Arquivo | Julho de 2010


Gangrena

Paul Chang, “5th light”, 2007

Afinal não acabou, não acaba nunca, nunca acabará.
Quando o DCIAP disse que o homem não estava envolvido e mais disse que o processo encerrou, à uma vieram os amigos do homem remexer na coisa para ajustar contas com exigências de pedidos de desculpa e à dobra vieram uns procuradores dizer que afinal foi mal fechado, que havia perguntas para responder que não foram sequer postas.
E tudo isto não para de jorrar na “comunicação social” que só está a fazer o seu trabalho, diz ela, quando dá voz ao primeiro que se quer fazer ouvir, sem verificação nem exame daquilo que diz.
E é só para dizer que quando isto nunca se dá por acabado, impressiona não verem que vão cada vez mais deslizando para um fundo muito negro, justiça, investigadores, jornalistas, todos escorrendo devagar mas irreversivelmente para um charco chamado descrédito, descrença, desonra, virando contra si e contra cada um a desconfiança permanente a que se devotaram.
Isto nunca acaba, não acabará nunca. Mas irá acabar tão mal, tão mal, que nenhuma razão ficará de pé, ninguém ficará incólume. E é de ficar aterrado.

Um final feliz


Foi a sua primeira aparição pública depois do recolhimento a que a última morte a obrigou. Sabia que o luto tinha de ser ainda mais carregado do que das outras vezes. A sua condição de cortesã de luxo, só por si, já era motivo suficiente para que todos os olhos se concentrassem nela. Mais do que nunca, tinha de se resguardar do falatório. Esconder bem as suas formas, que elas, as mulheres deles, diziam ser obra do demónio, e eles, os anciãos endinheirados da cidade, viam como a mais perfeita manifestação da existência de Deus na Terra. Ou, no mínimo atribuíam à intervenção, divina também, daquele santo patrono da virilidade masculina que ninguém alguma vez ouvira falar antes daquelas suas formas irromperam com toda a sensualidade no S. Carlos. Segundo lhe constou, era isso que os defuntos diziam à boca cheia — antes de se finarem na cama dela em manobras inverosímeis — a todos os que, como eles, já não tinham idade para aquilo. Num espaço de três anos, sete respeitáveis frequentadores do Teatro foram-se, uns a seguir aos outros, a poucos anos de completarem oito décadas de uma vida de fortuna abundante. Para calar as más línguas, bastar-lhe-ia dizer que tinha uma missão divina: a de fazer morrer os homens da forma que qualquer um gostaria de morrer se pudesse escolher como morrer. A prova disso era o indisfarçável esgar de felicidade estampado na cara, com que os cadáveres foram encontrados na cama dela. Já para não falar na protuberância que as respectivas partes baixas exibiam ainda garbosamente, e para as quais a ciência médica não encontrara explicação que não fosse atribuível a Deus. E nada de mais injusto do que lhe atirarem à cara que tinha ficado com tudo o que aos defuntos pertencia. Bem sabe ela que não há herança que pague o que não tem preço suficientemente elevado, isso de fazer coincidir a morte com a suprema explosão de felicidade que não se alcançou em toda uma vida.

Apesar dos protestos das mulheres e familiares dos defuntos, estava ciente que a sua reputação  crescia a cada morte feliz. E que prazer tinha em escolher, de entre as dezenas de olhares masculinos enrugados que sobre ela recaíam no Teatro, o próximo a ser tocado pelo seu dom.

Esplendor

a Terra em comparação com o Sol

O Sol em comparação com a hipergigante vermelha VY Canis Majoris

A VY Canis Majoris vista pelo telescópio Hubble a 5.000 anos luz da Terra

É muito fácil viajar no tempo, basta que numa noite estrelada uma pessoa se ponha a olhar o firmamento. Aqueles pontos de luz que agora mesmo incidem na nossa retina foram emitidos, por vezes, há milhares de anos. Ou seja, estamos a assistir no momento presente a um episódio ocorrido há séculos.
Esta singela experiência permite-nos ter uma ideia aproximada, por defeito, da fragilíssima finitude da nossa duração.
As imagens acima esmagam. Somos pequenos, tão ínfimos que nos é impossível compreender (no duplo sentido da palavra, como abarcar e como entender) a dimensão daquilo a que chamamos universo. O que assusta.
Parece-me por isso de uma patética petulância acreditar que o eventual criador disto tudo, se tenha preocupado connosco com tanto pormenor, tal como vem descrito nas várias sagas religiosas. Mais bizarro ainda é imaginar, como o fazem algumas seitas mais incendiárias, que deus tenha um plano específico para cada um de nós. A resposta que os crentes darão à insensatez de tal presunção costuma ser o Mistério. Fecha-se o círculo da ilusão: ou temos resposta feita, ou convertemos a ignorância e a dúvida no divino desconhecido.
Em qualquer dos casos desfaz-se a angústia o que, vendo bem, proporciona algum sossego existencial. O que não é mau.

[quando quis refazer os passos já não consegui, pelo que estou impedido de fazer a citação. Peço desculpa ao autor do blog onde vi a imagem que inspirou este post.]

Sweet dreams (are made of this)

Tauba Auerbach, “Yes No Morph 1″, 2007

O livro “A Jornada de Cristóvão Távora Terceira e Última Parte” (Lx, Presença, 1990) de João Miguel Fernandes Jorge inclui um Posfácio de Joaquim Manuel Magalhães que tenho como um dos mais notáveis ensaios sobre poesia (e literatura) do séc. XX:
“(…) A construção não visa um efeito de linearidade ou de discursividade meramente narrativa (…) mas têm um valor narrativo de espécie diferente bastante intenso; mas têm um valor referencial muito firme, ainda que não se preocupando com o nexo clarificado entre aquilo que designam. Querem apenas colocar diante de nós objectos vocabulares com capacidades evocadoras. (…) A acumulação assim causada, perseguida e sabotada pode talvez ser inteligível de um modo inicial através de todas estas palavras pouco capazes de explicar. (…) O leitor é que sabe. Eu não sabia. Concerteza perdi tempo demais com a insistência racional.”

E se estas palavras tivessem ressoado, lá ao longe, numa vaga memória do nexo que elas causaram, a meio da escrita de um texto que começou por se ir experimentando escrevendo?
E se a recordação da Tia Tula de Unamuno tivesse sobressaltado a memória aquando da descrição dos comportamentos daquelas mulheres?
E se, então, a mulher seca e dominadora de Unamuno que tanto impressionou a puberdade deste leitor, se tivesse convertido na sombra da personagem que ao ser construída, começasse assim a fazer um pouco de sentido?
E se Ramiro tivesse, ao mesmo tempo, surgido como nome eufónico e, já agora, como a vingança do pobre Ramiro subjugado e desorientado pela Tia Tula na novela do bilbaíno de Salamanca?
E se Emília fosse um erro por ter julgado, no instante em que foi grafado esse nome, que a Bovary era Emília e não Emma?
E se a mulher de negro só tivesse sido batizada no fim de tudo escrito?
E se o final fosse este porque a ideia de um segredo era a que melhor calhava numa descrição de gente que vive em conspirações e tramas constantes?
E se tudo isto emergisse assim porque sim, ou seja, porque pareceu que assim ficava melhor, ou seja, mais justo e ajustado?
E se, ao fim e ao cabo, de tanta explicação com ratificadora citação e tudo, as coisas fossem tão simples quanto o Diogo Leote revela?
Quer dizer: também não sei –  não escondi nada, só escrevi.

 

PS — Obrigado Joana — deep from the bottom of the heart

Antes que Julho se acabe

O Zé Navarro deixou-nos a todos em suspenso. Com o denso e decerto sinistro enredo que envolveria a retraída Emília e o execrável Dr. Ramiro. E que permitia a este, com indiscutível grosseria mas, sobretudo, com aparente e intrigante impunidade, destratá-la e embaraçá-la em público. Sem que aquela em quem ele “cravara a alcunha de Tia Tula”, reiterada e cruelmente acossada, esboçasse a menor reacção. “Porque motivo o Dr. Ramiro tomara aquela mulher de ponta e porque razão ela nunca desencadeara uma vingança, eis um segredo que só a eles pertencia”. Pois sim.

Movida pela curiosidade fui a casa dos meus pais e surripiei a Tia Tula, de Miguel de Unamuno. Li-o duma assentada. Gostei muito. Mas quanto a pistas para resolver este enigma é que fiquei na mesma. Dificilmente Gertrudes (Tula), encaixa no papel desta Emília acossada e resignada. Uma e outra, é certo, renunciam cedo demais e por motivos incompreensíveis à sua feminilidade. A verdade, porém, é que Gertrudes (Tula), ao contrário desta Emília, vai mantendo um férreo controlo dos acontecimentos e da vida dos que a rodeiam. À primeira vista movida por uma obsessão com a pureza e a virtude, mas na realidade dominada por um desmedido orgulho que a impede de ultrapassar o facto de Ramiro se ter primeiro aproximado de sua casa atraído pela beleza exuberante de Rosa, sua irmã. Por isso o castiga, negando-se-lhe – e, de caminho, negando-se a si mesma, como amargamente o vem, mais tarde, a admitir – e impelindo-o a casar com as duas mulheres por quem o pobre, atordoado com a sua irredutível recusa, se acaba por se deixar atrair (Rosa, a sua própria irmã e Manuela, a criada). Mas mantendo-se sempre por perto, tão perto, como mãe extremosa e puríssima dos seus filhos, dos cinco filhos que Ramiro vai tendo com as suas desventuradas mulheres. O papel supremo que para si reserva e a que se dedica por inteiro. E que, junto com a ideia de que constantemente Ramiro sofrerá pensando nela e no que perdeu, são a sua afinal bem magra consolação.       

Aqui a história parece ser bem outra. Tudo aponta para que alguma coisa tenha acontecido. Escandalosa, porventura ilícita, quem sabe mesmo obscena. Alguma coisa que o Dr. Ramiro sabe. E que Emília preferiria que não. Mas, entre ambos? Ou envolvendo terceiros, terceiras? E porquê esta insistência – despeitada? magoada? rancorosa? – em atormentar uma mulher que, em princípio, lhe surgiria desprovida de qualquer interesse? Porque é que patentemente Emília não é indiferente ao Dr. Ramiro? E porque se deixa ela enxovalhar assim? O que teme Emília?

Desafio todos os mortinhos de curiosidade — como eu — a apresentarem aqui a sua versão, uma explicação, um pequeno contributo que seja que lance alguma luz sobre esta turva situação.

E peço encarecidamente ao Zé que não nos deixe às escuras e nos ajude a desvendar este mistério. Quanto mais não seja dando também o seu – qualificado e altamente autorizado, já se sabe – palpite.     

Para que possamos ir de férias mais tranquilos.

Que pasa con Pedro?

 Este que está no nicho é São Pedro. Muito bem trajado, de sotaina negra. Estranho? Foi o que eu achei. Não é costume. Muito mais estranho, contudo, é o facto de Pedro empunhar um livro. Sim, um livro. E dos grandes. Com todo o ar de quem prega convictamente o seu conteúdo. E de que o conhece bem, talvez por muito o ter lido, quem sabe por o ter mesmo escrito. O que, convenhamos, é realmente estranho. Logo Pedro que, tanto quanto se sabe, não era propriamente dado à leitura ou a afins exercitações do espírito …    

O que será que se  passa com Pedro?

Uma ajudinha? Querem uma ajudinha… Então aqui fica a foto da fachada onde me deparei com este extraordinário São Pedro. Fica em Santiago de Compostela. Já foi de uma Igreja,pertença de uma poderosa ordem religiosa, actualmente é sala de exposições e pertence à universidade. A ver se nela encontram, por assim dizer, pregada alguma pista …

E agora vou de férias

O Sr. S Fonseca que se apresente rapidamente ao serviço para tomar conta deste ensandecido cemitério.

O Mau Olhado

Gostava de olhar-lhe a alma. Assombrosamente vazia, preta de tão só. Gostava de espreitar-lhe as entranhas, as vísceras, as artérias e as saudades que lhe ensombreciam a bílis. Gostava de perscrutar cada defeito, cada orifício ácido de desamor, cada metastase da enorme tristeza que o carcomia. Gostava de ver como quem palpa, cada resquício de remorso, cada traço de angústia. Comprazia-se em aumentar-lhe a dor, revelando, amplificando, agigantando até a um operático absurdo, os pavores, os medos, os traumas, os fantasmas azuis que lhe pintavam o cérebro de avesso. Gostava de se saber senhora daquele destino afogado nos fluídos espessos do passado. Passado que era presente e seria futuro enquanto pudesse vestir-se de luto e armar-se daquele óculo de uma crueldade muito sua que lhe vingava o despeito de mulher trocada.

Haveria de sentir-lhe o olhar, negro, gélido, dilacerante, telescópico, até ao fim dos seus dias.

Sonho de uma noite de verão

Sonhei ou hoje estava uma noite tropical em Cascais? Sonhei ou ouvi Declan Patrick Aloysius MacManus, numa surpreendente reencarnação folk, tocar Elvis Presley? Ou para ser mais rigoroso, Junior Parker e Sam Phillips que foram os verdadeiros maquinistas do Mystery Train (“Train I ride sixteen coaches long. Train I ride sixteen coaches long. Well, that long black train carries my baby home”) que Elvis (não é esse, é o outro) celebrizou, Jarmusch recuperou e Elvis (agora sim, é esse) ressuscitou hoje? Sonhei ou Elvis (esse) tocou Jimi Hendrix (The Wind Cries Mary)? Sonhei ou o eclético Elvis pôs o punk definitivamente na gaveta e acabou a noite a tocar um estrondoso Happy que Richards compôs mas que Jagger também reivindicou? E sonhei ou havia mais um morto do nosso cemitério na assistência? A dançar ao pé do Ministro das Finanças?

These foolish things remind me of you

Estou longe, muito longe de casa. Muy ajetreada y disfrutando a tope, entre devociones xacobeas y placeres más terrenos. Sempre com a graça del Apóstol, por supuesto. Um desassossego do melhor. Mas a verdade é que por mais relapsa e desligada que ande do meu fiel computador, não há beco, rua, esquina desta cidade que me não lembre o extraordinário cemitério. É constante a sensação de dejá vu. Perturbadora, mas ainda assim reconfortante. Muito. Ora vejam.   


Sim, leram bem, Fonseca


Pareceu-me tudo gente (quase) morta


Disse-me que comprou a saia em Ponferrada depois de ler o texto do Pedro Norton
Diz que comprou a saia em Ponferrada depois de ler o texto do Pedro sobre el Che


Sim. leram bem, Fonseca ... he's all over the place
Sim, leram bem, Fonseca, Parte II …


Ups!


São Rosas, senhores? Estaria disposta a jurar que sim ... e o que farão no regaço de San Diego?
São rosas, senhores? Eu estaria disposta a jurar que sim … mas porque as tenta ocultar Diego, aliás San Diego?

Finalmente chegámos, pensa o Cãogrino, valeu-me apesar de tudo o belo atrelado, cheguei a temer ter de fazer o Caminho no cestinho de que a Dona tanto gosta…

Sim, leram bem, Fonseca, Parte III, he´s all over the place …

Tão diversa como o nosso cemitério, esta banca de recuerdos …

Afinal não é Braguinha, é Bragaaaaão!



É do SCB o lugar que em tempos coube ao Boavista. Parabéns, Braga!


Para aqueles que viram os jogos da pré-época do Sporting Clube de Braga o jogo de hoje com o Celtic de Galsgow passava por ser um encontro com a morte para o clube minhoto. Mas afinal o que apareceu na Pedreira foi um autêntico arsenal cheio de pólvora, que com três explosões magistrais ajustou o passo aos escoceses – que se queixaram do árbitro. Até pareciam uns certos portugueses que todos conhecemos bem.
Nada está ganho, diz Domingos Paciência – que desde sempre é conhecido por não embandeirar em arco antes do fim dos prognósticos.
Boa escola.
Na Escócia a atmosfera será outra, certamente, mas para já chegámos ao intervalo com três golos de diferença — e isso é muito bom.
Muito bom mesmo, particularmente este míssil do brasileiro Matheus, que deixou o keeper do Celtic literalmente de cara à banda.
É para que saibam.

http://www.youtube.com/watch?v=4eQiPoVeBro

A finalizar esta rapsódia de sinais, mais um nadinha de agitprop.
Consta que o visado já se fez ao caminho para Tóquio

http://www.youtube.com/watch?v=3YYO84laSIQ

E eu é que sou o mau, é?!…




Flagra de Roberto à chegada ao Império do Sol Nascente






O S em Fonseca

Manuel S Fonseca, a caminho de mais um dia para salvar o mundo

Parabéns, doutor.