Só pode ser da crise. Não a que está lá fora e que é de todos. Mas a que é só minha e de mais uns quantos (ainda assim, uns milhões, julgo eu) que evidenciam semelhantes sintomas. Chamam-lhe crise de meia-idade.
Tudo começou, parece, com a colecção de cromos do Mundial. A do Mundial de 2010 na África do Sul, bem entendido. Há precisamente 32 anos, tinha acabado de colar o último cromo (já não me lembro se foi o Bettega, o Lato, o Cubillas ou o Rensenbrink) da última colecção (de cromos) a que dediquei tempo e dinheiro: a do Mundial… da Argentina, em 1978! Já tinha idade para ter juízo, dizem-me agora insistentemente, enquanto me vêm – no escritório, na rua, em casa de amigos e por aí fora – a disputar os cromos mais raros com outros coleccionadores bem mais jovens (a propósito: ainda me faltam perto de 40, alguém tem para a troca?).
Mas o problema não seria grave se tudo ficasse por aí. Mas não ficou. Numa destas últimas noites decidi ir ver e ouvir ao vivo, no Optimus Alive, a grande revelação musical de 2009: os (The) XX, que para além de outros méritos têm a vantagem de me trazer à memória aquele que, na minha pessoalíssima opinião, foi o mais envolvente som de guitarra dos anos 80, o de Robert Smith dos (The) Cure. Como alguns saberão, os XX têm ainda uma outra particularidade, a de nenhum dos seus elementos ter mais de 20 anos de idade, o que torna verdadeiramente surpreendente, para além da excelência das suas canções, a maturidade que apresentam em disco e em palco. Mas o que me chocou não foi o facto de me ter visto rodeado, durante o concerto, de milhares de borbulhas juvenis que ameaçavam rebentar a cada acorde da guitarra ou do baixo. O que me fez espécie, sim, foi o de, pela primeira e única vez na minha já considerável existência de melómano modesto, o meu cérebro ter formulado a mais abominável das expressões, aquela da qual fujo como diabo na cruz: sim, o terrível “no meu tempo”, que pode ainda assumir uma variante ainda mais grave, a do “nosso tempo”. Há anos que receava este momento e a verdade é que ele, mais tarde ou mais cedo, teria de me dar as suas boas vindas. Dizer “no meu tempo” ou “no nosso tempo” era, para mim, a pior das pragas que me podiam rogar, pois representava a entrada irremediável no cárcere do passado, o prenúncio sério de uma nova fase da minha vida em que já nada teria a esperar do presente ou do futuro e tudo da recordação daquilo que já ouvira (e quanto mais remotas fossem essas recordações, mais vibrantes seriam aos meus ouvidos). Que o meu cérebro se tenha lembrado de cogitar “no meu tempo” a propósito das recordações dos eighties dos Cure para que me remetem os XX em nada diminui a gravidade do episódio. Já me imaginava igual àquelas velhas carcaças que encontrara 25 anos depois, encostados no mesmíssimo balcão do mesmíssimo bar, com as mesmíssimas camisas aos quadrados e os mesmíssimos sapatos de vela, a quem o tempo mumificara mas não se esquecera de tirar cabelo e acrescentar uma barriga proeminente. Os tais tipos que eu sempre desdenhara por terem “ficado nos Genesis e nos Pink Floyd” (com todo o respeito que me merecem os Genesis com Peter Gabriel e os Pink Floyd com Roger Waters). Igual a eles, gozado, agora e daqui a 10 anos, por todos aqueles com quem troco cromos como “o tipo que ficou nos Cure”.
Felizmente, um exame mais atento do “tempo” a que eu me referira fez-me perceber que tudo não passou de falso alarme: depois de ouvir os antigos Cure e os modernos XX, chego à inevitável conclusão que os primeiros existiram antes do seu tempo, ou se preferirem que o seu “tempo” não tem tempo. São ouvidos agora como o foram há mais de 20 anos e o serão daqui a 20. São simplesmente intemporais. Ouçam o intemporal Pictures of You do igualmente intemporal álbum Disintegration de 1989 e concluam os caros leitores/ouvintes por si próprios. Já quanto aos XX não estou assim tão seguro que resistam ao teste do segundo álbum.

















Diogo, lamento muito e muito os álbuns não serem os mesmos (Brasil e Portugal), eu poderia lhe enviar cromos e cromos…estou afogada no excesso deles, já que tenho filho, irmão e cunhado que se empenharam e preencheram seus respectivos álbuns.
Quanto às peças do cérebro e suas frases fatais, desde os dezesseis formulo: “no meu tempo”, que é sempre outro que não o meu mesmo. Ou ainda, é sempre o meu que não é o que vivo. Chega de confissões, se quiser preencher o álbum com figurinhas brasileiras é só avisar…
Luciana, como não é a mesma a caderneta? Achei que a coleccção era só uma em todo o mundo, a da Panini e mais nenhuma…
Diogo, é Panini mesmo, acabei de ver no verso do álbum. Terei enorme prazer em enviar os que você precisar, mande dizer o número dos cromos que quer (a Joana tem meu email ou no facebook)…
De acordo, há realmente algumas coisas que serão sempre do tempo dos que delas gostam, seja agora ou daqui a cem anos.
O meu filho de 17 anos adora Hendrix, no mínimo tanto quanto eu.
Muito bons XX’s.
Ainda bem que gostou dos XX, António. Dos Cure nem preciso perguntar claro.
Diogo, lamento informar que it’s all in the head — às vezes na barrguita também, o que patentemente não é o seu caso :) E o problema não é tanto o “no meu tempo” (e afins) que volta e meia nos sai, mas essas jurássicas entoação e conotação, bem como a constatação que se segue — todas a evitar a todo o custo!
É claro que o tempo passa e depressa. E que essa constatação às vezes é inevitável e propicia situações no mínimo delirantes, como a que me aconteceu este ano no início de um semestre… Apresentei-me toda contente com a tirada que há 20 anos (pois!!!!) uso como infalível ice-breaker: “formei-me aqui na Faculdade, em 1990, o que faz de mim uma pessoa muito antiga”. Seguem-se normalmente risos, exclamações, olhares de incredulidade. É evidente que a setora não é tal! Só que desta vez … nada! Olhavam fixamente para mim. Não os percebo, pensei. Ou eles a mim. Whatever. Prossegui, amigável, e inquiri “então e vocês, digam lá, em que ano estão, que idade têm … ” Silêncio sepulcral, quebrado longos segundos depois por um rapazinho mais afoito que, meio encabulado, anunciou “nós nascemos quase todos em 1990, mas também há uns de 1991 … !” Foi lindo!
PS — Ficou enorme o comentário porque pus as músicas a tocar enquanto o escrevia e resolvi ouvir duas vezes os Cure … Fantásticos!!!
A minha barriga agradece… contraída!
Eu não punha as mãos no fogo pela barriga do Diogo. Mas não é isso que me traz cá. O Manuel, citou algures por aí uma frase do Calvino de que gosto muito: «Os clássicos são livros de que se costuma ouvir dizer «Estou a reler…» e nunca «Estou a ler…»; «Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer».
Parafraseando Calvino (o Italo, bem entendido), ninguém pode ouvir Friday I’m in Love. Mas toda a gente é livre de voltar a ouvir Friday I’m in Love. Que é como quem diz:
I don’t care if Monday’s blue
Tuesday’s gray and Wednesday too
Thursday I don’t care about you
It’s Friday, I’m in love
Pedro, não me parece normal distraíres-te com a minha barriga enquanto voltas a ouvir um clássico tão inspirador…
Eram os anos 80 e o The Cure estouraram nos porões do Bixiga: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bixiga.
Por ser um bairro antigo, populoso e tradicional, os bares funcionavam nos porões para não atrapalhar os vizinhos. Era literalmente uma parte underground da cidade.Foi lá que escutei pela primeira vez, The Cure, The Clash, e Joy Division.Bons e velhos tempos, se bem que eu sou naturalmente saudosista.
Turmalina, mesmo sem Bixiga, aqui ou aí a música dos Cure, Joy Division, Clash e outros confundia-se, naqueles tempos, com a própria vida.
No meu tempo, coleccionava os cromos do The Muppet Show, os Cure eram intragáveis mas havia Wham! e Duran Duran. E sim, no meu tempo as coisas eram boas ao ponto da saudade que eu só aprendo “neste” tempo.
Blonde: se os Cure lhe pareciam “intragáveis”, o “seu” e o “meu” tempo nunca se cruzaram. Mas, enfim, nada que me espante, naqueles tempos o círculo dos admiradores de Robert Smith não era tão largo como hoje é. E eu gostava que assim fosse, de ter uma sensação de quase exclusivo sobre aquilo que ouvia.