O Zé Navarro deixou-nos a todos em suspenso. Com o denso e decerto sinistro enredo que envolveria a retraída Emília e o execrável Dr. Ramiro. E que permitia a este, com indiscutível grosseria mas, sobretudo, com aparente e intrigante impunidade, destratá-la e embaraçá-la em público. Sem que aquela em quem ele “cravara a alcunha de Tia Tula”, reiterada e cruelmente acossada, esboçasse a menor reacção. “Porque motivo o Dr. Ramiro tomara aquela mulher de ponta e porque razão ela nunca desencadeara uma vingança, eis um segredo que só a eles pertencia”. Pois sim.
Movida pela curiosidade fui a casa dos meus pais e surripiei a Tia Tula, de Miguel de Unamuno. Li-o duma assentada. Gostei muito. Mas quanto a pistas para resolver este enigma é que fiquei na mesma. Dificilmente Gertrudes (Tula), encaixa no papel desta Emília acossada e resignada. Uma e outra, é certo, renunciam cedo demais e por motivos incompreensíveis à sua feminilidade. A verdade, porém, é que Gertrudes (Tula), ao contrário desta Emília, vai mantendo um férreo controlo dos acontecimentos e da vida dos que a rodeiam. À primeira vista movida por uma obsessão com a pureza e a virtude, mas na realidade dominada por um desmedido orgulho que a impede de ultrapassar o facto de Ramiro se ter primeiro aproximado de sua casa atraído pela beleza exuberante de Rosa, sua irmã. Por isso o castiga, negando-se-lhe – e, de caminho, negando-se a si mesma, como amargamente o vem, mais tarde, a admitir – e impelindo-o a casar com as duas mulheres por quem o pobre, atordoado com a sua irredutível recusa, se acaba por se deixar atrair (Rosa, a sua própria irmã e Manuela, a criada). Mas mantendo-se sempre por perto, tão perto, como mãe extremosa e puríssima dos seus filhos, dos cinco filhos que Ramiro vai tendo com as suas desventuradas mulheres. O papel supremo que para si reserva e a que se dedica por inteiro. E que, junto com a ideia de que constantemente Ramiro sofrerá pensando nela e no que perdeu, são a sua afinal bem magra consolação.
Aqui a história parece ser bem outra. Tudo aponta para que alguma coisa tenha acontecido. Escandalosa, porventura ilícita, quem sabe mesmo obscena. Alguma coisa que o Dr. Ramiro sabe. E que Emília preferiria que não. Mas, entre ambos? Ou envolvendo terceiros, terceiras? E porquê esta insistência – despeitada? magoada? rancorosa? – em atormentar uma mulher que, em princípio, lhe surgiria desprovida de qualquer interesse? Porque é que patentemente Emília não é indiferente ao Dr. Ramiro? E porque se deixa ela enxovalhar assim? O que teme Emília?
Desafio todos os mortinhos de curiosidade — como eu — a apresentarem aqui a sua versão, uma explicação, um pequeno contributo que seja que lance alguma luz sobre esta turva situação.
E peço encarecidamente ao Zé que não nos deixe às escuras e nos ajude a desvendar este mistério. Quanto mais não seja dando também o seu – qualificado e altamente autorizado, já se sabe – palpite.
Para que possamos ir de férias mais tranquilos.


















A tia Tula!!!!! Há quantos anos não ouvia — neste caso, lia — esse nome…
Olá Coelho Branco … não vai querer arrsicar um palpite sobre o enigma que envolve “esta” Tia Tula?
Joana, é óbvio que o Zé quis fazer de David Lynch e todos nós caímos na armadilha. Mas ainda bem que existem penas (teclas) como as suas que deixam entrar a luz pelas narrativas mais sombrias. E quanto ao desafio, alguma coisa me diz que a Joana não nos disse tudo o que tinha para dizer sobre o mistério. Estará conluiada com o Zé? O meu contributo virá ainda hoje (ainda tenho a minha história p contar)…
Fico à espera, Diogo. A morrer de curiosidade, claro. E a pensar também na minha teoria sobre este estranho caso, que cada vez me parece mais difícl de deslindar…
Eu acho que sei!
Emília é hermafrodita e o rasteiro e machista dr. Ramiro é o único que sabe do facto…
Assenta perfeitamnente, Xoana, tem de concordar.
Olá António, o que eu gostei:
1 — do “rasteiro e machista! aplicados ao vil sujeito
2 — da sua extraordinária tese que, tal como a relativa ao Zé Matias, perfeitamente assenta nos factos — o que nem por isso as torna, a esta e à outra, menos extraordinárias…
3 — da versão galega de moi :)
Só faltou explicar como fez o Dr. Ramiro tal descoberta… Com o consentimento da Emília? No lo creo …
Xoana (ainda bem que gostou da galeguice): O dr. Ramiro soube, por portas travessas, Tula tinha sido registada como «sexo masculinho» — o que depois, mais tarde, teve de ser alterado pelas vias públicas ordinárias dado se ter verificado que, anatomicamente, ela era muito mais mulher do que homem…
A malta dos registos era tramada nesses tempos…
Melhor assim, António, a história. Muito melhor. O Dr. Ramiro, irrecuperável traste. A pobre Emília, afinal mulher e afinal séria. E uma situação realmente embaraçosa …
Eu espero, Joana, que seu pedido seja ouvido e atendido com mais atenção que o meu, pois cruelmente o Zé negou-me tal revelação…
Mas Luciana, minha boa amiga o que vem a ser isto? Sentadinha na espreguiçadeira à espera que o cruel Zé e o resto da malta morta lhe revelem o mistério? E então a sua teoria? A sua explicação para este bizarro comportamento, tanto do grosseiro Dr. Ramiro como da recatada (?) Emília? Cadê? Estamos à espera, não pense que escapa …
Eu alvitro que o Dr. Ramiro apanhou em tempos idos a Tia Tula na sacristia da igreja, já depois da hora de expediente, se bem me faço entender…
Pois sim estimado Orcama, alvitra bem, mas alvitra pouco … e não, não se faz nada entender. Ora seja lá um bocadinho mais concreto: ele apanhou-a na sacristia fora de horas
a) e tentou seduzi-la, mas ela fugiu horrorizada e ainda hoje não recuperou do trauma de ter aquele sujeito repugnante a agarrá-la e a tentar beijá-la e não quer que se saiba, para que se não especule sobre o que NÃO aconteceu (ele, claro, levou a tampa da vida dele e está despeitado)
b) tentou a sua sorte e ela, sem que ainda hoje saiba porquê, cedeu ao cabo de algumas investidas … depois fugiu espavorida e não mas quis vê-lo ou sequer falar no assunto, apesar das reiteradas tentativas do Dr. Ramiro, que sempre tivera uma secreta fixação nela e que não consegue abstrair de tão arisca mulher …
c) e surpreendeu Emília em atitudes muy subidas de tono com alguém que, ai se o Dr. Ramiro falasse, ninguém nunca acreditaria: o pobre homem ainda hoje não recuperou do choque e por isso faz aquele número todo: é uma cena meia catártica; quanto a ela, mantém o caso e ignora as provocações, porque sabe que dali nunca lhe virá grande mal … mas se pudesse, matava-o, claro.
C, C, C!!!
Eu apenas quis introduzir algo de Queirosiano na trama, isto é, no enredo… Leiriense, se bem me faço entender…
A tia Tula, por detrás daquela máscara de cera, é muito mais mulher…
Sim, sim e sim. Enredos palusíveis que permitem um fecho à escolha.
Muy boníssimo! Y olé!