Amanhã vai chover

Nova Iorque no final do séc. XX (1911)

Um dos mais maravilhosos — e embaraçantes — blogs da Noosesfera é o Paleo-Future, “A look into the future that never was”. Aqui se recolhem as imagens de como o futuro foi previsto no passado, ou seja, tal como sucede como uma enormíssima parte (para ser tímido) das previsões, de um futuro que nunca aconteceu, que não foi assim porque, sabemo-lo hoje com insolente evidência, nunca poderia ter sido assim.
Por esta altura já devíamos ter aprendido que a nossa capacidade de conhecer é limitada e ainda mais se estreita quando se trata de conjeturar a evolução das coisas. Claro que isto é aterrador, pelo que temos inventado muitas maneiras de deliberadamente nos iludirmos. Por exemplo, a mais recente trapaça é a dos gurus, que vivem de dizer uns palpites muito bem apresentados sobre as novas e radiantes oportunidades de uma qualquer linha de  negócio nos próximos 10 anos. O principal ingrediente do truque — como em todas as burlas — é a sua plausibilidade. Olhando para o que está agora à nossa volta, parece mesmo que vai ser assim como ele diz, já amanhã. Claro que os profissionais, aqueles que estão enterrados até aos gorgomilos nesse setor, costumam ser ora céticos, ora comedidos, o que, no linguajar dos gurus significa que resistem à inovação e estão impreparados para a mudança — e são uns chatos.
Onde está o logro? No facto, demasiado regular para ser admirável como ainda resistimos a reparar nele, de o futuro ser bastante incrível e nada sensato — só um idiota seria capaz de garantir há 30 anos que os telefones iriam ser uma cash cow. Não, não se estava mesmo a ver…
Nenhum dos quadrinhos aqui expostos e pilhados de Paleo-Future, é desvairado ou incongruente. Bem pelo contrário, cada um deles faz uma extrapolação razoável das tendências que no seu tempo eram mais necessárias e pareciam mais aptas a desenvolverem-se, tanto tecnológica como comercial e socialmente. Pois nada.
Decerto o leitor já adivinhou que este post vai concluir afirmando que um político, cuja atividade  é a mais volúvel das matérias, capaz de ir ao ponto de anunciar as medidas infalíveis para resolver qualquer assunto, não passa de um charlatão. Mesmo que ele acreditasse no que diz.

As casas de hoje imaginadas em 1979

Comentários a “Amanhã vai chover” (2)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Acho que o Schopenhauer disse qualquer coisa como «o futuro é o conjunto de muito presentes fugidos do passdo». Nessa perspectiva, os políticos são jogadores que apostam que o seu tipo de presente vingará no futuro. O problema é que são muitos a pensarem o mesmo…
    A propósito disto — a imagem é fabulosa e Paleo-Future também — vou meter uma coisinha que fala desse não menos espantoso mundo que é a astrologia económica.

  2. Vasco Grilo diz:

    Gosto muito destas coisas. Estupendo site. Thanks!

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