SENHOR ENGENHEIRO..
Todas as pessoas deviam ter uma prima Nair. Eu também. Aliás, nem sei se todas as mulheres não deveriam ter uma nota, pelo menos uma nota, de Nair, como a que fica, de um perfume, na roupa. Ou ainda mais dentro: a recordação de um aroma bem entranhada na memória primitiva, mas esquecida à superfície e por isso indetectável no rasto, e por isso imprevisível no efeito de si mesma quando emergida. Poderia ser, para umas, o olhar de Nair: a cabeça ligeiramente inclinada para baixo e um dos lados, o meio sorriso a levantar os olhos para cima, o clássico espreitar por baixo das pestanas muito pretas com a evocação toda do movimento pressentido no rumor das sedas atrás de recatados biombos. Sim, o olhar de Nair. Ou as pernas cruzadas e lateralmente estendidas, uma sobre a outra, deitadas, completamente juntas, duas linhas apetecidas de infinito, a inventar uma geometria de começos escondidos, começos longe tão escondidos debaixo do tecido, e fins nas pontinhas elegantes dos sapatos. Ou a mão, poderia ser a mão de Nair, aquela que o braço às vezes esquece, brevemente suspensa do pulso enquanto o arco móvel das sobrancelhas, em espanto. Ou talvez a expressão dos lábios, das expressões do rosto, a mais infantil. Porque uma prima Nair é um bem necessário. Esta minha prima, se eu a tivesse, gostava-a. Desde os gestos, à volta ondulante e curta que a anca define antes distribuir o peso do corpo, três quartos assentes sobre a perna esquerda, atrás, um quarto à frente sobre a perna direita, quando se procura uma posição confortável, em pé, parada, o queixo bem levantado, gostava-a. Há mulheres que sabem estar de pé. Ela saberia. Sempre enraizada, três quartos, sempre quase solta, um quarto, sempre desafio no queixo alto. E sempre vestida de cores nuas agarradas à pele. Gostava-a.. e aos pequeninos biscoitos amanteigados que ela faria, serviria e comeria sem morder, mordiscando — biscoitos de massa bem trabalhada até que lisa, fina e a escapar-se por entre os dedos quentes contra a pedra fria, engordurados, a temperatura exacta do forno a fazer os cabelos sobre a nuca e sobre testa, húmidos na raiz, e a blusa a querer juntar-se ao corpo por uma gota de suor rolada pelo exacto o meio das costas, da base do pescoço numa corrida rápida até à cintura, enquanto sobre o lume, o cheiro doce do doce tomate na cozinha demasiado aquecida. Mesmo o chá, mordiscado em pequeninos goles até passar de morno a quase frio, permanente chá na chávena, o doce de tomate brilhante na taça entre as torradas e o prato dos biscoitos. Tudo eterno. Tudo levemente envelhecido de bom uso, tudo alheio a modas, tudo como só nos lugares bem amados.
Lembrou-me agora, a mesa de chá da Nair, o meu bisavô Manuel, um ano depois da mulher ter morrido, a minha bisavó Teresa, à noite, o Natal por dias, já a rondar, eu pequena no corredor, a porta aberta, a vê-lo, ao longe, tinha-lhe um bocadinho de medo, ele mais zangado do que inquisitivo, sem sequer levantar a voz, zangado, a voz afundava-se, para a minha tia, sua filha, à primeira, única, inaceitável alteração: o robe de chambre da mãe não está aos pés da cama porquê se a mãe havia de querer o robe aos pés da cama?!
Esta minha prima Nair, se a tivesse, agora muito viúva de muitos anos de um engenheiro, engenheiro de pontes, o cabelo enrolado sempre, penteado sempre como se desmanchar-se, a roçar a curva do ombro, bem amada, haveria de dizer-me: chamava sempre senhor engenheiro ao seu primo, meu marido. E logo a seguir: senhor engenheiro… como se estivesse diante dele, a chamá-lo para fora do relatório e para dentro do arquivo, ou de bloco de papel e caneta na mão disposta a tirar desnecessárias notas, no escritório, à noite, depois do meu primo vir do atelier, no gabinete ao lado. Diria, senhor engenheiro, franzindo os olhos do sorriso espreitado de malícia pequenina, um toque das pontas dos dedos rápidos habituados às teclas da máquina de escrever, o arredondado das unhas rosadas, curtas debaixo do verniz transparente, dedos de estenografias de serão, um toque das pontas dos dedos na palma da própria mão, senhor engenheiro, quando no escritório ambos, porque, dir-me-ia para concluir, lá, não era mais do que a secretária dele.


















Face ao estado do país, estranho que ainda ninguem tenha imaginado Margaretha.
Assim é que é, o respeitinho é uma coisa muito bonita!
Acha que chame a tia Aretha r-e-s-p-e-c-t?
Eugénia, o seu TPC foi muito bem feito, tão bem como bem feita a prima Nair (mais mordiscável do que quentes biscoitos de manteiga, como Hopper bem reconheceria).
Fartei-me de gostar da resolução, a chamar todo o descritivo do primeiro parágrafo, que ao quadro tão alheio parecia, bem para o centro dele no segundo, curto e incisivo parágrafo. E ponto. Parabéns.
Manuel Fonseca, está a dizer-me bondades.. Merci.
Verbondades? Será?
Eugénia, estava a brincar. Gostei imenso do seu TPC, compreendo muito bem os seus lugares amados e pessoas. Também tenho, claro.
Ó Antoine, também eu consigo e a tia Aretha.. deixe-me lá ir reler os Lusos!
Fico contente que tenha achado bem, já sabe.
Eugénia, fiquei mesmo a querer que tivesse uma prima assim Nair, para também eu a ir consigo conhecer e visitar, numa tarde de recordações e conversas, biscoitos, doce de tomate e chá.
Este seu texto que começou perfumado de perfume, acabou num forte cheiro a biscoitos quentes que não me sai da ideia e me impeliu já a um raid à cozinha, quente demais, sim, mas não dos biscoitos que tanto me apeteciam.…
E eu gostava que viesse, Joana.
Tenho uma bela receita de biscoitos de manteiga. Quando os fizer, plasmo-a no blog com uma fotografia dos danados de bons e engordativos de maus.
Eugénia, gostei muito do seu texto, mas tive alguma dificuldade para se acostumar com a figura da prima, uma vez que tenho uma sogra Nair.
Sorte a sua Turmalina. Imagino-me já a invejar os seus lanches de biscoitos amanteigados e etc…
Eugénia de Vasconcellos,
Gostei de saber da prima Nair, pela descrição que dela fez e pelos dotes que desvendou. Hopper tê-la-à visto mais ou menos assim? A pintura tem muito dela… Já agora fiquei curioso. O engenheiro era louro?…
Queridíssimo Mr. Orcama, não inveje os tais amanteigados porque eles não são tão fácies assim de deglutir ;o)
É… Assim sendo, estou a imaginar a sua fácies…
Hoje, estamos demais! E agora tenho de ir a correr lá acima ao outro comentário. É que alterei — involuntariamente, já se vê — o patronímico de Eugénia de VasconCellos… E se ela reparar… lá irá mais uma cabecinha para a bandeja…
…kkkk…eu percebi logo que dei o enter, mas aí era tarde demais…achei que ninguém fosse reparar…rss…
Caro Orcama,
merci. E sim, este meu hopperiano primo, louríssimo.
Ps: com todo o seu cuidado, não será desta que deixará saudades capitais no seu pescoço..
Faça este exercício, Turmalina: pegue nos nomes próprios mais usados na sua família. Escolha um que seja distante deles e pronto, já tem a sua prima Nair sem vestígios de sogra.
Que bom que gostou. Obrigada.