Chris Mburu-Back

No início dos anos 70, Hilde, uma jovem professora primária de origem judia, nascida na Alemanha e refugiada na Suécia, decide participar num programa internacional patrocinado pelo governo Sueco. O programa, tem como objectivo ajudar crianças de comunidades rurais no Quénia que necessitam de ajuda económica para prosseguirem os seus estudos secundários. Uma vez integrada no programa, e até aos dias de hoje, Hilde contribui do seu bolso a quantia de 15 dólares por mês. Não é rica mas através de uma atenta economia caseira, nunca falha um pagamento.

Hilde Back

No final dos anos 70, Chris Mburu, uma criança de uma miserável aldeia no Quénia, começa a receber ajuda financeira de um distante e rico sponsor residente na Suécia, e com isso, prossegue determinado os seus estudos através do sistema educativo Queniano, até vir a ser admitido no curso de direito da Universidade de Nairobi e por fim num curso de pós-graduação em Harvard. Na sua determinação e vontade de mudar o estado em que o seu continente de origem se encontra, candidata-se a uma posição na Organização das Nações Unidas e uma vez aceite, dedica toda a sua carreira e energia na defesa dos direitos do homem e no combate ao genocídio, fenómeno que por uma sinistra coincidência, durante os anos 40, tinha destruído a família daquela que Chris sabe agora ser a sua generosa protectora.

Chris Mburu

 Em 2001, Chris criou um fundo que nasce do seu desejo de retribuir de alguma forma a generosidade que lhe permitiu ser o que é hoje. O fundo chama-se Hilde Back Education Fund e todos os anos ajuda dezenas de famílias a pagar os estudos de crianças que, tendo revelado enormes aptidões intelectuais, não podem dedicar-se em pleno aos estudos e à sua própria educação, devido à falta de meios económicos. Quando o criou, fê-lo de forma altruísta e em honra de uma pessoa que nunca tinha visto e de quem conhecia apenas o nome. Nos anos que se seguiram, procurou e encontrou uma muito estupefacta e octogenária Hilda, de quem se tornou grande amigo e, de alguma forma, o filho que esta nunca teve.

Soa um bocadinho a romance de faca e alguidar? Sim. E é por isso mesmo que é fantástico. Desta maravilhosa história foi feito o documentário de que deixo o trailer aqui em baixo e que acabou seleccionado este ano pelo Sundance Festival.

“A Small Act” — Jennifer Arnold, 2010

PS: Estas coisas não se dizem, mas o meu irremediável orgulho impede-me a contenção. Nos últimos anos, tornei-me, num contributing angel da UNHCR. Contribuo com uma (demasiado pequena) doação mensal, trago no pulso uma daquelas ridículas pulseiras de plástico azuis e quando vejo os voluntários da UNHCR na televisão, a distribuir comida e mantimentos a crianças refugiadas, penso que de alguma forma também lá estou. Fico-me por aqui. Podem guardar a faca e o alguidar.

Comentários a “Chris Mburu-Back” (10)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Ó Vasco, isto é que é uma história que merece ser contada!
    Já agora, e imaginanado que qualquer contribuição será útil, como se pode contribuir?
    Acho que haverá interessados em saber.
    Parabéns, grande ideia.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Vasco, que maravilha!

    Uma das coisas que mais me impressiona nestes programas de ajuda humanitária é o tanto que se pode fazer e ajudar com o que para nós é tão pouco. Fico sempre estarrecida com os números da UNICEF, aqueles a que vou tendo acesso, sobre a imensidão de crianças que escassos euros permitem vacinar, curar, fazer aceder a água potável, mandar à escola …

    E quais faca e alguidar, kleenex! Ainda sem pousar o meu, faço minha a pergunta do António: como é que se faz, para ajudar — e, ok, nobody’s perfect - de caminho, nos tornarmos angels e obtermos a tal pulseira ;)?

  3. Turmalina diz:

    Tragam a faca e o alguidar, mesmo sem ter certeza do que isto significa, que não vai fazer diferença alguma. Tenho espírito humanitário por natureza, desde criancinha. Minha mãe dizia que eu chegava à ser irritante…não sei se mudei muito…
    Ajudo aqui e ali, além da UNICEF, uma parente próxima da UNHCR. Fui a única pessoa do meu convívio que ajudou, numa contribuição única, com 30,00 reais (acho que algo em torno de 10 euros) para as crianças atendidas pela entidade no Haiti. E não pensem que fiquei livre de críticas. Os mais céticos me disseram que este dinheiro nunca chegaria à elas. Mas é preciso acreditar para que histórias de sucesso como essa do Chris e da Hilde aconteçam. E como você, Vasco, quando vejo as barracas da UNICEF espalhadas pelo mundo, indo aonde ninguém vai, também me sinto parte.Porque continuo contribuindo com a entidade mensalmente.Meu cartão de crédito me dá pontos que são convertidos em dinheiro, cadernos, remédios, vacinas e alimentos para a UNICEF. Eu não preciso dos bônus da administradora de cartões ou um novo conjunto de facas ou cafeteira, mas eles sim precisam de cada centavo arrecadado.
    E também ajudo um abrigo que cuida de crianças portadoras do HIV. E garanto que é possível para qualquer um, basta querer.E lá, por estar próximo, o auxílio é muito mais que material, envolve carinho e abraços. Todos deviam experimentar, é algo libertador, mudamos radicalmente nossa visão do mundo e da vida ao nos aproximarmos.
    Bem, acho que já tagarelei demais…meu festival favorito é o Sundance, adoro documentários e acredito que o mundo precisa que sejam divulgadas mais atitudes como essa.Porque de guerras e barbáries já estamos cheios.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Turmalina, faca e alguidar tem que ver com sangue, ciúmes, facadas, crimes passionais (lembra-se daquele recente post da Eugénia?).
      Mas também com tudo o que puxa e provoca emoções intensas, extremas, descontroladas, básicas e fáceis — justamente o contrário daquilo que o nosso além do mais modesto Vasco fez connosco neste belíssimo e tocante post!

      PS — Creio, mas não estou certa — o Orcama saberá e terá o link … — que a origem de faca e alguidar é culinária: eu penso sempre naquelas cenas de matar o frango ou o perú para logo de seguida o cozinhar (alguns pratos da nossa cozinha tradicional utilizam o próprio sangue do animal, como o arroz de cabidela ou as papas de sarrabulho, daí a necessidade de o recolher no alguidar, não o desperdiçando)

  4. Luciana diz:

    Vasco,

    creio que ultrapassamos o tempo em que mãos direitas e esquerdas não deviam saber uma da outra. Seus posts têm me inspirado e comovido. Há muito pra fazer e se dar das mais variadas formas. Em dinheiro, sim e também. Obrigada por partilhar histórias e idéias. “As coisas que admiro neste extraordinário blog!”

    • Turmalina diz:

      Sabe, Luciana, eu era adepta da máxima que o que a mão direita dá a esquerda não deve saber até descobrir que muita gente se sente impelido a doar se sabe que você doa. Não deveria ser assim..mas enfim, se é assim que funciona, assim será :o)
      Experimente…sabe que eu comecei perguntando o que as pessoas faziam com as roupas e sapatos que não cabiam mais. Hoje a minha lista inclui além do material usado, alguns novos como material escolar, leite em pó, fraldas, chupetas, mamadeiras, sabonetes e escovas de dente até fogão, geladeira, microondas, camas e guarda roupas.

      • Luciana diz:

        Turmalina, apesar de não adepta da máxima, esqueço de não a seguir. Enfim, já cresci doando (tenho pais incríveis) e, sem que eu mesma seja incrível, meu filho não tem mais do que uma bola e talvez um brinquedo ou dois. Todos os demais, que ganha incessantemente dos tios, ele sempre doa para o orfanato que acompanhamos. Também fazemos doações pra um leprosário, que visitamos regulamente (agora, com mais dificuldade já que estou em outra cidade). E contribuo mensalmente com o Hospital do Câncer e com o IPREDE. Mas, de tudo, o que mais gosto é do asilo de idosos, não dôo nada material, nem dinheiro, nós apenas vamos e conversamos e fazemos festa de S. João e de Natal e Páscoa e tudo mais que dá na venta. E dançamos. E ouvimos histórias. E aprendemos. E rimos. E dar meu próprio tempo e coração é o que mais gosto.

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