Uma short short com bibelot

Há muito que ninguém a tocava. Há mais de um ano, pensou. Há mais de um ano que vivia na mais completa solidão. Sentia que a sua existência não importava a quem quer que fosse. Estava ali, abandonada, como uma vulgar peça de mobiliário ou um bibelot de enfeite industrial. E pensando bem, sentia-se ainda jovem, fresca, cheia de coisas para dizer e emoções para viver e transmitir aos outros. Sentia uma desesperada saudade de contacto humano. Nos velhos tempos do escritório, quando ainda estava na luminosa sala grande, ao lado do escritório do patrão, trabalhava lado a lado com uma grande equipa. Os dias eram vivazes e alegres, e o seu trabalho mantinha-a no centro da atenção de todos. Mas a verdade é que desde que o Sr. João e os outros tinham sido despedidos e a tinham mandado para aquela sala, nunca mais ninguém se dignara a olhar para ela. Sobretudo aquele simplório do Sr. Mateus, que ali sentado só tinha olhos para os seus relatórios da produção e para aquela flauzina da menina Augusta, que ali ao lado, no escritório da contabilidade se senta em frente de uma daquelas coisas novas, cheia de fios entrelaçados e uma pantalha toda cheia de colorido.

Era mesmo difícil estar ali, a envelhecer, sabendo-se ser a última de uma ilustre linhagem de máquinas de escrever.

Comentários a “Uma short short com bibelot” (10)

  1. Pedro Norton diz:

    Vasco: existirá alguma coisa mais sexy do que uma flausina?

  2. Vasco Grilo diz:

    Flausina ou flauzina? Nunca tinha escrito esta palavra e não consegui perceber qual a forma correcta. De qualquer maneira concordo contigo. Em ambas as versões, são umas larocas, as ditas flauszinas!

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Coitada da Remmington.

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Galdérias.

    Era o que a Sra. D. Remmington quereria ter escrito. Conteve-se, por recato e por decoro, de outra época, já se sabe. Acima de tudo, manter a compostura. Galdérias, a da contabilidade — flausina com s -, e a outra, a colega nova e garrida, com os fios entrelaçados — essa, sem dúvida, flauzina com z. Grandes galdérias.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Ó, o que eu ainda gosto da minha Hermes, baby, baby, babe…

  6. Vasco Grilo diz:

    E o hopper também Manuel. Continuo convencido que o quadro é todo dedicado à máquina e que os humanos são só efeitos especiais. Todo o quadro se desenvolve e se projecta na máquina de escrever. Das cores claras do canto superior direito até ao escuro da máquina. Ou no olhar de esguelha da menina Augusta na sua direcção. Ou na folha de papel, que nas mãos do Sr.Mateus parece a qualquer momento querer-lhe sair das mãos para poder voar direita àquela atraente máquina de escrever.

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Vasco, não me faças sentir culpado. A minha Hermes lá está, de saia levantada para eu lhe ver as teclas (hmmm) brilhantes, as cavidadezinhas a pedir a polpa dos dedos e eu… nada.
    Será da idade, ou será esta mania de agora se comer tudo com os olhos, nos ecrãs tão flat e flausinos? (Bom, diga-se que, noutro dia, a ver um filme porno 3-D, uma americana engravidou, apesar do marido já estar há um ano no Iraque. Ainda por cima, como o actor do filme era negro, a criança saiu uma linda mulatinha, quando os pais eram os dois branquelas).

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Ó Manuel, isso é má língua! Está visto que entrou luz, queimou um pouco a «película»…

  9. José Navarro de Andrade diz:

    Vasco: O teu texto fez-me lembrar isto:

    http://www.youtube.com/watch?v=FhJVTDkixDQ

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