com a década de 50 a correr para o fim, a queda do regime brutal de Batista e a vitória da revolução “libertadora”. O mito começava a apagar o homem e, depois de uma passagem fugaz pelo Banco Central (Castro terá pedido um economista, Guevara terá entendido um comunista), o Che desparece mesmo. O Mundo precisa dele e a injustiça não foi ainda definitivamente erradicada.1965 é “o ano em que esteve em parte nenhuma”. Ou em toda a parte, a fazer fé nos rumores: na Colombia, no Vietnam, num hospital psiquiátrico no México e até sob sete palmos de terra, em Las Vegas, assassinado às ordens de Castro. A lenda cresce. Guevara de la Serna é cada vez menos o dono da sua própria biografia. De tal forma que o homem e o mito só se reencontrariam na morte, em 1967, na selva boliviana. O “Cristo” é definitivamente imortalizado na lavandaria de Vallegrande, de olhos perdidos no sonho de um Mundo melhor, pela objectiva de Freddy Alborta.
Do outro lado da barricada biográfica, é bem diferente o homem que a direita se tem empenhado em resgatar do mito. Inspirados pelos escritos amargurados e revoltados de Padilla e Cabrera Infante (to name a few), pelo “mártir” Arenas, lutam contra a “Castadura que dura” e acreditam servir a liberdade destruindo, pelos pés de barro, o ídolo pop da revolução cubana. Para o lugar do Che convocam Tatu (a sua incarnação congolesa), descrevem o aventureiro de méritos militares mais do que duvidosos, «o filho literato de aristocratas e milionários argentinos» que desprezava a imperfeição dos companheiros de revolução e do «povo» em geral. Juntam-lhe os fuzilamentos de «La Cabaña», a gestão desnorteada do Banco Nacional Cubano, a arrogância intelectual e a admiração pela Coreia do Norte (para não dar mais exemplos) e o ramalhete fica, de facto, composto. De Guevara de la Serna pouco mais sobra do que um ícone instrumentalizado pela nomenklatura cubana.
Pelo meu lado, que dificilmente alguém dirá que é o lado da esquerda, se tiver de optar por uma das biografias paralelas não tenho dúvidas e sacrifico o rigor histórico ao encanto do mito. Como um dia escreveu Jorge Catañeda: «Há mitos que são maiores que a política ou a ideologia, que são maiores do que as derivas cruéis da história. O Che vive e, desde que não olhemos de perto para a sua vida, continuará a viver enquanto precisarmos dele e da forma que precisarmos dele». E pode alguém honestamente dizer que o Mundo em que vivemos já não precisa de mitos? Que se lixe a história.
Pedro Norton

















Li bem? Não interessa, gosto o mesmo, por mais bem ou por mais mal que tenha lido. Pedro, temos de convidar o homem para um copo entre tumbas. A Teresa pinta-lhe o retrato, a Eugénia faz-lhe o espicho, a Joana arranja maneira de o ilibar. Quando o resto da rapaziada chegar, o Gonçalo à frente a querer convertê-lo, o céptico Navarro lá ao fundo, já nós estaremos num tu cá tu lá com a revolução, e a dizer cobras e lagartos do Chavez, cheios de pena do Sócrates e do Passos Coelho. (Estou de férias, claro, inimputável.)
Manuel: há quem diga que você desapareceu para fazer uma revolução no Congo. Mas eu tenho jurado a toda a gente que são boatos. Que está a banhos.
Pedro, não há dúvida: publique-se a lenda! E ficarei aqui mais um pouco com meus juvenis suspiros revividos…
Luciana: e eu que não fiz logo essa associação! Você nasceu para me fazer ruborizar…
É por isso mesmo que a segunda tijela de sopa reclamada por Oliver Twist representa o ‘click’ da luta de classes na Grá-Bretanha. Ouvi ontem o Adriano Moreira falar nisso em contraponto ao não-marxismo britânico: não precisavam dele, já tinham o seu próprio mito activo.
Gostei muito e subscrevo a ideia.
O Manuel, Pedro, prepara-se para conquistar as Baleares.
Ouvi dizer…
E são palavras assim que reacendem o mito…muito, muito bom!!!
obrigado, turmalina!