Símbolos e rituais

- α -

Há dias, aqui na universidade onde estou, houve o Commencement, que paradoxalmente marca o fim do cursos, mestrados e doutoramentos dos alunos da instiuição. O paradoxo desfaz-se quando ficamos a saber que o que é realçado não é o fim dos estudos, mas o início do resto da vida. Na minha universidade, em Portugal não houve nada, nem no início, nem no fim e, como ateu que sou, não quis ir à benção das fitas organizada em Lisboa. Não que tenha nada contra, mas simplesmente achei que, para mim, não fazia sentido, não era o símbolo que queria. O Commencement é um símbolo, um ritual: marca a cadência da vida.

- β -

No meu post anterior o Manuel e a Blonde levantaram a questão do paradoxo latente: uns querem o casamento, quando no fundo a população em geral o quer cada vez menos. De seguida o Manuel e o Gonçalo contestaram a simplicidade com que pensam que ponho o problema do valor do casamento.

Certamente — o casamento é uma instituição ancestral, tradicional, conservadora e, sem dúvida alguma, parte integrante, para o bem e para o mal da forja que criou a sociedade que temos. E o que é que está a acontecer agora? Será, como diz o Gonçalo que «há uma cruzada» contra o casamento? Não sei se há uma conspiração, não sei se é deliberado, mas que as férias no Brazil ajudam a que ele esteja fora de moda, lá isso ajudam. É uma cruzada? Não sei. Não estou em condições de fazer uma análise decente sobre o que tem feito diminuir o número de casamentos. Mas não é só o número de casamentos que tem uma variação acentuada: o número de divórcios cresce, e muito. Em 2008, por cada 100 casais que se casavam, 60,4 divorciavam-se. Mas se virmos em cada 100 casamentos pela Igreja, esse número eleva-se para 82.3, enquanto os do civil situavam-se em 42.9, um número relativamente estável no século XXI. Contrariamente, os divórcios de matrimónios contraídos na Igreja, se a tendência continuar, arriscam-se a ser mais numerosos que os casamentos. Se houver uma conspiração, não só está a conseguir que as pessoas não se casem, mas também a evitar que permaneçam nesse estado aqueles que já casaram, especialmente os que o fizeram pela Igreja. Não acredito que haja conspiração.

Divórcios por 100 casamentos
Dados da Pordata

Que quero eu dizer com estes números e gráficos? Bem, queria só que estivessem ao corrente deles. E, não entrando em divagações, vou apenas apontar duas coisas: 1) o casamento religioso pressupõe a eternidade e outros conceitos sobrenaturais; 2) tradicionalmente o casamento em Portugal é religioso, pelo que os que casam ser pela Igreja têm, pelo menos, de rejeitar essa tradição (e aceitar uma cerimónia bem mais feia e pirosa, porque nada ainda bate a cerimónia numa igreja).

Agora, finalmente, a minha posição: eu sou a favor do casamento. Aqui falo do púlpito, porque nunca casei. Desculpar-me-ão os mais experientes e estão no vosso direito para dizer, eh pá, vai lá à tua vida puto. Mesmo que fosse religioso, seria frontalmente contra a ideia do para toda a vida. O casamento é um símbolo, um ritual. O casamento é um contrato, para os noivos e para a sociedade. Uma declaração, um ponto de nucleação. Essencial? Claro que não. Pode ser quebrado? Claro que sim: somos humanos. O casamento que deriva do religioso é conservador e pseudo-romântico; o casamento que defendo, não o é. O casamento é um símbolo, um ritual: marca a cadência da vida.

- γ -

Aqui diz-se que a figura da Primeira Dama serve para denegrir as mulheres. Este é o tipo de ateio-republicanismo que eu, sendo ateu e republicano, não suporto: «É um resquício monárquico preservado como adereço de presidentes e primeiros-ministros. (…) [D]estrói o exemplo de mulher moderna e emancipada de que precisam os povos habituados a hábitos patriarcais e tradições religiosas misóginas. (…) Não importa que os EUA e o Reino Unido, ou mesmo a França, dêem maus exemplos. A emancipação feminina não se compadece com papéis que o progresso e a civilização tornaram anacrónicos.»

Em Portugal oficialmente não temos esta figura mas tradicionalmente as mulheres dos presidentes da República têm assumido este papel. Entre nós os cônjuges destas figuras geralmente não participam nas campanhas eleitorais, ou são pouco visíveis, mas, nos EUA, por exemplo, a candidatura é sempre vista como do casal. Obviamente um dos membros é mais relevante e o cônjuge assume um papel, acima de tudo, simbólico. Há mal nisso? Nenhum, na minha perspectiva, deste que o seja por opção e não coacção. E o inverso acontece? Não é muito comum, talvez; o senhor Merkel (que não se chama Merkel), foi apelidado de Fantasma da Ópera, e o príncipe Filipe de Edimburgo, que, ao invés das esposas dos Reis que passam a ser Rainhas, como cônjuge da Rainha de Inglaterra, meramente se tornou príncipe consorte (mau exemplo inglês e monárquico?). Ter um cargo simbólico não é humilhante e exemplos não faltam, modernos ou antigos, de cônjuges que deixaram marcas relevantes no mundo. Mais, faz precisamente parte integrante do contrato que é o casamento.

- δ -

Termino este post, já longo e maçador, com uma breve consideração. Os símbolos são parte integrante da nossa existência. Fazem parte da nossa linguagem e dos nossos sentidos, do material e do imaterial que nos é fundamental. Os símbolos, quando rituais que não ocos, nem bacocos, têm, para mim o papel fundamental de marcar as entradas e saídas de cena, a passagem de etapas, aquilo a que chamo marcar a cadência da vida. Materializam-se umas vezes em regras de convívio, outras em indumentária, outras em cerimónias — muitas das quais, tirando o aspecto sobrenatural, sou totalmente a favor de herdarmos das religiões — e por aí adiante. Parecerá, por ventura, inútil, mas numa altura em as vidas têm ritmos cada vez mais rápidos, são os pontos que nos ancoram ao friso do tempo. A nós e àqueles que nos rodeiam.

Comentários a “Símbolos e rituais” (8)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Olá Francisco, podia discordar de tudo o que escreveu — nem que fosse só para me meter alegremente consigo ou, sobretudo, para o Francisco ficar aliviado de qualquer colagem a um “old white male” que, por não ter onde morrer, veio acantonar-se neste cemitério. Por acaso discordo mesmo de quase tudo, mas vou só queixar-me de não reconhecer o que eu disse nos dois pontos em que me invoca.
    E um desses pontos, o da contradição insolúvel, vale a pena voltar a chamá-lo para aqui. Imagine que uma Universidade (pode ser a sua e parabéns pelo Commencement) se caracteriza por um inultrapasável rigor na aceitação dos seus alunos: o mérito e só o mérito é o seu critério de aceitação. Essa prática converteu-se já na própria identidade dessa Universidade (a mais rigorosa do mundo) e é o orgulho dos alunos que por lá passaram, o estandarte que os torna reconhecíveis. Imagine, agora, que o filho de um chefe da Mafia quer muito ter esse reconhecimento e essa glória. Sucede que lhe faltam os méritos. Mas o que lhe falta em academic skills tem o pai em dinheiro, influência e ofertas que ninguém se atreve a recusar. É este o dilema. Este inocente e combativo Filho da Mafia pode, de facto, entrar na Universidade. Mas, se entrar, aquilo que procurava já não está lá. Porque a tradição, o costume, o valor social que tinha sido criado, desenvolvido, defendido, já não está lá, destruído que foi pela sua própria entrada. Uma coisa é uma coisa, nenhuma coisa é duas coisas ao mesmo tempo.
    Um outro tema de conversa para futuros posts: se entendermos que o substantivo masculino ateu significa aquele que afirma a inexistência de Deus, é impossível, nos termos actuais da ciência, um cientista ser ateu. Claro que já sei que me vai provar o contrário e eu, claro, submeto-me.
    Despeço-me com um abraço e em corrida que tenho um jantar com dois amigos meus ateus que são do piorio. Quando eles lerem isto, e eles leêm, vão-me dizer das boas.

    • Ah, o Commencement não foi meu; ainda me falta!

      Obrigado por tão extenso comentário, mas penso que o Manuel está a fazer confusão. Aquilo a que o Manuel se refere é ao título, à “legitimização ilegítima”, e não à cerimónia. Existindo ou não a cerimónia, o que o tal filho do mafioso (ou o próprio mafioso) quereria é o papel a dizer que é Engenheiro e não é por ela existir ou não que se deixam de falsificar ou subornar admissões, pressões, notas ou diplomas. Nada disso tem a ver com o ritual de fim de ciclo. É apenas isso, uma celebração, tal como os aniversários: o fim de um ciclo, início de outro. As tradições e rituais, como disse, não podem ser ocas, nem bacocas, senão são apenas teatro. Se forem símbolos, então aí significam qualquer coisa. Mas ainda assim, e porque as coisas não são só ou brancas ou pretas, será que o filho do mafioso destruiu a validade daquele símbolo para todos os outros que esforçadamente mereceram os louros que lhes são atribuídos? Eu penso que não. O grau de validade do símbolo tem o seu quê de estatístico. Certamente não é por ter havido um Vale e Azevedo que a honra de ser Presidente de todos os Benfiquistas deixou de ser aquela digna do mais alto posto do universo! Ainda que ele, Vale e Azevedo, tenha existido.

      Quanto ao segundo ponto, longe de mim tentar provar que Deus não existe. Eu vejo a classificação “ateu” como a de um apostador: se chegasse ao casino e pudesse apostar na casas “Existe” e/ou “Não existe”, o ateu é o que apostava na segunda; o resultado certo… no estado actual das coisas, ninguém sabe. Mas isto há de ficar para outro post.

      Votos de bom jantar!

  2. José Navarro de Andrade diz:

    Ó Manuel, um bocadinho de fenomelogia, de vez em quando, não te fazia mal nenhum: things are what they are. E se os números parecem áridos, também é verdade que eles levantam as perguntas verdadeiramente complicadas e interessantes, ou seja: porquê? Porque razão uma instituição tão recente como o casamento, pois aquilo que entendemos hoje como casamento não há de ter mais de 200 anos, já não responde às necessidades (quais?) dos contraentes? Dizer que é uma conspiração é sempre uma resposta ótima: tranquiliza o espírito nas certezas adquiridas é dá força à fé. Tem é o ligeiro problema de nem sequer começar a dar respostas que sirvam para alguma coisa, mas isso é um pormenor.
    Quantro ao ateu, que sou, ponho as coisas de outra maneira: para que serve a fé se não para nos enganar e dar falso amparo?

  3. José Navarro de Andrade diz:

    by the way: excelente post Francisco; até porque concordo com tudo (ou não acharia excelente, claro).

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Francisco julgo não ter feito confusão, mas agradeço na mesma a sua explicação, que passa, ainda assim, ao lado do dilema que lhe coloquei. Não vem daí nenhum mal ao mundo.
    José Navarro, fiz 2 comments a 2 sucessivos posts do Francisco. Não encontro neles uma palavra de reparo aos dados estatísticos citados (que eu mesmo trouxe pela primeira vez para o blog há uns tempos) e muito menos lá encontras a palavra conspiração ou insinuação dela. E mais não digo a não ser que estranhei o tom. Soou-me unpleasant e para este blog prometi a mim mesmo seguir o velho princípio “rotário”: chatices não.

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