Cada um sabe de si e Deus de todos, é o que dizem. E cada um saberá decerto dos santos da sua devoção,
Santo António encabeça a minha lista. Daqueles santos que são sempre meus, como os límpidos Clara e Francisco de Assis, a intensa Teresa de Ávila, a fiel Maria Madalena, o combativo Inácio de Loyola, o aventureiro Francisco Xavier, a poderosa Rita de Cássia, o expressivo Marcos, padroeiro da minúscula terra beirã onde tenho as minhas raízes e de que já aqui falei. Com todo o apreço, que é muito, por todos os demais, com quem sei poder contar, pois estão sempre lá para nós, para o que preciso for.
Não me lembro de não gostar de Santo António. Suponho que tem tudo a ver com o ser filha de uma muito antoniana Antónia — que festeja o Santo em vez dos anos e que tem as casas povoadas de imagens suas (dele), grandes, médias e pequenas, numa imensa e divertida colecção, que família e amigos, para além da própria, fazem crescer com os mais inesperados contributos. E que muito cedo — e muito antes de o ter visto in loco na imponente versão António de Pádua – me fez saber dos seus extraordinários feitos, bem para lá das mimosas graças que o popularizaram como santo-tão-de-trazer-por-casa.
Vivo bem com este meu Santo, que muito me agrada em todas as vertentes em que actuou e actua.
Inspiram-me a sua radical seriedade, a sua profunda exigência e a sua desassombrada coragem. Porque há de facto coisas nesta vida em que se não pode e se não deve ceder ou transigir. Fascinam-me os seus poderosos dotes retóricos e de pregação, a mim a quem calhou como modo de vida argumentar e persuadir.
Não dispenso a sua vertente de achador de coisas perdidas. Multitasker a alta velocidade, sei que passaria, não fora o Santo, boa parte do meu já tão escasso tempo em busca de chaves e óculos, papéis e livros, brincos e anéis — que arrumo, largo, pouso, enquanto falo ao telefone (85% das ocorrências), converso com quem calha estar perto, penso noutra coisa. Basta-me invocá-lo e tudo, mas tudo, me aparece – sem responso e sem demora.
Confio tranquila na sua vertente casamenteira. Conheço o meu Santo e ele a mim. Ambos sabemos que o coração, como a terra, às vezes precisa de pousio. E que quando for tempo de flores e frutos, ambos saberemos — o Santo primeiro, para tudo providenciar pelo melhor, dando-me depois as pistas inequívocas, que espero saber decifrar.
Mas há mais, muito mais. Porque o que a meus olhos torna o Santo verdadeiramente imbatível é o todo que forma com a minha mãe e que faz com que cuide e vele por mim, junto com ela e em vez dela, quando a tarefa vai para lá das suas humanas forças. Sempre suspeitei que haviam feito um pacto. Soube-o no que haveria de ser o começo de uma fase especialmente dura da minha vida, quando a minha mãe me entregou um minúsculo Santo António em prata que sempre a acompanhara e que nunca mais larguei. Vai comigo para todo o lado — numa bolsa vermelha, claro – porque me lembra a presença constante na minha vida destas duas poderosíssimas forças que, conjugadas, jamais me deixam ficar mal.


















Gostei muito, Joana. E partilhamos da mesma devoção.
São logo duas coisas que me deixam muito contente, Eugénia.
Eu sou devota das mães em geral e da minha em particular…e, claro, como devota do amor e dos amantes, só posso ter muita simpatia por Santo Antônio!
Luciana, é uma exelente devoção! Nem imagina o quanto me lembrei de si quando andei à pesca desta imagem na net e descobri várias imagens do Santo de cabeça para baixo! Só não me apareceu nenhum guarda-roupa… ;)
Os que estão no guarda-roupa devem estar encabulados de ainda não terem cumprido a tarefa e não se deixam fotografar…
Que linda maneira de mostrar-nos Santo António…não sou lá muito religiosa, e do Antônio que temos por aqui conheço só a fama de casamenteiro. Já minha mãe apega-se mais à Santa Rita.
Mas gostei muito do seu António!
Olá Turmalina, fico feliz por ter gostado! Mas este meu António é muito subjectivo e afectivo, acho que não faz jus à grandeza do Santo. Para o apreciarmos devidamente acho que vamos ter de ler o livro do nosso António Benedito …
Joana, há lá em cima um complementozinho…
A sua imagem é fantástica!
Já lá fui!
António, os bonecos de Estremoz são uma das minhas perdições! Não era este Santo António que eu qieria, mas um outro — que ofereci à minha mãe aqui há tempos, em que o santo tem o capuz posto (não se vê a tonsura). É uma imagem invulgar e muito engraçada. Bem vasculhei a net à procura, mas nada. Mas este também tem um ar simpático …
Joaninha,
Bolas!! …e não é que deixei passar o dia de São Bonifácio sem te dar os parabéns?
minha amiga, aqui fica um beijinho e um abraço com votos de muitas felicidades.
…e não largues nunca o teu Santo Antoninho.
Cata, o que interessa é que te lembraste (e do São Bonifácio, credo!) e os beijinhos e os abraços de parabéns sabem sempre bem! Muito obrigada! Beijos
Olá Joana. Sabe o que me sempre me fez impressão em Santo António e outras pessoas mais ou menos importantes na história dos homens que daqui se foram e se tornaram importantes? O facto de terem deixado de ser daqui. Portugueses, quero eu dizer. Porque a inversa não é verdadeira. Desde o Francisco Suárez, de que já aqui falei, ao Calouste Gulbenkian, por exemplo, os que para cá vieram, ficaram e morreram mantêm-se espanhóis, arménios, ou o que seja. Nem os seus países os esquecem nem nós os reclamamos como nossos. Ora, isto é, em linguagem futebolística, uma dualidade de cristérios, que julgo dizer muito sobre a nossa dresistência colectiva, coisa que muito me entristece.
Olá Gonçalo, compreendo o que diz. E que no caso do Santo António é, mais que evidente, triste. Que os italianos o reclamem como deles e o naturalizem de Pádua, visto que foi por lá que ele viveu parte significativa da sua relativamente curta vida e foi lá que realizou os feitos que o tornaram grande, não me agrada especialmente, mas parece-me compreensível. O mesmo não posso dizer da forma como entre nós é visto, referido, conhecido e tratado o Santo António, reduzido a uma figura mimosa e ternurenta, pitoresca e quase matreira, entre manjericos e quadras, casamentos e responsos. Não é que isto tenha mal nenhum: faz do Santo uma figura próxima, o verdadeiro santo doméstico, um pouco à semelhança dos lares romanos. Parece-me errado é raramente se sair disto. O que de facto dificulta a legítima reclamação de tão grande figura como nossa — dá ideia que não estamos a referi-nos à mesma pessoa e, pior, que nem sequer sabemos apreciá-lo e valorizá-lo como se justificaria… Devo dizer que — como vagamente refiro no post — desde que me lembro que ouço a minha mãe falar no Santo António, sempre a insistir que não era essa a sua real dimensão, que não era por isso que era uma figura imensa, que não era essa fama de milagreiro que fizera dele, à época, o temido e respeitado “martelo de Deus” … Foi o que me valeu para o ficar a conhecer melhor!
Gonçalo, Santo António nunca deixou de ser português — «a minha Lisboa tão bonita, junto ao mar»… Os padovani é que o adoptaram, por vezes duvidando mesmo que tivesse nascido em Lisboa.
Nem o Fernão de Magalhães deixou de ser português, nem o Agostinho da Silva e muitos outros.
Mas tem razão em dizer que nós por vezes nos esquecemos deles.