A Fogosa Cortesã Fillide

A menina deste quadro já não é. Não porque tenha morrido, coisa que obviamente também terá feito. Mas porque ardeu. Chamava-se, ao que parece, Fillide. Fillide Melandroni. Cortesã, que era a forma politicamente correcta de dizer “prostituta” no séc XVII. Terá sido amante do nosso Michelangelo Merisi que lhe pintou o retrato a troco de sexuais favores. Que a bela Fillide vendia também a Giulio Strozzi, nobre Florentino que haveria de herdar o quadro antes de este rumar à colecção de Vincenzo Giustiniani. Tudo antes de a tela voltar a mudar de ares e entrar no Kaiser-Friederich Museum, em Berlim, onde viria a perder prematuramente a vida durante a Segunda Grande Guerra.

Hoje podemos apenas imaginar a beleza chiaroscura de Fillide através das raras fotografias que sobreviveram à destruição da cidade. O que perdeu em vivacidade cromática, a cortesã de Siena ganhou em romântico mistério. E eu, que gosto de coisas perdidas para todo o sempre, encontro-lhe, precisamente porque já não é, uma imortal beleza. Deve ser dos jasmins que cola ao peito e que o António jurarará que são rosas, senhor. E eu digo-lhe que sim. Que tudo isto são, no fundo, eternos milagres.



Comentários a “A Fogosa Cortesã Fillide” (8)

  1. Luciana diz:

    Pedro, que texto terno, daquelas ternuras de roçar a face com o verso da mão, de perder os olhos em paisagens internas, de tocar blues de LPs…um grande prazer ler e reler.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Extraordinária história, a deste quadro, do princípio ao fim. E que bem escolhida a imagem a preto e branco, a realçar a sua densa aura de mistério.

    PS — Definetely jasmine, the flowers, informa a irrefutável Wiki, louvando-se na categórica autoridade de um Caravaggio scholar.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Não juro nada, Pedro!
    Se mal as vejo… E há quem chame jasmim a um tipo de gardénias que podem passar por rosas (a uma certa distância, porque perto têm um cheiro bom mas muito mais intenso. Ex: jasmim do Cabo)
    A história é fantástica.

  4. Turmalina diz:

    E que bom que existem pessoas que gostem de coisas perdidas…eu juro que não consegui ver direito a flor/rosa/jasmim da imagem. Mas de longe me parece mesmo jasmim. Mas não o do Cabo, que mais parece uma gardênia. E sim o Jasmim-dos-poetas, que na verdade e coincidentemente é uma trepadeira: http://www.casaecia.arq.br/trepadeiras9.htm

    • Pedro Norton diz:

      Trurmalina, as coisas perdidas, tal como as causas perdidas, têm um encanto especial. Como já não são, nem podem ser, podemos fazer delas o que quisermos.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Exacto, Turmalina, o que eu tenho é o Antigonon-amor-agarradinho, que também cheira como o jasmim/gardénia do Cabo mas menos intensamente. Mas não pode ser o mesmo que o efebo-do-lagarto-que-lhe-mordeu-sabe-se-lá-onde usava graciosamente nos cabelos desenvoltos… Esse sim, pode ser confundido com rosas pequenas (de toucado) ou com a flor do jasmim do Cabo.
    http://luxuriante.wordpress.com/2008/02/29/jasmim-do-cabogardenia/

    • Turmalina diz:

      …kkkk…havia quase me esquecido do referido efebo. Acho lindo o amor agarradinho, só não sabia que era também perfumado. Tive em casa o jasmim amarelo (Jasminum mesnyi), mas esse não exala perfume algum.E o jasmim do Cabo é a flor preferida da minha mãe.

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