O prestígio vestigial dos Lusos vinha-lhes do facto de terem sido durante séculos os donos do único moinho da região. O seu maior cliente, por mais de duzentos anos, fora o velho Mosteiro de Grijó – desmultiplicado em várias propriedades, umas pequenas, outras grandes, mas todas com lugar para a penitência fundamentalista ou para o mais hedonista dos ócios.
Ainda me lembro desse moinho, já ruína, habitado por um mocho e dois peneireiros com ninho. Agora já nem sei onde ficava. Nem quero saber.
Várias pessoas me falaram do curioso caso da família Luso, que, no final das contas, não deixa todo ele de ser uma enorme ironia privada para um país tão pequeno como Portugal.
Havia ainda no meu tempinho de segundos de existência um trio de representantes desta velha família. Embora permanentemente bêbada, não deixava de ser uma instituição importante na pequena povoação embeiçada pelo mar e pela distinção extra que a Rainha lhe proporcionara em tempos, quando ali fora a banhos. E havia outros Lusos, mais novos, menos filosóficos. Mas o meu trio conhecido era magnífico.
Sei que uma das que já não conheci foi encarregada de banhar Sua Alteza, de a secar e acomodar, no que punha cuidados e uma educação que nenhum agente secreto da actualidade poderá ter. Porque apesar da sua extracção popular, a Lusa matriarca do fim do século XIX sabia agradar a uma rainha, coisa que nenhum agente da CIA saberá fazer porque só está preparado para assuntos de estupidificante rigor. Nada de singelo e genuíno, como o trabalho estival da Amélia Lusa – que então aproveitava também para arejar da sua incómoda humildade.
Como no Porto não há nem nunca houve um paço real, a Rainha instalava-se na Granja, na casa dum estrangeiro tornado conde português por uma vida em recompensa das suas actividades de mecenato explícito junto da Família Real.
Amélia Lusa dava banho à Rainha, passou-se pouco mais de um século, e com isso aquela molécula de litoral adquiriu um prestígio, por vezes cosmopolita, que se manteve por décadas.
Os Lusos que chegaram ao meu tempo tinham, cada um deles, um patronímico adaptado ao sexo (Manel Luso e Maria Lusa). Mas na verdade só me lembro de um deles, o António, que lá em casa dava à bomba de água e acondicionava carvão e lenha na cave. Por vezes ajudava no jardim, onde a minha mãe insistia em implantar um rock garden. O que conseguiu, diga-se de passagem. Com lago e tudo – cágados incluídos.
Um dia o António morreu a pescar enguias no Riozinho. Já tinha bebido a sua parte e adormeceu, caindo para a frente como um fardo da vida. Afogou-se em meio metro de água e lodo.
Durante mais de uma semana toda a gente falou do triste e um pouco patético fim do Luso – que ensinava a quem lhe pedisse como pescar ranhosas nos rochedos, catar a bicha dos mexilhões ou apanhar sapateiras adormecidas sob as pedras, na orla da areia. António morreu e foi chorado, mas realmente não fez história.
Já com o Manel, que também dava à bomba e carregava carvão ou compras – e que era o mais velho dos filhos da Maria –, a sua morte trouxe um momento incomum à vida das muitas pessoas que acorreram ao seu velório. Às pessoas que gostavam daquele trio.
O Manuel Luso morrera, bêbado como sempre, caindo da borda da ponte por onde passava um comboio na ultrapassagem do mesmo Riozinho que abafara a vida do seu irmão de forma bem mais macia. Cruzava a pequena ponte no momento em que o Mata Doutores, em sentido contrário, também o fazia. Às dez e vinte da noite.
Convém explicar que esta longa e rápida composição de mercadorias, que passava entre Aveiro e Gaia por volta das onze da noite a mais de oitenta à hora, recebeu o nome de Mata Doutores porque duma só vez deu cabo de quatro licenciados recentes numa passagem de nível não sinalizada. Em Paramos. Além disso também matou alguns engenheiros e vários dos meus cães preferidos.
Era o Mata Doutores e tinha a sua fama. Anunciava-se dois quilómetros antes de qualquer passagem de nível com uma cornetada capaz de fazer saltar fontanários. Só não reparava nele quem não queria.
Mesmo assim ainda havia quem se esquecesse da existência daquela massa cega que cruzava a noite e os seus negros passos em busca dum horizonte possível. A deslocação de ar do Mata Doutores fez o necessário – e o pacato e permanentemente ébrio Manel Luso caiu dos cinco metros da ponte, de cabeça, directo ao mesmo campo de batalha onde três anos antes perecera o benjamim da família.
O Riozinho era a vala comum dos Lusos machos.
Se não produziu muito estrépito com a morte do mais novo, já com a morte do mais velho a Maria Lusa endoideceu momentaneamente – um pouco mais. Era a morte do varão:
– Só deixo mulheres vivas!, gemia, num uivo.
Aceitou, com a naturalidade dos que se habituaram a aceitar o pedir, algum dinheiro que as forças vivas do lugar lhe disponibilizaram para um enterro decente do filho dilecto.
Já com o caixão entregue, muita gente se apresentou ao acto mais oficial da morte de Manuel Luso: o seu próprio velório.
O patrocinador principal do esquife – um conhecido comerciante portuense – não queria acreditar no que via quando entrou na casa miserável e pisou o chão térreo da apertada divisão, que naquele instante era simultaneamente cozinha, sala de estar e câmara ardente.
O caixão, com quase dois metros, tão grande como o Manel Luso – que morrera aos 46 anos e tinha um filho sem mãe conhecida –, era inequivocamente branco!
A explicação esbracejada da velha Maria não deixou dúvidas quanto à sua compreensão dos factos, circunstâncias e respectivas consequências:
– O Manel não casou! Era birge! E bai em caixão branco, porque se não nem bai! P’ra lado nenhum!, rugia imperativa a Lusa, batendo repetidamente com as mãos nas coxas fortes.
A atmosfera lúgubre do lugar, que vacilava à luz incerta de meia dúzia de velas e candeeiros a petróleo, deu espaço a momentos estranhos e mal reprimidas expressões de espanto: gente das mais variadas classes sociais acotovelava-se no espaço diminuto à volta dum improvável desenrolar de acontecimentos.
Maria Lusa, já completamente bêbada, levantava a cabeça do seu Manel forçando-lhe a boca com o gargalo de um garrafão de cinco litros de tinto adquirido para a ocasião:
– Bebe meu filho, que este é o último!, vociferava a pobre mulher, bem preenchida pela sua dor.
Às escondidas, por entre murmúrios e gestos de agressividade mal controlada, familiares do falecido disputavam uma caixa de metal onde era suposto existir algo que só tinha valor para quem nunca pensara disputar as referências caóticas da modernidade. Eram riquezas da miséria, moedas velhas, uma nota tinta de humidade, papéis impossíveis de ler, rifas rifadas, uma chave pequena, uma cruz de metal prateado e um novelo de fios diversos – todos muito bem atados uns aos outros por pequenos nós.
Quanto ao falecido, encarcerado na sua barca virgem, vestido com um amarrotado fato de linho branco, deixava-se inundar pela mancha grená do tinto carrascão que a mãe insistia em empurrar-lhe pelas inertes goelas abaixo, enquanto insistia no seu carpir:
– É o último, bebe meu filho!, gritava a Lusa, mostrando afinal o único ritual que verdadeiramente conhecia e que portanto dava por certo. Executava com rigor inexpugnável, à frente duma data de burgueses cheios de boas intenções, a peça mais conhecida da natureza humana: o ser-se único.
A dor é um património intransmissível.


















Olha, sou a primeira! Boa!
António, gostei tanto da fantástica imagem e do extraordinário texto, pontuado por momentos desconcertantes e quase grotescos, que me provocaram um irreprimível riso, mas que me deixou afinal com um doloroso e pungente aperto cá dentro. Há dores que a todos doem por igual, embora nem todos as exprimam da mesma maneira ou com a mesma elevação. E há dores — como a desta mulher — que deviam ser proibidas.
Talvez devessem, mas não é possível.
Suponho que o riso irreprimível e o aperto pungente também estiveram no velório do — aqui posso dizer — Manuel Portugal. O meu irmão Zé Maria é que assistiu, contou-me tudo ao pormenor. Ele é um grande contador de histórias antigas. Tem umas com o nosso pai — e que meteu num blog que teve em tempos chamado ‘O Velho da Montanha’ — que davam um livro.
Ainda bem que gostou.
Caríssimo Eça,
que linda e sinestésica imagem! E há tanto que perco neste envolvente texto por conta de nossa enganadora língua que, fazendo-se parecida, tantas vezes torna-se quase inexpugnável. Mas não há como confundir-se com: “a dor é um patrimônio intransmissível”. É de partir-me o coração.
Percebo muito bem o que diz sobre a nossa língua — às vezes consegue ser bem lixada.
Tive sorte porque apanhei esta foto com o moinho num livro antigo sobre a Granja, que foi onde nasci.
Ainda bem que gostou.
Ele há pícaro onde o procurarmos. Gostei muitíssimo do tom: é fácil fazer ironia com os costumes que nos parecem grotescos dos pobres, difícil é entendê-los por dentro.
Tem toda a razão, José Navarro. A mim, por exemplo, fazem-me bem mais confusão os costumes grotescos dos ricos — e a Granja também tinha disso. Aliás, o seu comentário deu-me uma grande ideia.
Obrigado.
Gostei muito de ler e publicitei: http://cartasdestemoinho.blogspot.com/2010/06/os-lusos-do-moinho-da-granja.html
António, um dia você vai ter de arranjar uma estrutura, de raiz funda e ramos altos, onde consigam desenvolver-se as muitas histórias que viveu e ouviu, numa só árvore bem podada.
Li, gostei, mas preferi ficar em silêncio pelas tantas dores dos Lusos.
Ainda bem que gostou, Ana Isabel. E obrigado pela dispersão, já fui ver as suas Cartas e gostei.
Eugénia, isto já esteve numa árvore, mas estava mal plantada e pior podada. Estou em plena reciclagem dos ramos que mais gosto. Talvez um dia…
Eu sabia que você, em particular, ia gostar, Minas-Novas. E quer saber porquê?
Porque sou bruxo…
Começo a desconfiar que sim.…rs.…..
O Luso fado…
Eu sei que é uma jardinagem difícil, António, e de resistência à frustração que causa a décalage entre o que se pretende e o que se atinge. Mas é como todas, fazer, fazer, fazer…
É isso mesmo, Eugénia.