Vemo-nos amiúde: sentamo-nos no sofá, calados, a ouvir

Pintura de R. Magritte

O meu tio António morreu novo. Foi sempre muito novo. Novo demais para poder ser um tio avô e para eu o conhecer. Só teve idade, à tangente, para ser tio da minha mãe. Nem sei como. Era muito novo demais para graus de parentesco daqueles que exigem, pelo menos, alguns cabelos brancos e um travo da gravidade que se espera dos adultos já mesmo adultos; a prática de algum exercício da maldade. Era o filho mais novo e por isso o irmão mais novo. Foi sempre, coisa que não é tão constante quanto pode parecer. Conheço casos de irmãos mais novos que se transformaram em mais velhos. Ele não. E nunca envelheceu, não teve tempo: ficou doente logo à partida. Tuberculose. Ainda assim enchia a casa com a sua linda voz de barítono. Contaram-me. Era de uma bondade tranquila, cheia de migalhas de pão para os pássaros, para os peixes. Que a felicidade o tocara, apesar da manta nos joelhos em vez das correrias. Sentiam alegria ao lado dele, a ponto de esquecerem a presença da morte no canto mais escuro da casa. Que era terno e os animais vinham ter com ele. Cantava. Contaram-me. Era tudo verdade. Ainda é, damo-nos muito. Vou vê-lo amiúde. Ou vem ele.
O meu avô dizia: o meu irmão António. Nunca: o António. Sempre: o meu irmão António. Os outros irmãos eram o nome deles, o corpo presente. Este era o sangue antes do nome e eu percebi logo, antes da escola, que o sistema circulatório se fazia mesmo com as veias das ausências e tinha tudo a ver com o coração. É importante aprender cedo que o amor que se tem para se amar, nem sempre tem um corpo para poder ser amado. É importante: é uma porta para a atenção ao invisível.


 

Comentários a “Vemo-nos amiúde: sentamo-nos no sofá, calados, a ouvir” (18)

  1. João Pedro Lopes diz:

    Gostei muito; obrigado…

  2. Luciana diz:

    Caríssima Eugénia, há uma musicalidade tal em seus textos que me demandam que eu sempre os leia em voz alta. E há expressões que me obrigam ao pranto: veias da ausência, leio e calo. Paro. Dói-me de uma dor de gozo, de saber: é isso! mesmo que antes não soubesse. Obrigada. E, ainda, como um souvenir final, Callas.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Sempre tive o gosto da leitura em voz alta, nem sei se não temos todos um bocadinho, por ficarmos do exacto tamanho que tivemos, um dia, ao adormecermos nesse conforto em que a voz aconchega o mesmo que a roupa de cama subida até ao queixo.

      Obrigada, Luciana: mesmo que seja num post, é uma alegria saber que se escreveu para enunciar um espaço em branco, pequenino que ele seja.

  3. Joana Vasconcelos diz:

    Tão bonito e tão verdadeiro. Gostei mesmo, Eugénia.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Olá Joana, sim, é o meu tio avô que eu só conheci tanto tempo depois da morte dele. É muito presente na minha vida e isso deixa-me feliz. E que tenha achado bonito a evocação dele, também.

  4. Maria João Cayenne diz:

    Comoves-me tanto! Tantas vezes.

  5. Pedro Norton diz:

    Gostei muito. Eu também tenho um irmão que ficou sempre novo.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Não é muito o que se pode dizer diante de uma imensidão como essa, espero os seus netos o amem, Pedro.

  6. Turmalina diz:

    Muito lindo, Eugénia, principalmente o último parágrafo que me comoveu deveras. Eu amo muito, seres cujos corpos já não podem mais ser amados. Assim estão sempre presentes…E que é amor, é!

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Eu já não tenho um irmão que ficou sempre novco. Era louco e eu gostava muito dele. Quando morreu escrevi isto:

    MAPA DE FORA
    (Longitude absoluta)

    Vai!
    Vai, vai, vai…
    Conheces o mapa.
    Desenhaste-o com buracos no céu
    Várias vezes ao dia.
    Vai! – segue o teu dia,
    O teu mapa é como o meu,
    Inóspito e sempre breve.
    Vai!, segue,
    Segue o teu mapa
    Que está desde sempre
    Num desenho velho
    Do princípio do Mundo
    Vai!
    Não nos deixes
    Apenas inquietos

  8. Eugénia de Vasconcellos diz:

    É muito difícil agarrar a presença que nos falta, António. Tão difícil como não agarrar.

  9. António Eça de Queiroz diz:

    Sim.

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