Em defesa do bom António — com o risco da própria vida!

A loucura tomou conta deste blog. O pobre António, terrivelmente assediado pela Joana, que já aqui nos advertira que era louca, tem sofrido em abnegado silêncio o que poucos homens seriam capazes de suportar. O seu sofrimento, porém, já o ultrapassa, e porque, com ele, sofremos também nós, todos os homens, resolvi aqui intervir, em sua defesa, encorajado por aquelas últimas palavras com que Marx nos grita no seu famoso manifesto: «Homens de todo o mundo: uni-vos!»
Bem sei que o nosso momento não é chegado. Não sei se alguma vez o será. Por agora temos ainda de sofrer em silêncio as provações que esse outro sexo nos impõe. Não posso, por isso, ser eu a falar, que as represálias seriam por certo maiores do que aquelas que me é dado suportar. Falará, assim, a própria loucura, de que elas, as mulheres, se arvoram em donas, com aquele mesmo discurso que há já muito tempo nos deixou. Possa assim, por esta via, o bom senso regressar a esta casa:

«LOUCURA – Vede que providência a da Natureza, genitriz e fabricante do género humano, a de deixar em tudo o condimento da loucura. Com efeito, segundo a definição dos estóicos, a sapiência não é mais do que a conduta da razão; pelo contrário, a loucura consiste em deixar-se levar pelas paixões. Para que a vida dos homens não fosse inteiramente triste e tétrica, Júpiter deu-lhes mais paixões do que a razão – na proporção de um grão por meia-onça. Além disso, relegou a razão para um canto estreito da cabeça, deixando o resto do corpo entregue às paixões. À razão opôs ainda dois tiranos violentíssimos, a ira, que tem a sua sé no peito, com a própria fonte da vida que é o coração, e a concupiscência, cujo império se dilata até ao baixo-ventre. Quanto vale a razão contra estas duas forças reunidas é o que a vida comum dos homens satisfatoriamente nos mostra. A razão pode gritar até enrouquecer para fazer cumprir as fórmulas da honestidade; é rainha a que os homens não obedecem, a que os homens replicam com injúrias, até que emudeça ou se declare vencida.
Ora, o homem, nascido para administrar as coisas, deveria receber um pouco mais do que uma onça de razão. Júpiter consultou-me a este respeito e dei-lhe um conselho digno de mim: o de unir a mulher ao varão. A mulher é um animal louco como nenhum, inepto, ridículo e delicioso, que no convívio doméstico atenuaria a tristeza do engenho viril com a loucura feminina. E claro que, quando Platão parece hesitar em incluir a mulher entre os animais racionais, nada mais pretende do que indicar a loucura insigne desse sexo. Quando por acaso uma mulher quer passar por sábia, não faz mais do que dizer que é duas vezes louca. Ninguém vai ungir um boi para a palestra, nem Minerva o consentiria. Não procedamos, pois, contra a natureza; o vício fica agravado quando dissimulado de virtude, por maior que seja o engenho. É bem justo o provérbio grego: um macaco é sempre um macaco, ainda que vestido de púrpura. Assim também a mulher é sempre mulher, quero dizer sempre louca, ainda que ponha uma máscara.
As mulheres não me podem levar a mal que lhes atribua a loucura, porque eu também sou, além de mulher, a própria Estultícia. Vendo bem as coisas, devem ser gratas à Estultícia que lhes permite serem muito mais felizes do que os varões. Têm a graça da formosura, mérito que antepõem a todas as coisas, e que lhes serve para tiranizarem os próprios tiranos. O varão tem as formas rudes, a cútis híspida, a barba selvagem, e tudo isso o envelhece, embora signifique sabedoria; as mulheres, com as faces sempre macias, a voz sempre doce, a pele sempre lisa, têm a seu favor os atributos da juvência perpétua. Porque optam elas nesta vida, senão por agradar da melhor maneira aos varões? Não é essa a razão de tantos cuidados, enfeites, banhos, perfumes, penteados, cosméticos, cremes, pinturas, de tanta arte no embelezamento do rosto e dos olhos? Não é a Loucura a deusa que lhes entrega da melhor maneira os varões submissos? Que é que eles não prometem às mulheres, e que é que eles não lhes permitem? E tudo isto em troca de quê, se não de voluptuosidade? Quem permite todas estas delícias é a estultícia. Basta reparar na figura que o varão faz, e nas tolices que diz à mulher quando pretende obter a volúpia que ela concede.»*

Posto isto, caro António, conte comigo. Ambos sabemos que a batalha está perdida. Mas há lá melhor e mais doce maneira de morrer!

* ERASMO de Roterdão, Elogio da Loucura (1508), cap. XVI e XVII.

Comentários a “Em defesa do bom António — com o risco da própria vida!” (3)

  1. Turmalina diz:

    Caro Gonçalo, prefiro honestamente a posição do Mr. Orcama, o da conciliação, desde que observadas as reclamações dos lados envolvidos na questão.
    E machismos, concessões e volúpias à parte, concordo com Erasmo quando ele diz que a Loucura é que nos entrega da melhor maneira os varões submissos. Se não fosse assim seria de fato difícil recebê-los sob certas circunstâncias.
    Segundo Edward O. Wilson, considerado o pai da sociobiologia as mulheres tendem a ser melhores que os homens em empatia, habilidades verbais, e de proteção, enquanto que os homens tendem a ser melhores em habilidades de dominação e nas de agressão relacionada a hierarquia.
    E, particularmente acho melhor ser duas vezes louca do que ceder à artifícios de dominação.

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Turmalina, julgo que concordará que o pior de tudo é termos (nós, os homens) «as formas rudes e — sobretudo — a cútis híspida». :)

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Agora que percebi the general idea, diga-me aqui uma coisa, Gonçalo: onde diabo é que você descortinou o meu «sofrido e abnegado silêncio»?
    É que só faltaram mesmo as vuvuzelas, caneco!
    Acho que vou mudar a foto de ontem — para não parecer publicidade enganosa…

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