
F*-se. Já não aguento mais. São quase nove horas e ainda aqui estou. E prometi à M. que hoje chegava cedo a casa. Mas esta merda não pára. Papel, telefonemas, relatórios; papel, telefonemas, relatórios; papel, papel… PAPEL! F*-se. E tudo merda. Tudo. Só merda. Uma grandessíssima merda, é o que é! E a esta hora é que mandam a desgraça destes telegramas dos sacristas do Pedro Norton e do Manuel Fonseca com ameaças de merda por causa de uma treta de um texto sobre a porra de uma merda de um quadro qualquer. F*-se para isto. Trabalho, trabalho, trabalho. Aaaahhh! Estou cansado, porra… gasto; exangue; lívido; branco! Pensando melhor estou verde. Por fora estou branco, é verdade, mas por dentro sinto-me verde, envenenado com esta vida de merda. Agora reparo, aliás, que tudo à minha volta está verde. Só aquela gaja é que não. Sempre com aquelas roupinhas justas – que já lhe estavam apertadas há mais de 5 ou 10 quilos atrás – e aquele arzinho de p* armada em boa menina. «Chamou Sr. Dr.?»; «Precisa de alguma coisa Sr. Dr.?»; «Quer um cafezinho Sr. Dr.?»; «Ainda vai precisar de mim hoje Sr. Dr.?». Xiça, que já não a aguento mais. Se quero alguma coisa? Quero, quero. Olha, sabes o que é que eu quero? Que tires estes papéis todos de cima da minha mesa, que arranques os botões todos da merda da tua camisa e que te deites aqui em cima que eu já te digo o que é quero. F*-se. Tenho que fazer isto e ir para casa. Mas o que é que hei-de escrever agora para aqueles gajos?
– Ó Fernanda…
– Sim, Sr. Dr.!?
– Telefone se faz favor para o escritório do Sr. Norton e do Sr. Fonseca e diga-lhes…
– (…)
– Diga-lhes que…
– Digo-lhes!? Sr. Dr.?
– Olhe, diga-lhes que o quadro é muito bonito e que e que eu fui para casa jantar!
– (…) !
– Até amanhã, Fernanda…
– Até amanhã Sr. Dr.

















Ora aqui está uma saída verdadeiramente criativa, entre o negro e o autobiográfico.
É assim mesmo, Gonçalo!
Ainda por cima agora deve andar bem ocupado com a sua Madalena…
Não lhes dê cúnfia, se não abusam logo.
Mais negro do que autobiográfico, António… Mais negro do que autobiográfico…
- …
– ah… o próprio. Sim, sim, Fernanda, já percebi que és tu.
– … … …
– Eh lá, nunca imaginei que o tipo se passasse dessa maneira. Sim, senhor, o senhor doutor.
– …
– Ó Fernanda, não admira que o homem ponha os olhos em alvo. Já viste bem como essa saia te desenha a linha de anca.
– …
– Sacrista o quê?…
– …
– Ó Fernanda, logo eu que sou todo moderno, nova-iorque coisa e tal, até conheço um gajo que se deu com a patti smith. Bom , o outro sim, o teu doutor tem razão, passa o tempo a benzer-se e a fazer radiografias.
– …
– Está bem, já sei que não gostas nada dele, que o achas um matulão sem graça. E logo à noite, your place or my place?
Quem me ajuda, quem me ajuda!
Estou para aqui há um horror de tempo a conjecturar quem será o interlocutor de Fernanda…
Manuel, agora é oficial. Ganhaste. :)
Utilizando (espero que apropriadamente, Eugénia) o novo termo corrente na praça eu vestou com o Gonçalo: ganhaste, Manuel.
Luciana!
euvestou, tuvestás, elevestá…
Bom jantar, Gonçalo!
E você devia escrever mais textos assim por aqui.
Estou em crer que toda a acrimónia do nosso furibundo Autor deriva, em absoluto de Fernanda…
Acaso não terá ela, com toda aquela sonsice pressurosa — quer um cafézinho, Sr. Dr.? — pregado alguma partida do tipo daquela que é pregada ao Clooney?
http://www.youtube.com/watch?v=l2O6MgmW288