Tiko

Red House, Kitsilano — Tiko Kerr

Em 1974, em vésperas de entrar para a faculdade de medicina de Toronto, Tiko Kerr decidiu fazer uma viagem. Acabou, por durante dez anos, cruzar o planeta em todas as direcções, tentando encontrar-se consigo mesmo enquanto desenhava e pintava tudo o que o interiormente o tocava. Descobriu que era um artista e que a carreira de médico teria que ficar para uma outra encarnação.  A sua viagem de descoberta interior, no entanto, viria a ser dramaticamente travada, quando em 1983 lhe foi diagnosticado o vírus da SIDA. Começou assim, nesse ano, uma luta de mais de vinte anos em que se sujeitou ao estigma e à descriminação a que a sua terrível condição o votaram e a uma série de tratamentos devastantes sobre a sua vida pessoal e profissional. Chegou a estar quase cego, incapaz de caminhar e com um peso corpóreo de menos de 45 kg. Tratava-se com uma combinação de  80 pastilhas diárias dos quais resultavam terríveis efeitos secundários.

Em 2006, o seu médico, descobriu que uma pequena empresa na Bélgica tinha a decorrer testes clínicos em dois compounds totalmente revolucionários que tinham o potencial de praticamente eliminar a presença do vírus. Os compounds eram o TMC114 e o TMC125, ambos desenvolvidos por uma equipa de cientistas que, através de uma posterior aquisição, são hoje meus colegas de trabalho. Após a resistência inicial do governo Canadiano em lhe aprovar o tratamento com estes dois medicamentos ainda em fase experimental, e lhe cobrir as respectivas despesas médicas, Tiko conseguiu, através de uma campanha mediática cerrada, (chegou a colocar caixões vazios à porta do Ministério da Saúde), que o governo acabasse por lhe aprovar e pagar o tratamento. Em dois dias após o inicio da nova medicação, os níveis do vírus no seu sangue reduziram-se em 90%.

Tiko é hoje um reputado artista, um atleta (é um remador de sucesso), um spokesperson de inúmeras associações que apoiam os doentes de Sida em todo o mundo e um muito activo defensor dos direitos dos mais desfavorecidos na sua comunidade. Decidi convidá-lo para vir falar à minha equipa de trabalho esta semana em Princeton. E ele, aí, contou-nos esta sua história e connosco riu, e chorou. E nós rimos e choramos com ele. Durante os dois dias que esteve connosco, conheceu-nos e recolheu as nossas ideias. Fez um grande desenho numa tela e convidou-nos a todos a pintar. No final tive o prazer de em palco, com ele, e para as mais de 300 pessoas que tinham dado o seu contributo, descobrir, com grande pompa, a pintura que nos fez e que é, afinal, a prova de que ele está vivo, que nós tivemos alguma coisa a ver com isso e que a única coisa que lhe devemos, é continuar.

E o desafio é claro. Agora que já quase curámos os ricos, temos que quase curar os pobres. O plano: colocar em África, a dez centésimos de dólar por pastilha, os mesmos compounds que salvaram o Tiko e tentar debelar esta terrível praga que continua a matar, por ano e só em África,  1,5 milhões de pessoas e a afectar a vida de 25 milhões de outras, homens, mulheres e crianças. Sem querer parecer pretensioso, quando não estou aqui a escrevinhar ou em casa a gozar os doces prazeres de uma tranquila vida familiar, ando por aí, com este danado plano na cabeça que é, verdadeiramente, a única coisa que me mantêm acordado de noite.


Comentários a “Tiko” (10)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Vasco, que extraordinária história a deste homem e que extraordinários momentos viveste esta semana! Não fazia ideia e gostei muito de saber que existem estes medicamentos, que representam já uma certeza para muitos. E também que existe já a possibilidade, o desafio, a vontade de que falas … Oxalá rapidamente possas — possamos — voltar a ter um sono sossegado!

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Vasco, gostei tanto de saber tudo o que aqui contou.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Fantástico! E adoro aquela casa vermelha.
    Grande homem.

  4. Turmalina diz:

    Pois conte comigo…porque quando não estou aqui, em família ou trabalhando, estou batalhando em nome de um abrigo que conta hoje com 22 crianças, 20 carregam o vírus. Ele é mantido por uma instituição particular que faz quase 3.000 atendimentos mensais. E muitos tomam o coquetel fornecido pelo governo, composto por 18 medicamentos, em grande parte anti-retrovirais. A grande maioria sobrevive, mas não sem sofrimento, principalmente por causa dos efeitos secundários das medicações. Estatisticamente um terço dos infectados apresenta alguma resistência aos medicamentos. Essa doença é verdadeiramente uma desgraça, um mal silencioso, e as pessoas teimam em fingir que ela não existe. Melhor eu nem começar o meu discurso senão não termino hoje.De qualquer forma, não sei como, mas pode contar comigo nessa sua cruzada :o)

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Vasco, touching, a história; sedutor e tão em paz, o protagonista. Belo sonho o teu: arranjas maneira de podermos ajudar?

  6. Hugo Leitão diz:

    Vaskolini, eu sabia que estavas quase a chegar lá!O teu, o nosso, percurso de vida tem que ter algum significado.Alguns conseguem chegar às portas por abrir.Não durmas muito e vai em frente, apesar de saberes melhor do que eu, que vai ser tão complicado, ou mais, que dobrar o cabo das tormentas…
    abraço.

  7. Néu Bebianno diz:

    Que sejas inspirado, pela tua confiança, talento e energia. :-)

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