Faço aqui uma muito breve reflexão sobre as famosas cinco vias propostas por São Tomás de Aquino para demonstrar a existência de Deus, que mais atrás traduzi, de algum modo em diálogo com alguns textos e comentários entretanto feitos neste nosso blog à volta deste mesmo tema.
O primeiro ponto para o qual julgo ser importante chamar a atenção é o facto de São Tomás começar a Summa Theologiae com a questão da existência de Deus. É com ela, com efeito, que inaugura o conjunto de questões dedicadas à compreensão de um Deus cuja essência – como o próprio expressamente afirma – é existir (Ex. 3, 14).
O que está em causa, portanto, não é uma questão conceptual – isto é, a compreensão intelectual da realidade essencial de um ser do qual estamos separados –, mas uma questão existencial – isto é, a apreensão vital da realidade essencial de um ser no qual, ou com o qual, estamos lançados.
Para nós, porém, que somos seres espiritualmente limitados, a existência de uma totalidade capaz de dar sentido a tudo aquilo que nos aparece sendo – à qual costuma chamar-se Deus – não é de nenhum modo evidente. Pelo contrário, temos de conhecê-la a partir dos seus efeitos, que são tudo aquilo que nos é imediatamente dado conhecer (Summa Theologiae, Ia, 2, 1–2).
O conhecimento humano, portanto, implica a fé. É a partir dela, com efeito, que procuramos compreender a realidade na qual estamos lançados desejando ser felizes. Podemos obviamente divergir na determinação do que seja a felicidade – Deus, o amor, o prazer, o dinheiro, o poder… –, mas julgo que devemos concordar nisto: a nossa relação com a realidade implica a fé.
É a partir das crenças que temos naquilo em que julgamos consistir o nosso bem, com efeito, que tentamos equilibrar-nos nessa realidade que de algum modo nos antecede e que a partir de nós se projecta. Esta é uma importantíssima lição medieval que, quer contra o essencialismo moderno – que, elevado a ideais alturas, se perdeu da realidade humana –, quer contra o existencialismo do século XX – que, com medo de maiores vertigens, negou as alturas de Deus –, urge, hoje, reaprender e recuperar.
O facto de todas as nossas acções serem informadas por uma escolha original que procede radicalmente da fé, porém, não implica a desconformidade desta escolha nem com a inteligência nem com a experiência. Pelo contrário, é próprio dos ensinamentos cristãos a afirmação de uma relação íntima entre a fé, a razão e a realidade, de tal maneira que a fé impregna a razão que se confirma, ou infirma, na realidade.*
Assim, se é verdade que só por via de uma sobrenatural existência de Deus São Tomás encontra uma explicação para tudo aquilo que existe, não é menos verdade que o ponto de partida do seu questionamento é a misteriosa existência do ser que naturalmente nos é dado experimentar.
As cinco vias para o conhecimento da existência de Deus que nos propõe, neste sentido, reflectem o processo de manifestação do ser, o qual surge, antes do mais, como movimento, a partir do que percebemos que existem causas produtoras, ou eficientes, de entre as quais conhecemos que umas são possíveis e outras necessárias, distinguimos diferentes graus de perfeição e verificamos que existe uma ordem racional que governa todas as coisas (Summa Theologiae, Ia, 2, 3).
O que aqui quero ainda especialmente notar, no entanto, é que cada uma destas cinco etapas da experiência do ser só se revela como um caminho para Deus se e quando a pensamos por relação ao infinito. Ora, o que afirmo é que se o argumento proposto em todas as cinco vias é a reductio ad infinitum é porque a principal qualidade atribuída pelos cristãos àquilo que dizemos por meio do nome Deus é justamente a infinitude.**
Para os cristãos, com efeito, Deus é a existência da infinitude. Isto percebe-se melhor se repararmos que a capacidade para pensar o infinito, que expressamente apareceu na Grécia logo a partir de Anaximandro (para quem o infinito, ou ilimitado, ou apéiron, era o princípio de todas as coisas), não encontrou um correspondente espiritual concreto até ao momento em que a filosofia grega se cruzou com a religião judaico-cristã no seio do império romano.
Até então, com efeito, o facto de um determinado Deus não ser omnipotente (isto é, infinitamente poderoso), ou de, consequentemente, poder pecar e/ou ser responsável pelos pecados de alguém (isto é, não ser infinitamente bom), não representava um qualquer problema para aqueles que tinham nesse Deus a sua fé.
Para os cristãos, porém, Deus é o criador de todas coisas, tanto visíveis como invisíveis, em relação com as quais diversamente mostra este seu mesmo traço distintivo: a infinitude. Deus dir-se-á, assim, óptimo máximo, omnipresente, omnipotente, omnisciente, maximamente perfeito, sumamente bom, sumamente belo, soberano bem, etc.
Ora, foi a partir desta plenitude do Deus cristão, da qual adequadamente participamos (Jo. 1, 16), que radicalmente se pôs na história a questão da liberdade humana, tanto de um modo positivo – segundo o qual o valor da liberdade humana se reconhece a partir da sua semelhança ontológica com a liberdade de Deus –, como de um modo negativo – segundo o qual a liberdade humana não pode ser mais do que uma obediência consciente à vontade de um Deus todo-poderoso.
É na solução deste paradoxo que a igreja cristã existe e deve hoje redescobrir-se. O terrível erro histórico do qual sempre participaram tanto os chefes das igrejas como os das nações – e que a época moderna elevou até à loucura do totalitarismo – foi o de pretender absolutamente infinito um só dos termos da proposição: ou somos livres e então não pode haver autoridade, ou existe autoridade e então nós não somos livres.
Há que distinguir, porém, a liberdade política, pela qual escolhemos o que somos na ordem do tempo, e a liberdade religiosa, pela qual escolhemos o que somos na ordem do espírito. Na primeira, partimos da essência para a existência (quase à maneira do desenvolvimento hegeliano da ideia), de tal maneira que realizamos as formas nas quais somos abstracta mas naturalmente dados. Na segunda, partimos da existência para a essência, de tal maneira que criamos sobrenaturalmente novas formas naturais.
As duas liberdades, assim, embora sendo distintas, relacionam-se necessariamente no mundo, no qual se põem, se dão e se opõem. É neste sentido que se pode compreender o que dissemos, nomeadamente que a essência do cristianismo é existir, de tal maneira que a sua igreja se mostre no mundo, mas sem ser deste mundo (Jo. 18, 36), no qual, partindo somente da fragilidade do amor, dê testemunho da ressurreição de Jesus Cristo (Act. 1, 22; 2, 32; 3, 15; 4, 33; etc.), curando e convertendo pela fé com palavras de vida (Act. 5, 20).
* Penso, aliás, que é este o impulso fundamental do qual nascerá a ciência moderna. Impulso fundamental não quer dizer, porém, que não haja outros, como, por exemplo, a concepção determinável do infinito, de que já seguir falaremos, os contributos da filosofia grega, etc.
** Infinitude não quer aqui dizer a ausência de limites físicos, ou espaciais (questão que São Tomás expressamente trata na questão 7 desta primeira parte da Summa Theologiae), e muito menos que Deus seja algo incompleto, ou indeterminado. Infinitude refere-se aqui à irrestrita perfeição das qualidades, das operações e do poder divinos, os quais se dizem negativamente (in = não) apenas por causa do nosso modo limitado de conhecer – e não por qualquer negatividade própria da sua essência.
















